São Paulo da garoa, São Paulo, que terra boa…

Não é preciso ter poderes não-normais, sobrenaturais, para saber que a cidade de São Paulo tem lá sua alma e seus mistérios e que seus cidadãos mais representativos (fundadores, pessoas que historiaram a cidade, intelectuais, músicos, acendedores de lampiões, escritores, palhaços, “tonys", motorneiros de bonde, todos são uma essência de uma vida vivida, que ninguém é fisicamente eterno, pelo menos até que se prove o contrário). Repito que seus cidadãos mais representativos continuam velando e observando o crescimento, o progresso ou o retrocesso da urbe selvática pela qual se sentem responsáveis, seus curadores.

Vamos entrar de uma vez na fantasia, no 'bem que as coisas poderiam ser assim', mesmo porque já estamos demorando a apresentar os personagens dessa narrativa que, apesar de terem todo o tempo da eternidade para continuar vivendo em seus diversos planos espirituais, em seus infinitos universos paralelos, “paulistanicamente” vivem apressados. Eles virão aleatoriamente, tudo é aleatório, nada é planejado.

Vamos nos imaginar dentro de um universo de personagens criados por diversos autores, personagens esses tipicamente paulistanos; para esse exercício de imaginação há que se executar alguns rituais para convocar alguns desses criadores e eu – desculpem – tenho lá os meus. O primeiro criador a chegar é Marcondes Machado que nos aparece trazendo sua criatura, "Il signore Juó Bananere". Juó vem pela mão de seu autor, irônico, resmungando, olha para mim com olhar desconfiado, enterra o chapéu no cocoruto.

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“Blém, blém"… A sineta do bonde Bela Vista que vem descendo a Santo Antonio; vem a oito, diminui a marcha e para no Largo do Piques. Os passageiros descem. Entre eles está Charles Miller e seus bigodes enormes. Outras pessoas sobem e entre elas dona Zezé, minha mãe; os tempos se misturam, se entrelaçam. Blém, blém, o bonde parte e se perde na neblina, os condutores cantando: "dim, dim, dim, dim, dim, dim; um prá Light, dois prá mim…

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Neste momento, enquanto escrevo, sinto uma presença forte interferindo em meu raciocínio, falando aos ouvidos de minha alma (e alma existe? e se existe? Alma tem ouvidos?)… Melhor atender, deixá-la se expressar antes que a coisa toda e minhas ideias se confundam. Como Macunaíma na procura ingente do muiraquitã, entrando e saindo de estados e situações não previstas; deixemos o barco correr ao sabor da velocidade das águas do Lettes, afluente etéreo e mitológico do Anhemby-Tietê que vem banhando os Campos de Piratininga desde os tempos iniciais.

É o Senhor Tempo quem me leva pela mão; agora estamos flutuando sobre uma cidade que é só luz; não sei para onde estamos indo. Para onde o Tempo está me levando? Vamos para aquela geléia luminenta como uma nuvem de pirilampos?

Poetar? Gosto! Ora por quem sois! Duvidais de minha métrica?

Maravilhamentos? Quero! Peremptoriamente!

Sei que o Tempo vai atender aos meus pedidos de maravilhamentos, porque ele corre na maior vula, me arrasta e nos arrasta. Gargalho:
– “Aqui Del Rey, aqui Del Rey!”

A vertigem continua, um Parque Shangay a pleno e por todo tempo, subidas e descidas.

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Conheço aquele maciço de pedra, aquele perfil de montanha; todos os dias eu o vejo a partir da ponte do Rio Pinheiros, como quem olha-olhando em direção à Lapa, mas está bem diferente com toda aquela floresta chegando até seu cimo pontiagudo; parece ser o Jaraguá coberto com um manto feito de parte da Hilaea Paulistana; definitivamente é o Jaraguá, a floresta ainda não foi derribada, olho para trás e vejo que as luzes de São Paulo deram às de Vila Diogo, sorvetearam-se; a massa gelatinosa que me envolvia e me levava, apagou-se, liberou-me… Vejo-me dentro de um mundo estranho e frio, gelado e nevoento. “Garua. Garua? É, garua, cáspite!” Voz que poeteja:

"Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar
Não contem aos meus inimigos
Sepultado em minha cidade
Saudade!"

