São Paulo à Santos, 1944, 45, Uma Odisséia Gostosa

Quatro horas de la matina e os bondes e ônibus ainda não estão correndo pela cidade de São Paulo de Piratininga. Carros de praça também não os há, são raros os que trabalham noite à fora e madrugada à dentro, apenas aqueles que fazem ponto no centro da cidade:  Paisandu, Sé, Piques ou nas estações do Norte e da Luz; além do mais os carros de praça são caros e não são para qualquer um, e nós – meu pai, minha mãe e este seu amigo – fazíamos parte da confraria dos “qualquer um”, dinheirinho contado, ali, níquel por níquel:
 
“Vamos andando porque faz bem pra saúde, menino!  Vamos aproveitar o ar puro da madrugada para caminhar até a Estação da Luz!”
 
E lá íamos nós, pela madrugada gelada, “garoenta”, atravessando a neblina à pé, do Bexiga para a estação de trens:
 
– Ôba! Nós vamos pra Santos, mãe? Posso levar a minha bola? Será que está chovendo na praia? Será que vai fazer sol?  A sacola está pesada, mãe? Quer que eu leve um pouquinho? A senhora tá cansada?
 
– Não, não tô! Vê se para de falar e anda mais depressa que seu pai já deve estar na estação esperando a gente.
 
Meu pai trabalhava para a ”'The São Paulo Railway Company”, a ferrovia que ligava Jundiaí a Santos e podíamos viajar de graça, o que era muito bom…
 
O trem para Santos saia da Luz às 6:18h. E, lá estávamos nós desde 5:30h, esperando meu pai com as passagens de cortesia a que tínhamos direito.  Para podermos embarcar, precisávamos que ele estivesse presente para assinar alguns papéis e nos entregar as carteiras de "salvo conduto", que ele levara para conferência.  O país estava em guerra e viajar era complicado, havia a necessidade de autorização de algum órgão do governo, vê lá se fôssemos espiões ou 5ª Colunas, um perigo para a segurança nacional, né?
 
O trem vinha parando na plataforma devagarinho e, a correria começava, gente entrando pelas janelas, pulando para dentro dos vagões. Meu pai me atirava para dentro do trem:
 
– Vai, cuidado!  Marca logo os assentos pra você e sua mãe, eu já vou entrar pra te ajudar…
 
– Pai, o senhor vai com a gente?
 
– Não vai dar. Estou de serviço no Palácio por 3 dias seguidos, estou cobrindo folga dos colegas pra eu poder ter folga e descer pra ficar com vocês…
 
O apito do chefe da estação: Brás, São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André/Paranapiacaba, paisagens pelas janelas do trem.
 
Em Paranapiacaba todos saltavam dos vagões e vinham para a plataforma da estação para um café pequeno, um espichar de pernas, um olhar para o vazio, para um nada. A cidadezinha, mais um entroncamento ferroviário que uma cidade, vivia eternamente sumida dentro de uma neblina densa, daquelas de se cortar com uma faca, uma cidade fantasma, ponto de aguardo para continuar viagem em direção ao litoral.
 
Nós, crianças, ficávamos junto aos pais o tempo todo:
 
– Fica perto de mim, segura na minha mão, presta atenção, não me vai cair nos trilhos; para de ficar correndo na plataforma porque se você cair e sujar a roupa, eu te arranco a cabeça, “maledetto”!  (Ah, o amor maternal…)
 
Na estação existia algo parecido com um bar ou pub inglês, balcão alto, torneiras de pressão para a venda de “ales e biers” e que nunca foram usadas por falta de “ales e biers”, eram decoração, apenas enfeites. Afinal,  Paranapiacaba não era Londres. Tinha também uma vitrine empoeirada mostrando sanduíches de presunto e queijo em pão de forma, displays com alguns doces, chocolates e biscoitos de polvilho, tudo muito caro e possivelmente com a validade vencida (estamos falando dos anos 40, ninguém estava lá preocupado com essa história de validade):
 
– Mãe, me compra uma guaraná?
 
– Não dá filho, eu só tenho 20.000$000 réis que seu pai deu. O homem não vai ter troco e a gente só tem uns trocados pro bonde lá em Santos…
 
Em Paranapiacaba começava o caminho serra à baixo, num declive de uns 800 metros até Piaçaguera, lugarejo próximo à Cubatão. As composições tinham normalmente 6 vagões e eram divididas em dois comboios que se moviam através de um sistema funicular, a composição que descia servindo de contrabalanço para a composição que subia, ambas as composições presas a cabos de aço. Em Piaçaguera o trem era recomposto e seguia viagem até Cubatão e Santos…
 
A viagem de São Paulo à Santos, de trem, durava de 3 a 4 horas. Não existia a Via Anchieta, apenas o Caminho do Mar, estrada com piso de concreto por onde circulavam ônibus da UTIL a cada 2 horas, ida e volta e apenas durante o dia. Ônibus nem um pouco confiáveis, diga-se de passagem, viviam quebrando. Melhor era viajar com o trem da "inglesa", não valia a pena arriscar.
 
