São Paulo poético

(Alto da Lapa)

Este é um premonitório solilóquio, num tempo de grandes modificações da história dos bairros deste São Paulo, cenário dos últimos lampejos, nos meados do século passado. Aqui, os olhos e a nossa mente, também, são objetivas fotográficas, que registram os acontecimentos de uma época distante. Por isso, resolvi recordar a cidade, quando ainda tinha apenas novecentos mil habitantes.

Inicialmente, o Alto da Lapa. É aqui em cima, que moram quase todos os ventos de São Paulo. Rua Pio XI que é uma rua alta e tem um oratório festivo da Casa Don Bosco. Ela é uma subida alongada, arrastada, cansada. Hoje é domingo. O céu está azul e a terra está seca. E venta e venta no céu e na terra. Aqui em cima, parece girar a Rosa dos Ventos. Dos pneus do meu automóvel, sobe uma nuvem vermelha, que se desmancha atrás, morrendo. O meu cigarro dura, um minuto apenas, todo tragado pelo ar inquieto da altura. Aqui é o bairro tipicamente de antípodas de São Paulo.

E entre o alto da colina longíssima e o olhar pertíssimo e implicante dos bagalozinhos dos novos ricos do Alto da Lapa, da Cia City; em contraste, ali embaixo, na Estrada da Boiada, no fundo de uma bacia côncava, está um punhado de casinhas, todas modestas, encolhidas, junto à várzea do Pinheiros.

Lembrei-me do velho governador Adhemar de Barros, ao olhar para aqueles cerros baldios da várzea do rio Pinheiros, perguntou em tom de ironia, se ali era, a cidade dos sapos. Ali é São Paulo? Não sei. São Paulo parece que está tão longe, lá, muito além daquele arrepio de chaminés de fábricas, e dos balões de aço das caldeiras das indústrias do Matarazzo, na Água Branca, com seu slogan Fides Honor Labor (Fidelidade Honra e Trabalho) dependurados na fachada do prédio de tijolos vermelho; das chaminés da vidraria Santa Marina, um pouco mais adiante, no entorno da várzea, além daquela verdura de parque ecológico, que tem uma cobra d'água parada no meio… O Rio Tietê.

Mirante do Alto da Lapa, praça do Por do Sol, onde ele descamba suavemente no horizonte do poente. Dali avista-se, quase tudo no entorno dos quatro cantos da cidade. Hoje, deixei ir também por aí, sem querer, nesse vento irresistível, o meu pensamento. Parece loucura. Tenho necessidade de prendê-lo aqui, retê-lo nisto: este é o bairro coeso da comunidade italiana de São Paulo. Rua Coelho de Carvalho. Na rua mora uma rosa… Rosa, sim. É uma Maria Rosa, com muito pólen, a menina dourada, que apareceu à porta de uma casa. Vestia uma saia rodada de crépon azul marinho. Pequena, alva; maxilares salientes; olhos estirados de um verde azul celeste; cabelos que são um clarão, aparados rente; ela lembrou-me uma noite em Nápoles, lá na terra da vida e dos amores, adormecendo ao sol da primavera, no colo das virgens de Sorrento. Lá, entre os laranjais, entre os loureiros, onde a noite seus aromas espalha nos céus da Itália. Perguntei a Rosa do Alto da Lapa. — Você tem tudo aqui? Luz, gás? Água encanada? – Tem tudo, diz ela. Tem até um burro. E, na ponta de seu bracinho cor de rosa, seu dedo irônico, de unha pintada de esmalte, mostra um burro solto, que passeia pela Rua São Domingos Sávio, com uma expressão feliz de proprietário e de domingo.

Ela está enganada. Não tem luz, não tem água encanada e nem gás de rua. No entanto, passam pela rua quente, gorduras femininas. As saias são extremamente folhudas. E as meias são grossas, opacas demais, de um algodão cauteloso. Uma está toda de azul escuro. Parece uma freira, está exata, caracterizada, parece que saiu do Colégio Anjo da Guarda, no topo da Praça do Por do Sol. Não, é apenas uma italiana. Não, é a Itália inteira.

As pernas impressionam-me: parecem garrafas de champanhe de boca para baixo. Não, são só pernas camponesas. Traz uma breve lembrança das planícies do trigo maduro e das granjas cercadas de acácias… Nos saraus, e as noites belas da Itália, dos sonhos fervorosos da donzela que na luz da lua, sob as montanhas e as torrentes, murmurando nas canções de Arminda, heroína libertada pelo poeta Torquato, com seus encantos e magias conseguiu reter seu amado Reinaldo; e suspirou com ele a Fornarina, a filha de um padeiro, uma romana de grande beleza, amada por Rafael Sanzio onde lhe veio o apelido.

Lembrei-me também, dos Bacarelli, uma empresa de ônibus, com seus velhos e antiquados carros volvo cinza, derrapando no barro vermelho, na curva sinistra da Cerro Cora com Ponta Porã. Há ali perto, numa esquina, numa sala de cal esponjada, com bolas de papel crepom que foram de cor azul, sobre um estrado altíssimo, onde duas sanfonas tocam ao sabor da rosa dos ventos a tarantela.

Passa numa praça de chão duro e capim molhado, um fotógrafo ambulante. Mais além? Nada mais. No Pára-brisa do automóvel, que agora desce a Rua Pio XI rumo ao centro da cidade, o ar cortado pelo vento da Rosa dos Ventos, ouço Lizst; o velho Lizst que eu não ouvi lá em cima, neste domingo de oratório festivo sério e pesado como a coroa de ferro de Santo Estevão sob a cabeça.

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