(palmas, muitas palmas! algumas lágrimas…)

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir
O joelho na Universidade
Saudade…"

…A voz esganiçada e pernóstica vai cessando, diminuindo sua intensidade; fica apenas a figura estática, estatual, de Mário, que nos olha com seu olhar através das lentes de seus óculos de tartaruga arlequinal, madrigal, fenomenal, juvenal, "um sorriso de mulata sestrosa no canto dos lábios", no dizer de Oswald de Andrade … (ao fundo, ouvimos os primeiros acordes de Viola Quebrada…)

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Do âmago do Jaraguá, mais vozes, música de banda, sinfonia, gritos da criançada, estereofonia:

"Hoje tem marmelada?
Tem, sim sinhô!
Hoje tem goiabada?
Tem, sim sinhô!
E o palhaço? Quem é?
É ladrão de muié!"
Alegria

Piolim, Arrelia, Espirro, Chicharrão levando Torresmo pela mão, dezenas de palhaços, rostos pintados, narizes de bolotas, acrobatas, "Tony's", leões, elefantes, camelos, “ponneys”, carroças, anões, trapezistas voando sobre minha cabeça, tudo passando muito rapidamente, num borrão de cores, de luzes, de sons, num velocíssimo “show motion” no céu do Paissandu. Cacofonia,
policromia.

Castro Alves não vai às aulas na Academia? Vai para a casa das mulheres? Orgia. Vai caçar no Braz e toma um tiro acidental. Sabe que vai morrer por causa disso…Agonia.

Lá vem Geraldo Filme, cuspindo de lado, terno completo e gravata, sapatos pretos lustrosos, assobiando seu último samba de enredo. Sinfonia.

Coxinhas, quibes, esfihas, perfume de pizzas assando em fornos por toda a cidade. Gastronomia.

Zé Marmiteiro salta das páginas do Correio Paulistano para o encontro com Juca Pato que saiu às escondidas da Folha da Manhã. Vão se encontrar na esquina da Avenida Ipiranga com São João; os dois, num cochilo do Professor Nelo e de Belmonte, vêm ao mundo surreal para falar sobre São Paulo…

A discussão vai durar a eternidade! Continuemos prestando atenção aos maravilhamentos
que o Senhor Tempo nos propicia enquanto o tempo relogial não termina… Melancolia?

Anhangabaú, Tucuruvi,
Anhanguera, Tamanduateí,
Jabaquara, Caxingui,
Quitanduba, Morumby, Sapetuba, Panamby…

O sangue da terra, os índios de Tibiriçá, Anchieta, Nóbrega, Cunhambebe, “é nóis na fita”, valei-me São Jorge Ogum, meu pai justiceiro e vingador, meu orixá guerreiro, São Paulo do nheengatu e iorubá, dos dialetos da Itália, do alemão e do ídiche… Algaravia.

São Paulo, São São Paulo, meu amor. Tom Zé, embora renitente, paulistanizou-se; de “réiva”, mantêm o sotaque baiano com dificuldade; a vizinhança com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, com o Professor Doutor Alexandre Mello Filho e com o paulistaníssimo bairro de Higienópolis não permite que ele baianize a cidade; todos vão passando, tudo vai passando,
depressa, depressa, depressa… Mais pessoas vão chegando, “avuando, avuando”…

E chegam os vultos, como os fantasmas de Mac Beth, das figuras de Armando Rosas e Oswaldo Molles, que escreveram Histórias das Malocas, que criaram o Charutinho que, por sua vez, marionetou o Juó Rubinato que inventou o Adoniran Barbosa ator, que o interpretou até morrer; assim Adoniran ganhou a vida até os últimos dias, falando errado e vestindo-se como o personagem. Molles e Rosas, inventores de mitos, silentes, felizes por serem esquecidos
pela turba… Iconoclastia!

Já se passaram mais de dois segundos. Melhor voltar, escrever, tomar da pena, seguir os versos da canção:

"Quando se sente bater
No peito heróica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer…"

(Tobias Barreto grita desesperado do fundo de não sei onde: "O verso é meu, o verso é meu…! Lembrem-se de mim, lembrem-se de mim!)

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Sou parido pelo Jaraguá; voo dentro de uma placenta sobre a cidade amanhecente. Milhões de automóveis, trens, metrôs, ronco de aviões, gritos, tiros, risos, choros, “glub glub”, a pinga, a cerveja descendo goela a baixo. Pingado e pão com manteiga na chapa! Polifonia.

O ruído do mar nos sonhos malucos de Cásper Líbero: " Vou erguer um prédio de 50 andares na Avenida Paulista… Do último andar poderei ver o mar…". Maresia.

Pouso, volto a mim. Estou no Caxingui, em minha casa.

Torcedores do São Paulo Futebol Clube passam pela avenida em direção a Pinheiros; eles vêm depredando orelhões, quebrando vitrines. Meu filho tranca os portões gradeados de minha casa prisão. Talvez os corintianos estejam fazendo o mesmo em outro corredor de despejo de torcedores e outros pais estejam trancando suas casas-prisões…

Definitivamente estou em São Paulo, não há como fugir dessa cidade cheia de amor e de ódio.

Ah! Mario, Mario de Andrade, ora pois, pois!

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