Madrugada fria, tudo escuro, nem sinal do dia nascer, a cabeça num turbilhão de pensamentos, parecia levitarem o meu corpo tal a ansiedade pela tão esperada primeira viagem de trem com destino à capital que iria conhecer. Parece que dormi pronto para partir. A primeira etapa da viagem em Ford 1929 era para ter à estação. A paisagem era familiar e o trajeto curto, mas era na estação que o meu pensamento morava. Durante o percurso foi que a aurora se anunciou. Uma densa neblina deixava passar por frestas os raios do sol, havia na vegetação gotículas de orvalho. Finalmente a estação no sopé da serra coberta por fechada floresta de eucaliptos e envolta pela densa serração. O prédio da estação de estilo inglês com tijolos vermelhos à vista, telhado cinza de cimento, calhas e dutos de latão, janelas de caixilhos de madeira com vidros eram guarnecidas por grades de ferro, assim como o guichê das passagens, aonde se formou uma fila. Foi no sanitário que tomei conhecimento da louça que tinha as inscrições: Southampton e England. A plataforma de concreto desempenado acompanhava por vários metros a linha que cruzava com outra que era a das manobras dos vagões de carga. Ainda aceso com tanta novidade, ouvi um apito, para instantes depois ver numa curva a locomotiva resfolegante, chiando e soltando baforadas de fumaça tal o esforço para vencer a serra, já no plano ela soltou um suspiro de alívio e lentamente foi parando na plataforma apinhada de gente. Houve uma breve correria para tomar os assentos. O meu pai, experiente, abriu uma janela e tomou dois lugares estendendo sobre a poltrona uma capa de chuva. Os vagões de madeira, eram na parte externa ripados na vertical. O teto era cimentado e parecia uma grossa lixa. Decorada com bom gosto, tinha na parte interna o teto arandelas de metal polido e abajures de vidro transparentes decorados com filetes prateados e rebuscados. Malas, pastas, pacotes, e toda a sorte de embrulhos eram colocados numa prateleira perto do teto. De tempos em tempos vendedores de bebidas, guloseimas, jornais e revistas percorriam os vagões anunciando produtos. Ainda absorto nas minhas fantasias, um apito estridente e curto do Guarda-Trem dava o sinal com uma bandeira verde autorizando a partida. A locomotiva respondeu com o seu apito, e num tranco arrancou para o seu destino. Sucederam a Campo Largo outras paradas: Yara, Paul Arcado, Km.7, aonde houve embarques de pessoas, aves em engradados, cabras, bezerros, cães perdigueiros e caçadores com espingardas. Na composição havia vagões abertos carregando lenha, e fechados transportando café com destino ao porto de Santos. O Guarda-Trem sempre anunciava as paradas, agora ele avisava que a próxima seria a baldeação para a Capital.