São Paulo antigo: Rua 25 de Março

É ali, naquele pequeno espaço, no largo da Praça Antonio Prado, depois do início da abertura do pregão, no prédio da Bolsa de Valores de São Paulo, repleta de gente curiosa, agitada, pensativa, contemplativa, nas calçadas no entorno do prédio de parede cinza escura, com uma pequena bandeira de São Paulo, tremulando na haste de um poste, sob um arco aparente no estilo bizantino; há homens por lá, esperançosos nas portas do prédio, aguardando pacientemente, entre cafezinhos e chocolates, nas mesas de tampo de linóleo branco, imitando o mármore carrara, esperando pelos resultados do dia, das aplicações das ações em Bolsa. Há homens de bigodes caprichosos, cabelos aparado rente, cheios de ar aspiradíssimos, entrando, ficando, saindo, bufando, passando, andando, correndo, no entorno da praça. E no meio desse burburinho de bigodes sonoros, também enrosco-me, embaraço-me, enovelo-me nessas silhuetas escuras de idade e de fumo, e vou com eles, vou neles, caminhando com eles, junto deles, embaraçado, debatendo-me na claridade dúbia de céu cinzento pardo, sob um ar frio, da tarde recém chegada, na expectativa da extração diária das loterias e do resultado do jogo do bicho.
Vou pela Rua Boa Vista. Aqui, escorrego no asfalto negro, úmido, e escorro pela ladeira abaixo da Porto Geral, de calçamento torto e de pedra molhada, sob o ruído do velho gramofone, que começam a rodar por ali mesmo. Bigodes e gramofones. Num rolo de bigodes e num disco aloucado de gramofone, vou rodando também, rodando… Tontura. Paro. Hoje o dia está cheio de fios gris de água. É como um bigode e gira, escorregadio, como um disco de gramofone. Falam os bigodes de todos os lados. Tudo é áspero, rouco, ríspido, rasgado, arenoso, e sempre rangendo, raspando, riscando o ar ralo… De novo, tontura. Olho dependurado num gramofone um velho de bigode branco, tão branco como a sua tez pálida. Chocalhar.
A Rua 25 de Março é um shaker de coquetel que São Paulo produz. Ali é o paraíso de sírios, árabes, armênios, persas, egípcios e kurdos com sua aspereza de tribo, porém, para os paulistanos, todos ali são turcos.
Rua 25 de Março é o reino da bugiganga, das cangas e miçangas, das quinquilharias vistosas boas e baratas, dos armarinhos de sabonetes, colares de contas, panos, baralhos, xales, canivetes, lata de graxa, agulhas de tricô, alfinetes, cromos, espelhos, carretéis de linha, barbantes, bonecas, narghilés, ferramentas. Lá, ali, é o paraíso no reino da bugiganga. Outro armarinho, entre dois armarinhos, em frente um do outro, entre mais dois armarinhos. Ali, ninguém teme a concorrência, os atacadistas estão estabelecidos entre paredes e meia de tijolos. Lá, venda de grossos fardos, de fazenda grossa, com homens grossos, de bigodes grossos, falando grosso. Ali se serve o café turco em canequinhas de cobre e o acompanhamento enjoativo do narghilés. Mesas com homens silenciosos, sem colarinho e nem gravata, mas de chapéu bem colado na cabeça, sem tirar o alinhavo que vem da fábrica, para manter a fita e o laço, e uma porção de lapiseiras e canetas tinteiro saindo da pochette.
Na rua, numa esquina dobrada a direita, há um bilhar. Ao fundo de um estrado de madeira, os homens se amontoam sob os tacos que batem secos, esticados, como flechas, em meio dos corpos curvos como arcos. E uma voz cavernosa canta: – Bola preta no meio da caçapa. E o ruído do taco rígido, espirrado, no miolo da bola, produz um som seco e estalado. – Sete pontos! – grita o jogador.
Nas lojas, entram a todo o instante, homens magros, mal barbeados, carregando embrulhos enormes e valises. Nos balcões das lojas, o eterno gramofone geme molenga, uma dança do ventre. Da melodia monótona pula, às vezes, como de mergulho, o uivo de uma mulher… Do meio da rua, olho uma fachada de loja. Há um homem de pijama branco, um fêz amarelo na cabeça, quieto, de pé numa sacada estragada. Em baixo um padre maronita desfralda, entre os batentes de uma porta, a sua barba sagrada, cor de pimenta do reino.
Na estreita rua, os armarinhos, pintados na tarde fosca, cintilam, parecidos com as migalhas de cristal colorido, as ninharias poli crômicas contra o vidro opaco de um caleidoscópio. A gente que passa, ou para. Só homens. Nem uma única mulher. Acredito levemente na existência de haréns.
Esquina da Rua Pajé. O trabalho e o descanso em promiscuidade. Trabalho nas sapatarias, nas fábricas de sandálias e alpercatas, com seu cheiro adstringente de tanino e seu chio fino de roldanas e polias de couro. Descanso nos cafés abarrotados de grupos imóveis olhando das portas, ou bebendo a sua aguardente de erva doce em torno das mesas. No balcão, o eterno gramofone geme molengo uma dança do ventre. Vou, sob placas e tabuletas, até o fim da Rua 25 de Março, até o limite do extremo Oriente mais que Próximo; o túnel do Anhangabaú, conhecido como o buraco do Ademar sob o piso estreito e úmido da calçada, ladeando a Praça do Correio, sob um movimento intenso do tráfego dos bondes e auto ônibus, que contornam a velha praça em várias direções aos bairros operários de São Paulo. Ali em cima, próximo aos paredões de pedras do convento dos beneditinos na Rua Florêncio de Abreu estão os hotéis e as pensões orientais. Volto. Ando tudo de novo. Sob o paredão branco, alto e iluminadíssimo da General Electric. Paro diante de uma igreja síria, amarela, entre ciprestes e cedros. Depois volto novamente para a Avenida São João. No ar e no céu nevoento, sinto os pingos do chuvisco fino e pálido, escorrido e paralelo, como nuvens pensativas, criadoras, inventoras desta chuvinha miúda que agora cai sob São Paulo antigo da garoa.

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