São Paulo no tempo da eleição – IV

No ano de 1958 teríamos mais uma eleição para governador do estado, para o legislativo federal e estadual. Mais um terço do senado. Em termos de campanha Ademar saia na frente, e no dia 5 de julho, um dia após a chegada dos campeões do mundo na Suécia, tinha um comício marcado para o bairro de Vila Olímpia. Ainda ostentando o cargo de prefeito, Ademar mandou espalhar pelas ruas do bairro, guias que posteriormente seriam colocadas para depois fazer a sarjeta. O palanque foi armado na esquina das ruas Dr. Cardoso de Mello e rua Nova Cidade. Adhemar era um político muito querido, e também carismático. O povão se fazia presente em grande quantidade, acho que era primeira vez que um político de nomeada comparecia ao bairro da Vila Olímpia.
Dava para se perceber o quanto era querido o Ademar, a multidão demonstrava ansiedade pela presença do ex. governador de São Paulo, que naquele ano era chamado de PROMESSÃO, por causa de um delinqüente que infernizava São Paulo, e que tinha o apelido de PROMESSINHA, que havia sido preso meses antes. Enquanto Ademar não chegava, candidatos a deputado faziam seus discursos. Ângelo Parolo, o encanador da Vila, e Ademarista roxo, estava ansioso pela chegada de seu ídolo. Esfregava as mãos, seus olhos brilhavam. Lá pelas 22 horas chegava ele, o candidato Adhemar de Barros, o alto falante anunciava com entusiasmo. Seu Ângelo vibrava, e cantava músicas de campanhas anteriores. Doutor Vardemar, Vardemar doutor. Pegou no meu braço e foi dizendo: Mario esse cara é demais. É uma injustiça o que fizeram para esse homem. Se nos temos o hospital das clínicas, a via Anchieta, o viaduto do gasômetro, a passagem de nível do Anhangabaú, devemos a ele. Por outro lado tinha os baderneiros que faziam a maior algazarra, xingando com impropérios impublicaveis. Seu Ângelo, alheio aos opositores acreditava piamente na vitória do Adhemar. Fiquei meio sem jeito para contrastar sua opinião, não só porque ele era Ademarista, mas por ser ele bem mais velho que eu.
Mesmo assim não me contive, como é que o Ademar pode ganhar essa eleição, tendo ele muitos traidores a sua volta
-E quem seriam esses traidores, Mario?
-Seu Ângelo. Se o senhor for ver um comício do Carvalho Pinto, verá em cima do palanque, o Sr. Juvenal Lino de Matos. Ele até bem pouco tempo não estava do lado do Ademar? Ou eu estou falando bobagem?
-É verdade Mario. Esse detalhe eu não tinha prestado atenção. Mas a deserção do Lino, não significa nada, é simplesmente um voto a menos.
-O senhor é quem pensa seu Ângelo, ele leva consigo dez correligionários, esses dez trazem outros tantos, esses tantos se somam a outros, e no fim isso acaba virando uma bola de neve. O senhor já esqueceu que o Lino de Matos ganhou uma eleição para prefeito?
-Sim, mais foi com o apoio do Ademar, sem aquele apoio ele jamais ganharia.
-Mas o povo não tem memória seu Ângelo, e lá querem saber disso?
