"São Paulo, o Futuro, a Odisséia" (Um conto do tipo "fiquem velhacos")

O narrador:
Nossa nave desconectou-se da teia formada por suas naves irmãs e começamos a descer em direção ao destroçado planeta Terra. Sondas foram enviadas para analisar a consistência da grande cortina negra que ocupou as alturas da antiga camada de Ozônio. Agora falta pouco para nossa volta, embora nós nunca tivéssemos saído. Difícil de entender? Começo a explicar: somos filhos de nosso tempo e nosso tempo, desde nossa criação (ou nascimento), transcorreu e transcorre no espaço. Nossos dias e nossas noites duram 90 minutos e alguns poucos segundos, “estroboscopicamente” em escala galáctica.

Nossa diáspora espacial começou centenas de anos atrás, após uma série de tragédias de proporções gigantescas, quase o Juízo Final. Para nosso retorno fui designado como pioneiro paulistano e minha missão e de outros e outras é repovoar a área da antiga cidade de São Paulo. Peço, antecipadamente, desculpas por minha emoção e pelo fato de, por vezes, meter os pés pelas mãos, engolir palavras, demonstrar lapsos de esquecimento… Não reparem, mas preciso testar o equipamento de gravação de áudio e de fixação de imagens de nosso EHT – Equipamento de Holografia Total. Estou trabalhando: 1,2,3, gravando, ssshhh, som, som, 1,2,3…gravando, 1,2,3… ao três… 1,2,3: recording… Comecemos:

Ah! São Paulo, eu caminho por suas ruas, seus viadutos, suas pontes, faço sobrevoos sobre seus prédios, flutuo sob seu céu, percorro seus parques cheios de árvores com seus galhos, folhas, flores, suas cores e seus perfumes. Pelo que eu vejo e já estou condicionado a vê-la dessa maneira, pieguice seria de minha parte afirmar o contrário, amo a São Paulo que não conheci, cidade de meus ancestrais, pelo menos imagino que tenha sido, idealizo e tenho a minha própria São Paulo, a máquina (talvez eu não devesse começar meu texto com uma informação que quase "abre o jogo" todo. Agora já foi… além do mais, é muita poetagem idiota logo de cara e não é este o intuito deste documento gravado. Serei mais técnico, mais didático a partir de agora!).

Recomeço: tenho como meu conhecimento que a cidade de um lado, ao norte, ultrapassou a elevação do terreno, a que, não faço a menor ideia do por que, chamam de Serra da Cantareira, ou dizendo melhor chamavam, e estendeu-se praticamente por dezenas de centenas de quilômetros, abarcando outras grandes metrópoles como Jundiaí e Campinas. Em direção ao Lamaçal Atlântico, atirou-se sobre a região metropolitana da antiga Baixada Santista que, por sua vez, chegara até a Cota 700 da Serra do Mar, abatendo-se sobre ela qual cachoeira de concreto, metais e lixo.

Octopus estendeu seus tentáculos e engolfou todo o vale do antigo Paraíba, a Mantiqueira e toda a região metropolitana do Rio de Janeiro, Serra das Araras a baixo, criando um emaranhado humano de cerca de 600.000.000 habitantes, um absurdo, a morte prenunciada e anunciada de vidas e da super mega cidade de São Paulo do Rio de Janeiro, ingovernável, morta por autofagia, por tragédias geológicas e, se é possível pensar nesses termos, suicídio por afogamento nos rios de esgotos ou envenenamento, ou por doenças que adquiriu conscientemente nas montanhas de lixo! O começo do fim, o planeta treme. Como foi possível chegar a esse ponto? A humanidade não teria aprendido nada em seis mil anos de história registrada em rochas, em tabuinhas de argila, em túmulos de faraós e sacerdotes, em papel, em papiros, em pergaminhos?

De repente o tsunami de lixo, destroços, uma onda, a “big one”, uma massa movente, disforme e apodrecida invadiu tudo, seguida por uma sequência interminável de terremotos e explosões do metano acumulado em bolsões e em espaços intersticiais das centenas de camadas de plásticos, metais, corpos decompostos e em decomposição por séculos, nos antigos rios, nas antigas fossas oceânicas, “Mindanau” e outras, no vórtice do antigo Oceano Pacífico, quando furacões, vulcões e terremotos fizeram desaparecer a Micronésia, a Polinésia, a Indonésia, o arquipélago do Hawaii e parte da Austrália; todo o lixo do mundo flutuou de uma vez em praticamente todos os lamaçais, o Lamaçal Atlântico, o Grande Lamaçal Pacífico, o Lamaçal Índico, que os antigos oceanos transformaram em uma gosma venenosa, explosiva, em pântanos sem vida, em uma grande fonte de material combustível, biomassa em quantidade planetária, tudo acontecendo após a maior acomodação de placas tectônicas jamais acontecida desde que o universo começou a expandir-se e nosso planetinha começou a esfriar e a sofrer as doenças de sua primeira infância.

