São Paulo quatrocentão

São Paulo ao comemorar seus 459 anos, gostaria de prestar uma homenagem ao imigrante português Sr. Ivo. Na década de 50 comprou seu bar lá no Tatuapé, localizado na Rua Felipe Camarão, esquina com a Rua Potiguares. Era casado e tinha uma filha de mais ou menos três anos. Trabalhador, ou melhor dizendo, batalhador. Seu bar abria as 5h da manhã e ia até as 22h, ininterruptamente (não tinha nenhum empregado). Sempre sorridente e com seu sotaque de portuga e o coração de uma mãe, cabiam todos nele. Ele quem abria o bar e ia até as 14h, onde a esposa ficava até as 17h, retornando e ficando até o fechamento do mesmo. <br><br>Como disse, ficava de esquina tendo três portas de aço e seu tamanho era mais ou menos 3 x 8 m. Um balcão sem bancos (ele dizia que sem nenhum banco o freguês comia e ia embora) dando lugar para outro. No fundo tinha duas mesinhas para refeições e uma porta que separava o bar da sua residência. Como característica de todos os bares havia aquela cafeteira enorme e no balcão uma estufa com ovos cozidos (naquele tempo não havia salgadinhos), vários recipientes de vidro (não tinha nada de plástico) com sardinha ao óleo, cebolas apimentadas, picles e os famosos tremoços. Os lanches servidos era o bauru e o misto quente. As refeições rápidas da época eram o básico: arroz com feijão, tomate em rodelas com cebola e ovos (não serviam folhas nem bifes). Do lado de fora tinha a bomboniere com os doces fornecidos pelas Indústrias "Confiança, Doces Neusa, Bela Vista e Dizioli".<br><br>Os doces eram: cigarrinhos de chocolate, doces de leite, pé de moleque, paçoca, chicletes, maria-mole, suspiro, doce de abóbora em forma de coração e cocada. As balas eram: de goma, Embaré, Paulistinha e as deliciosas Juquinha. Vale ressaltar a história de um doce que são os "Dadinhos". Se vocês lerem o papel do Dadinho, vão encontrar o recado "IV Centenário". Pois é… O Dadinho é velho, mas nunca viu a cara dos índios, porque ele não tem 400 anos! A guloseima foi lançada para comemorar o 4º centenário da cidade de São Paulo, em 1954, e levou esse nome – IV Centenário. Acontece que o nome não pegou. Na verdade, logo a guloseima era chamada de Dadinho e assim ficou até hoje. <br><br>Em frente ao bar do Sr. Ivo havia a Indústria de Calçados "Camelo" sua fonte de renda nos fornecendo os lanches e as refeições rápidas. Os operários geralmente levavam sua marmita, e de vez em quando tomavam seu lanche no bar do Ivo. Tinham aqueles que faziam sua refeição diária pagando no final do mês. Era anotado em uma folha de "papel de embrulhar pão" e pendurado na prateleira. Os novatos da Fábrica na hora do almoço eram levados pelo "Zé" e apresentados ao Sr. Ivo, já virando freguês com crédito para os lanches diários. Alguns, apesar da bondade do Sr. Ivo não gostavam de gastar muito, fazendo sua refeição apenas de um "ovo cozido" e um copo de leite com groselha (groselha vitaminada Milani). <br><br>Após essas fartas refeições, os operários deitavam na calçada para descanso enquanto outros jogavam futebol na rua ao lado que não era calçada e nem asfaltada, aguardando o toque da sirene para retornarem ao segundo turno. Após batalharem muito (ele e a esposa) não sei por quanto tempo foi, ele trouxe de Portugal um sobrinho que passou a morar e trabalhar com eles, sobrando um tempinho para seu descanso diário. O Zé, que apresentava os novos funcionários ao Ivo, perdeu sua mãe ficando mais ou menos uns 15 dias sem aparecer no trabalho.<br><br>Assim que retornou procurou o Ivo dizendo que estava indo embora para o Ceará, onde tinha seus familiares (tinha uma irmã de 20 anos e um irmão menor de 15) e queria acertar a conta do mês. O Ivo além de não aceitar o pagamento, se prontificou a pagar as passagens dele e dos irmãos, no que o Zé agradeceu dizendo que a Igreja Evangélica que pertencia sua mãe já havia providenciado e pago. Na despedida aquele abraço no Ivo, deixando seus olhos mareados (contado pelo meu amigo Tomé que estava presente). Naquela semana o Ivo trabalhou meio carrancudo, sem muita prosa, e notamos também seus olhos sempre vermelhos, no que disse confidencialmente sua esposa que o Zé representou para ele um filho que foi embora para sempre.<br><br>Até o Sr. Teixeira que tomava todo dia seu "Rabo de Galo" na saída do trabalho, sempre brincando com o Ivo dizendo: O Ivo me faz aí um misto frio, no que respondia o portuga: vai demorar um bocado porque tens que esperar a chapa esfriar; notou que o Ivo nesse dia nem respondeu a sua brincadeira. Para quem trabalha afinco, sempre vem à recompensa, nos comunicando o Sr. Ivo que tinha arranjado um sócio (patrício) e terem comprado uma padaria/confeitaria e pizzas na Av. Rio Branco, vendendo seu ponto do Tatuapé. Voltou meses depois para uma visita ao bairro, já com um Fusquinha 66 dizendo estarem bem e que tinha 12 funcionários trabalhando para eles, e que seu sócio iria ao final do ano para Portugal em visita e no retorno o Ivo é quem iria com a família, matar as saudades da sua terra querida. <br><br>É a historia que eu tenho para contar desse "imigrante português Sr. Ivo" que soube como tantos outros portugueses aproveitar as oportunidades dadas pela nossa São Paulo da Garoa, Quatrocentão, e dos imigrantes, enfim, que contribuíram e contribuem para o crescimento constante da nossa capital, reconhecida por eles como sua segunda pátria.<br><br>Parabéns a você nessa data…<br>Viva São Paulo, viva o Tatuapé, viva todos os bairros dos nossos queridos amigos do SPMC.<br><br><br>E-mail: [email protected]