No dia seguinte ao discurso, todas as guias estendidas nas ruas foram retiradas, na certa para outros comícios. O adversário mais forte era o professor Carvalho Pinto (Carlos Alberto de Carvalho Pinto) secretário da fazenda do governador Jânio Quadros. Já se dizia que era o virtual, vencedor, devido ter saneado as finanças do estado de São Paulo e também por ser apoiado por Jânio Quadros. Outro que disputava a eleição, era Auro de Moura Andrade, senador da republica. Quando a campanha pegava fogo começou a aparecer uns broches de lapela. A campanha de Carvalho Pinto, tinha pintinhos de metal dourado. Esse pintinho tinha uma vassourinha debaixo de uma das azas. Ademar para não ficar atrás mandou fazer um broche um pouco maior. Era um galo. Como a dizer que quem mandava no terreiro sou eu! Já Auro de Moura Andrade mandou fazer um broche que era uma peneira. Houve um espanto. Sendo Auro, dono de um frigorífico (Bordon) esperava-se que mandasse fazer uma vaquinha ou então um boi. Mas ele teve uma explicação palpável. Essa peneira significa que ela vai virar e tanto o pintinho como o galo vão cair. Foi uma campanha, das mais sensacionais e democráticas que vi na cidade de São Paulo. Proliferava nas residências faixa de Carvalho Pinto. Era faixas pequenas de quando muito 50 por 50 cm. Dizia: Está família apóia Carvalho Pinto. Adhemar não deixou por menos. Mandou fazer uma faixa do mesmo tamanho, com dizeres: ADHEMAR É NOSSO! Se havia o seu Ângelo, que morria de amores por Adhemar, tinha o Luiz açougueiro que era Janista roxo e nem queria admitir ver Adhemar no poder. Cada vez que se encontrava com meu pai ele dizia em tom alto: Seu Ângelo será que esse filho da P…, ganha? Que nada dizia meu pai, Carvalhão já ganhou. Ambos já tinham as faixas em suas casas. Rua Alvorada e rua Professor Waía de Abreu (ex. Coronel Camisão)
Os comícios eram todos televisados. A TV Paulista Canal 5, de propriedade de Victor Costa, fazia uma forte campanha a favor da situação seus contratados eram esvalados para tal campanha. Walter Foster tinha gravado uma aparição. Na entrada da rádio nacional, rua Sebastião Pereira, 322, um cartaz dizia: Manoel de Nobrega pede seu voto para Carvalho Pinto. Sem contar que a TV Paulista só transmitia os comícios de Carvalho Pinto, como tinha feito quatro anos antes com Jânio Quadros. Já a TV Record, transmitia o comício de Adhemar. Paulo Machado de Carvalho era amigo de Ademar. Inclusive, Adhemar foi quem comprou dele a rádio bandeirantes. Os comícios quando não eram na Sé, eram na praça Roosevelt, atrás da igreja da consolação. Adhemar sempre fazia seu comício na praça da Sé, e foi ali o ultimo comício de campanha. Já Carvalho Pinto foi na Roosevelt, mesmo seu local preferido. As emissoras de TV estavam cada uma em seu comício preferido. Antes de chegar à praça uma grande passeata estava sendo feita pelo centro da cidade em direção da rua da Consolação, onde se situava a praça Roosevelt, o povo aplaudindo delirantemente os partidários de Carvalho Pinto, fez com que Jânio não contivesse as lagrimas de emoção. Já na praça, uma multidão incalculável, esperava por Jânio e Carvalho Pinto e os demais membros da comitiva. O deputado Emilio Carlos, ironizava o comício de Adhemar que se realizava naquele mesmo momento. Gente estava vendo a outra emissora que transmite o comício de nosso adversário, e não tem nem a metade de pessoas que aqui estão. Inicialmente falou o senador Lino de Matos, (aquele que um dia foi Ademarista) posteriormente Carvalho Pinto usou da palavra, pronunciando breve oração, interrompido por vivas e o espocar de fogos. Mas quem o povo queria ouvir mesmo, era ele, JÂNIO QUADROS. Quando ele apareceu na tela da TV Paulista canal cinco para falar, parecia que ele era o candidato, tamanho era a manifestação de carinho do povo. Porque até ali, um governador jamais tinha se aproximado tanto do povo quanto ele. E que também se encantava pela sua forma de dirigir a palavra, tão diferente dos outros, que pareciam combinar, tão parecido eram os discursos.
Ao microfone foi dizendo, Euuuu… Tenho certeza, e afirmo… Categoricamente que, Carvalho Pinto fará um governo de quatro anos, igual ou superior ao meu. Afirmo ainda que serei candidato à presidência da republica em 1960. A explosão do povo foi tremenda. Falou por cerca de trinta minutos, e não encerrou sua fala sem antes fazer uma provocação a Ademar de Barros, dizendo:
"As faixinhas de Carvalho Pinto foram colocadas nas residências com ordem dos seus moradores. Agora… aquelas, que dizem ELE É NOSSO, foram colocadas na calada da madrugada, com pregos de cortiça. Carvalho Pinto venceu com uma diferença de mais de 200 mil votos, a maior diferença conseguida em uma eleição democrática, apos a ditadura, dos anos 1930-1940.