Evidentemente, devido ao deslocamento de alguns graus no eixo de declinação da eclíptica, foram criadas alterações nos Cinturões de Van Hallen, anomalias nos campos magnéticos do planeta, a queda dos dominós, castigo de Deus, sabe-se lá, originando toda a tragédia que se seguiu durante e após os acontecimentos que mudaram a face do planeta…

São Paulo do Rio de Janeiro tinha seus habitantes, todos os 600.000.000 percorrendo distâncias enormes, andando sobre montanhas de lixo, inexistentes por inúteis; os transportes coletivos ou individuais de superfície, os 17800km de túneis do metrô, que nos séculos XXI e XXII serviram de abrigos antiaéreos, refúgios, “bunkers”, durante as invasões provocadas pela Grande Seca que grassou por todas as antigas Américas e que teve por fulcro inicial o Grande Deserto Amazônico, passaram a ser dutos condutores de gás, sujeitos à incêndios e explosões e, mesmo pensando em uma segunda opção, serventia de “cidavelas” subterrâneas (cidades transformadas em favelas, designação, nomenclatura, classificação implantada no sistema por urbanistas formados pela USP, sucessora das grandes universidades inglesas e americanas), tornou-se impraticável, dado o volume de lixo que foi se acumulando durante algumas centenas de anos e porque muitos de seus milhões de renitentes moradores eram arrastados ou afogavam-se frequentemente em caudalosos e amazônicos rios de chorume, quando não eram atacados por enormes hordas de ratos do tamanho de capivaras, por capivaras carnívoras, morcegos hidrófobos gigantescos…

Triste, muito triste; o planeta, a cidade morta em um estalar de dedos, o dedo de Deus apontado contra a humanidade? "Lhes concedi o livre arbítrio e o livre pensar e vejam o que vocês fizeram com Minha Obra, cambada de cretinos, cáfila de idiotas, magote de débeis mentais!" (imagino uma voz estentórea que ecoa por toda a galáxia, por todo o universo; envergonhado, baixo minha cabeça e peço perdão bem baixinho…).

(Melhor explicar logo minha situação… é tudo muito simples…). Nasci – ou fui criado – em uma órbita estacionária, a 1600km da superfície do planeta, na escuridão estrelada eternamente do espaço. Vivo em um globo geodésico enorme, um entre milhares de satélites artificiais habitáveis, que começaram a ser montados no espaço, primeiramente a meio caminho entre a Terra e a Lua, em uma espécie de escala entre os dois corpos celestes. O sonho de colonizar Marte, tendo a Lua como escala intermediária, simplesmente não funcionou. A Lua seria um trampolim para Marte, questão de economia de combustível, de condições atmosféricas – digamos assim – perfeitas e baixa força gravitacional.

Todos os problemas relativos à Física Clássica, à Matemática, aos Cálculos sempre foram resolvidos de maneira exata, missões que poderiam ser desenvolvidas facilmente mesmo por cientistas comuns da época. No entanto, a tecnologia aplicada nunca conseguiu resolver todos os problemas porque, à medida que se avançava nos propósitos iniciais, mais complicações surgiam e, resolvidos os problemas surgidos, problemas maiores apareciam do nada e tudo voltava à estaca zero. Entre outras coisas, o homem nunca conseguiu se adaptar nem à Lua nem à Marte, outros planetas nem pensar… Esse imbróglio prosseguiu até que os “Senhores da Razão” decidiram parar com esforços inúteis e investir no retorno ao planeta, agora pelo “Homo Terraqueus Sapiens Sapiens Sapiens”, em uma desesperada tentativa de repovoar a Terra-mãe, mesmo que fosse à ferro e à fogo.

Este seu criado foi um dos Escolhidos para fazer parte da primeira equipe do Grande Retorno – buchas de canhão ou Malucos Bandeirantes… Duas gerações de Escolhidos vêm sendo treinadas nos EHT – Equipamento de Holografia Total – para viver no planeta abandonado há muitos séculos passados. O EHT reproduz ambientes e ambiências que podem ser acessados através de quatro sentidos, uma realidade irreal, com aromas e sensações físicas e biológicas; reproduz locais, pessoas com que você pode interagir, tocar, experimentar seus corpos como se fossem corpos físicos de verdade, de carne e osso, atuar em intercursos sexuais, por exemplo, obrigações e protocolos que deverão ser cumpridos imediatamente após o Grande Retorno, tão logo se consiga adaptação à gravidade e que nossa ossatura seja totalmente restaurada. Nada mais de corpos com esqueletos cartilaginosos, flutuar, de voar, hora de sentir o próprio peso… Como será?

