São Paulo, só pra te ver

O guarda apita. Está interditado. Para. Anda. Olha o desvio! Trânsito. Para. Anda. Cansaço.

Pego um ônibus em direção ao centro e no caminho olho pela janela. Tudo parece tão normal. Agora, aqui, assim, sentado em um ônibus, numa situação corriqueira, percebo que perdi muita coisa. Sabe que eu nunca tinha reparado nisso? A gente podia ver mais, mas deixamos as coisas passarem, assim, todas em vão. É melhor eu olhar mais atentamente.

É… São Paulo, das ruas e ruas, dos prédios e prédios. Da vida que continua lá fora. De toda uma gente que vive se embalando ao som das buzinas dos carros ou pelo apito dos guardas, e passa a vida sem olhar para o outro lado, de uma outra forma, e nem conhecem um ângulo diferente da cidade. Bem aquele que ninguém vê. E que só você pode encontrar.

Aos olhos do cobrador, São Paulo continua sendo a mesma de todos os dias, em que todos aqueles que passam pela catraca são iguais. O homem que grita na rua é qualquer um. As lojas fecham ao cair da noite como de costume e quem trabalha volta pra casa. São Paulo, São Paulo. Cidade que nunca para.

Na esquina em que eu viro, bem ali, um sentimento estranho nos faz entender um outro sentido da cidade, e as coisas mudam repentinamente. Às vezes temos que encarar as coisas como elas são, pois elas não deixam de acontecer, não param como se estivessem presas em um engarrafamento. E aproveitar ao máximo isso, como se uma nova música nos embalasse pelo caminho e nos mostrasse outras emoções.

A moça entra no ônibus, assim como fizeram outras que lá estão. Mas ela já é diferente e única como cada pessoa, cada coisa que me cerca. Não sei se a São Paulo que ela olha pela janela é a mesma que a minha ou se é outra, somente dela. Ela pode estar perdendo muita coisa.

Na Liberdade dos japoneses ou na 25 do comércio, quero passar pela Augusta para esperar, em vão, que tudo pare um pouco. Sabe que às vezes também quero ter a São Paulo de todos. Só para mim. Por um minuto que seja. Como um garoto curioso, sentar no meio fio da calçada, e me sentir o maior de todos.

Diante dos prédios que me cobrem, olhar lá no alto, e imaginar tudo o que acontece lá tão perto do céu. Tentar passear com os olhos, dentro dos carros que sobem a Consolação. Querer parar as pessoas que correm apressadas pela Paulista, numa tentativa de nesse mínimo instante ter a cidade só para mim. Ali quietinha.

Na minha frente, um senhor conta uma história ao passageiro do lado. Conta história da história que ele se lembra quando passa por ela. Na Sé, na Praça da República, no Largo São Francisco. Numa São Paulo que existe só nas saudades do velho. Que só ele vê.

Sei que alguém, um dia, quis parar um pouco e olhou com outros olhos essa vida que a gente vive. O Caetano, por exemplo, passou por uma esquina e, sem querer, sentiu alguma coisa acontecer em seu coração. O Martinelli queria mais e mais, e lá de cima, teve toda ela a seus pés. Para o Mário, uma paulicéia desvairada e o Adoniran, tanto fez, que acabou perdendo o trem, e teve que esperá-lo até "amanhã de manhã".

Numa cidade onde tudo se pode e tudo se tem, acabamos perdendo momentos importantes, que só ela nos pode proporcionar. Se eu pudesse, faria da mesma maneira, e em meio de olhares dispersos e apressados, encontrar uma nova São Paulo. A minha São Paulo.

Ao longo do caminho encontro e deixo pessoas rapidamente. E cada uma delas tem lá sua cidade em seu olhar. Dos casais que namoram no parque, a cidade amada. Da criança que nasce na maternidade, a cidade desconhecida. O homem que é enterrado no cemitério já não tem mais a cidade. O motoboy que a atravessa, tem toda ela.

Palco da história, das saudades, de um passado presente, da vida vivida, da vida deixada. Palco da imagem perdida, de um amor encontrado, de palavras precisas. Palco do que passa pela gente ou do que fica.

Seja no Brás, no Bixiga ou na Barra funda, São Paulo é mais do que se imagina. É o que fascina os olhos de quem se permite sentar e observar, ali mesmo, totalmente boquiaberto, e faz entender que tudo tem sentido e se completa. Onde se tem verdades escondidas e mentiras escancaradas, um cenário contraditório se constrói, mas não deixa de ser um tanto interessante.

É preciso parar um pouco no meio da cidade para conhecer a sua cara. Para ver que em São Paulo, até o seu mínimo detalhe é intenso, agitado e fascina. Que é um lugar que nada pode se separar, onde é uma construção maior, que é a síntese de olhares diversos dos paulistanos e daqueles que a adotaram de coração. E aquele que é paulistano, não escapa de sua sina.

Por mais que ora engrandeça, ora a destrua, sabe que não deixa de ser e viver São Paulo. Jamais poderíamos pensar em pará-la, nem que seja só pra te ver. Entender que não pode ser diferente. Melhor assim. Se não, ela perderia toda a sua graça. E eu ali, totalmente tomado por ela.

Ponto final. Está na hora de descer.

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