São muitas, as crianças, adolescentes e jovens com síndrome de down na cidade de São Paulo. Chama-me atenção que a maioria é filho de pessoas de classe média. Não me preocupo muito com elas, mesmo porque são crianças alegres (riso espontâneo) carinhosas. Preocupo-me mais com seus pais. É um sofrimento grande. Não por ter um filho (a) com esse problema e sim com o preconceito das pessoas que não tem esse problema em casa. Uma criança normal é esquivada por seus pais, quando pela frente, se vê com uma que tem síndrome de down. A criança não tem essa preocupação, os pais sim.
As crianças com a síndrome não sofrem nada com a rejeição. Quem sofre são os pais sim. E como sofrem. Há algum tempo parei meu carro num semáforo, próximo ao Jóquei Clube, (Avenida Lineu de Paula Machado), ao meu lado um carro de pessoa da sociedade abastada, estava com seu carro parado paralelo ao meu. No banco do passageiro um moço com síndrome de Down, alegre, saltitante, daquele tipo que muita gente foge por ser "chato" com dentes da frente quebrados, ria, mas ria a beça. Olhou para mim e ria mais ainda.
Abaixei o vidro do carro, e já fui dizendo: E ai meu camarada! Vai ou não vai?
Ele disse um monte de coisas que não entendia bem. Fui em frente. É Corinthiano?
A resposta, não me lembro. Mesmo porque ela vinha distorcida. Mas o que me chamou atenção eram as lágrimas que seu pai estava por derrubar. Ele não disse uma só palavra. Mas devia estar pensando. Porra! Até que enfim alguém esta falando com meu filho.
Quando o farol abriu fui embora. Confesso que estava mais leve. Até o congestionamento não me afetava.
ZEQUINHA foi o símbolo dos tem esse problema. José, cujo sobrenome não sei, era filho de dona Jô Clemente. Ele deve ter nascido em 1949, um ano a mais ou menos. Zequinha nasceu com síndrome de Down. Seu pai era médico, percebeu e ficou calado. Na certa deveria estar pensando como iria falar para sua esposa. Ela foi ao médico e falou que tinha percebido algo diferente com seu filho. O médico que não teve sensibilidade na língua, foi claro e até estúpido. Se preocupe não senhora. Ele tem uma doença, que não é muito comum. Fica Fria, criança com esse problema, não vive muito tempo. Quando muito,… vai até… 10 ou 12 anos. Zequinha viveu 50 ou um pouco mais. Teve educação, estudou, tocava piano, ouvia seus sons musicais. Enfim era um ser normal. Viveu bem, viveu o seu mundo, mesmo que esse mundo para ele tivesse sido "quadrado" Uma coisa é certa. Zequinha nunca encheu o saco de ninguém.
Sua mãe que desde o início teve que se adaptar a uma coisa até então incomum, criou uma instituição chamada de APAE. Fica ali na vila Clementino. Se puderem façam uma visita. Eduardo.Sim. Simplesmente Eduardo, tinha sobrenome, mas isso é de somenos importância. Eduardo não tinha síndrome de Down. Tinha elefantíase. Uma doença que deixava sua cabeça duas vezes maior. Era uma coisa assustadora. Conheci-o desde pequeno, era contemporâneo do meu filho mais velho. Nos parques as pessoas olhavam assim de esgueio, como se não tivessem visto nada. Mas notava-se que ou faziam cara de espanto ou de nojo. Eduardo não tinha nenhum problema mental, apenas sua cabeça que era desproporcional. Estudava na mesma escola, da minha filha. Ia e voltava no mesmo ônibus, que minha filha, e muitos outras ocupavam. Minha filha chorando dizia a minha mulher que tinha um menino muito feio, e que ela tinha medo. Depois que as devidas explicações, ela se acostumou. Outros pais não, não tiveram a mesma sensibilidade da minha mulher. Fizeram um abaixo assinado para tirar o menino do ônibus. Minha mulher se recusou a assinar. O motorista estava na dúvida se perdia um passageiro, ou vários. Eduardo gostava de futebol. Era Corinthiano. Ia ao estádio, ficava no meio da galera corinthiana. Quem o levava era seu tio Carlos, (São Paulino). No Pacaembu Eduardo não era tido como Corinthiano. Era o símbolo do torcedor, pura e simplesmente. Num local onde se fala muito palavrão, se xinga a mãe do juiz, tido como lugar de pouca reputação, houve respeito não só com Eduardo. Mas com o ser humano que ele era, e poucos sabiam. Todos os torcedores gostavam dele. Era muito conhecido de todas as torcidas. Na escola que estudava, Professora Diva Maria (rua padre Antonio José dos Santos, Brooklin) acharam por bem convidar o jogador Sócrates, do Corinthians, ídolo dele. Sócrates aceitou, e Eduardo tirou uma foto com o craque. Pouco tempo depois, 15 de Novembro de 1984, Eduardo estava subindo as escadas de sua casa para dormir, na metade dos degraus, sentiu-se mal, e no caminho do hospital faleceu no colo da mãe, aos olhos do pai. Ficou a saudade daquele menino, normal, que gostava de rir. Que tinha apenas uma deficiência física.
Mario Lopomo