Descer a serra era uma festa, sempre havia uma pessoa mais alegre que puxava as gozações e brincadeiras. As crianças corriam pelos corredores dos vagões, brincando de “pegador” e “esconde-esconde”:
 
– Esconder debaixo dos bancos não vale; esconder na privada também não vale, lá é muito “chujo”, a mãe fica brava e bate na gente!
 
Ninguém ficava o tempo todo sentado, as pessoas faziam amizades momentâneas que iriam durar até a chegada no Valongo:
 
– A senhora aceita um cafézinho? Está quentinho ainda na garrafa ”Termus”, não sei se está bom de açúcar.
 
– Obrigado, aceito sim… huummm, está gostoso, tá bom de doce…!
 
Nas rodinhas de conversa que se formavam, ouvia-se histórias apavorantes:
 
– Nos túneis tem um gás que pode matar, a gente não pode respirar se não morre “sofocado”; quando o trem entra nos túneis tem que tapar o nariz e a boca prá segurar o “forgo”.
 
– É verdade!  Dizem que uma vez, quando o trem chegou na raiz da serra, tava todo mundo morto dentro dos vagões…
 
– Eu não acredito, eu tenho medo é do trem cair nos “principicio”…  se cair não sobra ninguém pra contar a história… eles nunca vão achar a gente no meio da  “froresta”… “cê” já viu como é “arto”?
 
– Já me falaram que uma vez o cabo de aço arrebentou e os vagões desembestaram pela linha a baixo, descarrilaram e bateram na montanha… morreu todo mundo, diz que até saiu nos “jornar”!
 
Felizmente nunca nenhuma tragédia aconteceu conosco, mas por via das dúvidas, eu prendia a respiração dentro dos túneis e ficava de olho no cabo de aço toda vez que íamos para Santos, vai que…
 
O bonde 4, Ponta da Praia, saia da Praça Mauá e nos levava até o Embaré e, descíamos no ponto em frente à igreja; de lá, uma curta caminhada até a Afonso Veridiano, 52, casa de meus tios, minha total alegria …
 
O encontro com os primos era como um ritual, futebol na rua até escurecer, depois todo mundo apanhando das mães: "quando eu chamar pra tomar banho é pra vir na hora!" À noite a gente “punha” as conversas em dia, falava-se de filmes, de seriados: “Lá em São Paulo, tá passando o Império Submarino”. Falávamos do Corinthians, time de tradição familiar, mostrávamos os álbuns das balas Futebol: “Você tem o Dedão carimbado?"…
 
Em 1944, o Embaré tinha alguns chalés de madeira com grandes quintais e terrenos baldios que se estendiam da Epitácio Pessoa até a Pedro Lessa e, da Oswaldo Cochrane até o estádio do Hespanha Atlético Clube, posteriormente Jabaquara, o Leão do Macuco, na praia da Aparecidinha.
 
Santos era uma cidade de casas baixas; edifícios de vários andares eram exceção e prédios como o Parque Balneário e o Hotel Atlântico, com 4 pavimentos, eram cartões postais da praia do Gonzaga, motivo de orgulho para os santistas.
 
Meus primos, o Ademar e o Edson, não eram muito de ir à praia, mas me acompanhavam e ficávamos na areia por horas, conversando, brincando e, vez ou outra, indo até a maré para fingir que sabíamos nadar…
 
Meus primos adultos, o Percy e o Maurício, eram atletas nadadores e saltavam do trampolim que ficava na Ponta da Praia, coisa que eu não me cansava de assistir, "quando eu crescer também vou saltar do trampolim", pensava com meus botões…
 
Quando meu pai conseguia uma folga, vinha ao nosso encontro e eu sabia que o nosso tempo na praia estava terminando. Agora era voltar pra São Paulo e pra nossa vidinha no Bexiga, velho de guerra!
 
“Da outra vez que a gente vier eu quero ir no Aquário que inauguraram na Ponta da Praia, eu vi na Tribuna.  Lá tem um leão marinho e tem pinguins. Eu nunca vi leão marinho, só em filmes…"