Fui designado para me estabelecer em uma área onde ficava a antiga São Paulo bem antes da fusão com o Rio de Janeiro e parte do Espírito Santo. Cargas monstruosas de hormônios vêm sendo injetadas em mim e em minhas 18 colaboradoras para reativar glândulas hipoatrofiadas e para que seus óvulos estejam disponíveis e possam ser impregnados por espermatozoides através de antigo processo biológico. Essas técnicas são aprendidas nos EHTs disponíveis em todos os satélites geodésicos, nossos lares por séculos.

Durante oito gerações foram criados alimentos sintéticos visando o retorno à Terra, o que acabou banindo o canibalismo, talvez um progresso, segundo alguns; ficou decretado que os não escolhidos teriam seus habitáculos alveolares lançados ao espaço até seu completo desaparecimento, tão logo morressem. Seus corpos não poderiam mais servir como base alimentar e assim fomos obrigados a nos acostumar às mudanças de dietas e cardápios, coisa difícil, difícil…

O narrador procura desanuviar um pouco o seu relato e fala sobre o “modus vivendi” da população do espaço… (ou pausa para respiração). Apesar de todos os esforços por parte de nossas maiores mentes, muitas coisas ou são extremamente secretas ou ainda não foram decifradas. Nossos melhores paleógrafos e linguistas, fiquei sabendo por fonte relativamente confiável, atualmente têm trabalhado em alguns documentos que foram microfilmados quase 900 anos atrás e que, talvez, possam explicar como a cidade chegou ao ponto em que está.

Um valioso material recuperado em processos prospectórios, em pesquisas quase que arqueológicas, imagino que sejam protoprocedimentos técnicos ou tecnológicos dos séculos XX e XXI D.C., coisas absolutamente rudimentares, ainda do tempo dos computadores pessoais, chips, notebooks, tablets, telefones celulares, televisões, primitivismo total, ecos da Idade do Silício, quando dos primeiros passos para o surgimento do “Homo Sapiens Sapiens Sapiens Brasiliensis”, pesquisa que começou por puro diletantismo, nada mais.

Os especialistas começaram agora a decifrar os códigos que irão abrir alguns universos de conhecimentos do passado. Ao menos, para aguçar nossa curiosidade, os paleógrafos nos apresentaram três grupos de caracteres de alguns poucos códices que foram liberados para conhecimento de alguns privilegiados, entre os quais estou incluído. Ainda não sabemos o seu significado, mas como nossos arquivos podem percorrer no mínimo seis mil anos, desde as primeiras manifestações humanas, a palma da mão de hominídeos impressas em barro fossilizado em diversas cavernas por todo o planeta, o primeiro texto dos chineses, tudo dos essênios, tudo dos judeus, dos galileus, dos nababeus, dos cirineus, ur, atlantis, os gregos, cretenses, aztecas, zapotecas, maias, incas, xavantes, lampião, sete dedos, kranhakarore, yanomani, dioguinho, pelé, sabemos teoricamente tudo sobre Israel, Filistina, Cro-magnons, Australopitecus africanus, Homo de piltdown, manifestações do menino de Taungs, o homem de Neanderthal, o Australopitecus prometeus e seu crânio calcinado, Etruria, Roma, "delenda est carthago, vae victis", gregos, cretenses, Dédalo, Ícaro, a rainha Ginga, Darwin, Howard Carter, Lord Carnavon, tudo, tudo, tudo!

Como puro “divertissement” intelectual, transcrevo aqui a forma desses caractéres desconhecidos que nos foram apresentados: “renúncia de Jânio provoca pânico em Brasília”, “o Tico-tico, revistinha infantil” e, o último, “Corinthians campeão da Libertadores”. Confesso que não sei o que esses garranchos deselegantes possam significar, mas confio nos sábios que são designados pelo Conselho de Sábios Maiores para pensar por nós, que não conseguimos pensar devido às modificações em nossos códigos genéticos. Digo “nossos” códigos genéticos, mas eu e muitos outros fomos excluídos desse procedimento laboratorial por motivos de reprodução através de processos físico-biológicos. Portanto, fomos “treino-ensinados” a pensar, a reconhecer emoções, a termos lembranças e esquecimentos, alegrias e tristezas. A nós, Escolhidos, nos é permitido explorar, à exaustão.

