Acredito que não exista um lugar onde as histórias mais se encontram do que em São Paulo. A cidade já nasceu do encontro entre indígenas e jesuítas. E o jesuíta acreditava piamente na sua missão, mas o nativo sabia muito bem cuidar da sua terra, dos seus rios, da sua sobrevivência no planalto, de sua cultura ímpar. Onde está o pátio do colégio, quantos pés a produzir o marmelo que também servia de alimento, doce alimento para aqueles primeiros habitantes… Mas, o olhar europeu foi se espelhando na cidade ao longo do tempo. E todos vieram carregados de sonhos e esperanças, comprometimento com o trabalho, com as saudades das suas distantes pátrias, subindo de Santos até a Hospedaria dos Imigrantes, onde a incerteza e a crueza da realidade os aguardavam sem dó.
Fernando Pessoa dizia que o salgado mar era proveniente das lágrimas das noivas que ficavam por casar para que o mar fosse deles, portugueses. Mas eu diria que esse mar ficou mesmo tão salgado pelo choro de todos aqueles que se despediram para sempre dos antepassados, das suas casas, dos seus amores, das suas histórias para tentarem sobreviver, escapar da miséria ou de alguma situação de guerra. Muito sal se produziu como resultado de tantas coleções de lágrimas dos milhares que vieram marcar um outro encontro com a vida. Só que em São Paulo. Uma cidade em que vejo judeus conversando com árabes na José Paulino ou no Bom Retiro sem olhar rancoroso. Chineses e japoneses que sorriem verdadeiramente entre si, esquecendo a tragicidade das guerras travadas pelos dois países de origem. Alemães e franceses que se esquecem de antigas rivalidades históricas. Os bairros das diversas comunidades mantendo tradições, sem problemas em assimilar outros valores culturais.
Nos ônibus, no metrô ou em trens as pessoas se encontram no seu cansaço e dores no corpo. No suor do verão… mas se encontram. Na hora de saborear o pastel da feira, o lanche do mercadão, a pizza do Bixiga ou do Brás ou de qualquer outro bairro… as pessoas se encontram. Pode ser no Centro Cultural, na fila do cinema ou do teatro, na mesa do restaurante ou mesmo em uma difícil situação em um trabalho voluntário. Na fé, em todas as confissões, as pessoas se encontram. Circula no sangue do paulistano uma história riquíssima, única no meio da multiplicidade de valores, intenções, projetos, sonhos e culturas. São Paulo tem que resistir às suas dores, porque a cidade está sempre renascendo. E só se nasce nas dores de parto. E o paulistano tem que aprender a contemplar, a arrumar um tempo para contemplar. Pode ser alguma sombra próxima ao Viaduto do Chá, um pé de amora esquecido em um bairro mais distante, saborear a arte de buscar uma muda de jabuticabeira na casa da prima, um grande sorriso ocorrido ao acaso, aquele "bom dia" dado pelo feirante na tentativa de oferecer o seu produto.
Pode ser a contemplação de uma tela exposta no Trianon ou mesmo na casa da vizinha. Contemplar a nova embalagem do café Moka, no seu centenário, exibindo o Pátio do Colégio estampado escandalosamente em vermelho. Andar muito a pé mesmo, fugindo do congestionamento, para uma esfiha em casa árabe. Ou mesmo para comer um pão com mortadela em alguma padaria. E nem precisa ser, forçosamente, no mercadão.
Não ter constrangimento de parar na Ipiranga com a São João apenas para olhar as placas das ruas se encontrando. Quando passo ali com o meu filho, ele fica apreensivo, mas logo pergunta: "Aconteceu, mãe? Aconteceu alguma coisa no teu coração?" "É claro que aconteceu, meu filho"… Mas, eu nunca soube explicar o que. São Paulo tem sabor de história viva, plena, repleta de entusiasmo e de cansaço. Encharcada de sonho e poesia, mas de frustrações também. Mas qual vida não é assim?
Parabéns, minha santa terrinha! Você é uma parte importantíssima do mundo, com cheiro de eternidade, de convulsões, ganhos e muitas perdas. Um local de paixões, de música, de exaltação da fé. Cidade que também nos faz viver na insegurança, mas é apaixonante e também uma cidade de paz esperança.
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