O Equipamento de Holografia Total, uma espécie de treinamento e ao mesmo tempo um prêmio por nosso sacrifício e pelo fato de vivermos como seres humanos primitivos, mas com vantagens inerentes ao século XXIX, nosso conhecimento quase atingindo o absoluto, o total. Dia desses, vi no Museu do Passado, a representação holográfica de equipamentos antiquíssimos, verdadeiros trambolhos, enormidades. Muita coisa se perdeu durante e após a grande tragédia, uma pena, verdadeiramente uma pena, uma lástima. Mas, as reproduções holográficas totais sempre me deixaram impressionado, extasiado, principalmente quando dizem respeito a São Paulo; preciso confessar que sou um viciado nessas excursões pelo passado distante. É como se eu vivesse a 700, 800 anos passados, quando a vida na cidade deveria ser bem diferente, muito diferente, e eu acredito que outras pessoas devam sentir as mesmas sensações de uma saudade inexplicável, lembrança do desconhecido.

De 2150 em diante, a cada 20 anos, uma cápsula do tempo passou a ser depositada nas instalações do Museu do Futuro e agora estão sendo abertas e estudadas. O material dessas cápsulas, processado, fornece subsídios para alimentar as incríveis capacidades dos Equipamentos de Holografia Total…

Terminando:
Preciso terminar essa gravação. Devo me paramentar, vestir roupas especiais, há alguma urgência… Nossa aterrissagem, nosso retorno, estamos próximos, estamos chegando, estamos chegando. Olho nos instrumentos, cintos de segurança, luzes e sons sincrônicos, avisos, luzes de diversas cores “piscapiscando”… Após nossa aterrissagem, ficaremos pelo menos cinco anos dentro de nosso habitat geodésico e, a partir de aberturas valvuladas e com diferenças barisféricas para entrada e saída de seu interior, minha equipe precisará começar trabalhos de prospecção, terraplanagem e arqueológicos, criando uma grande caixa, um vazio de 1km³, onde nosso antigo lar no espaço deverá se encaixar até nossa total adaptação. Deveremos trabalhar com a compostagem, retirando dela o O2, o Ni, o H2O e outros elementos e compostos químicos, além de material para a sintetização de alimentos básicos… Espera-se que em mais 800 anos o planeta possa vir a ser razoavelmente habitável…

Passamos pela Grande Cortina Negra a 30.000km/h e a Terra se mostrou por inteiro. A área externa de nosso globo como que se incendeia até que os servo-controles matematicamente programados nos coloquem em órbita estável. Ficaremos por 130 dias solares em órbita baixa, cerca de 300km de altura, até que nossos cérebros se “retreinem” para processar os nossos sentidos… Aos poucos tudo vai ficando mais nítido, vejo cores naturais e não cores “matemático-digitalmente” criadas… Olhando para nosso planeta, para a área da antiga São Paulo, sinto que sempre tive um liame fortíssimo com a cidade. Estou ansioso para voltar para onde nunca estive… Depois de quase 900 anos, Yuri Gagarin, sua frase acaciana – "A Terra é Azul" – e seu tempo! Os de Gagarin eram outros tempos, tempos diferentes, quando as máscaras-filtro não eram necessárias para se respirar e o planeta visto do espaço era realmente azul; hoje, a Terra é cinza, marrom, negra e emite clarões de fogo fátuo e labaredas de fogo que chegam a 30, 40km de altura… Acreditem…

Um dos poetas da antiguidade mais longínqua disse: "…meninos, eu vi!… Acreditem, meninos! Estou vendo a verdadeira verdade! (mas que mania de poetar,que saco!) Estamos de volta a São Paulo! Matematicamente aterrissamos em um lugar que os antigos mapas chamam de Marco Zero; por aqui, em direção Sul, deve haver à 250 ou 260 metros de profundidade um templo de uma antiga seita religiosa, algo a ver com um homem pregado à uma cruz… Sigo finalmente descrevendo o que treinei para ver, ouvir, sentir, executar…

Fim da gravação… Primeiro dia solar na superfície do planeta; todos nossos equipamentos para manutenção da vida foram checados e rechecados porque a área chamada de Setor 01 é absolutamente perigosa. Confirmo: estamos em terras da antiga São Paulo dos Campos de Piratininga, chegamos bem, sem sustos e hoje é 25 de janeiro do ano da Graça de 2854…

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