São Miguel, a capital da variante

A capital da variante teve os seus anos dourados entre os anos 40 e 70. A criação da Nitro Química e a consequente chegada dos imigrantes nordestinos deram nova face ao então esquecido e pobre São Miguel Paulista. Getúlio Vargas incentivou a criação da fábrica e ainda pediu uma "boquinha" para seu filho, o Getulinho, que lá ficou por alguns meses. E com a fábrica, desde sua construção, começaram a chegar os nordestinos. Grande levas de pernambucanos, alagoanos, cearenses, piauienses e baianos, especialmente os últimos que eram tantos que passaram a significar todo nordestino, qualquer que fosse o estado de origem.

Embora paulistano e são-miguelense, da Vila Nitro Operária, tenho uma dívida impagável com uma família nordestina que aqui chegou no início dos anos 40, mas isso é pessoal e não cabe aqui, por ora. Nos anos 60, São Miguel atingiu seu apogeu. A Nitro Química empregava 7000 pessoas. Era raríssimo uma família do bairro não ter um membro empregado na Companhia, às vezes vários, de diferentes gerações. O bairro fervia no dia 10, dia do pagamento. As casas das primas lotavam e o Hawaí e o Tio Patinhas bombavam. Mas quem mais ganhava era o comércio regular em um tempo em que não havia o maldito calçadão, nem mesmo o Mercado Municipal, inaugurado em 1967.

As melhores lojas estavam na Rua da Estação, na Rua da Fábrica, mas elegante mesmo era a Serra Dourada, com trânsito em duas mãos e um movimento constante durante todo o dia. Cantina Tabajara, o Correio da dona Zezé, o foto Ray Ban, mais tarde a Loja Lar, o Baú da Felicidade e o Chaparral e a inesquecível, para mim, Casa Ely da minha querida tia Vanja, faziam da Rua Serra Dourada o ponto mais movimentado de São Miguel. Caminho dos estudantes do Dom Pedro e dos passageiros dos trens que passavam por ela correndo para chegar em casa.

Mais tarde, vindo da Rua da Fábrica, chegou a loja de calçados Santo Antonio, com seu sócio proprietário, uma das mais doces, elegantes, no mais correto sentido dessa palavra, e honestas pessoas que eu tive a felicidade de conhecer. O velho Tião, mistura invulgar de comerciante, músico e filósofo, hoje vive lá no céu junto a outra estrela de igual grandeza. E tinha a Rua Três, que hoje virou José Otoni para quem tem menos de quarenta anos. Por lá se vinha do clube às 4 da manhã, saídos dos bailes, nunca sozinho, depois de atravessar o viaduto metálico que cruzava a linha do trem. Zonas, bares e residências de famílias respeitáveis convivendo na mais perfeita harmonia, pelo menos até a meia-noite. Dois dos meus grandes amigos moravam lá e havia muitos outros.

A Casa Ely, o Estudantil, o Clube de Regatas e o Piassi, este o único que sobreviveu e mantém a velha classe, imune a modernidades bregas e ao corre-corre dos self-service, merecem estórias próprias e, em breve, terão, como já fiz com o sessentão Dom Pedro. E ainda tinha a lanchonete do Didi, que nunca fechava, os barbeirinhos, o Carlos Gomes, o Senai e os dois cinemas de rua. Saudades, não. Saudade lembra tristeza. São lembranças doces como mel, gravadas no coração, inesquecíveis como são todas as coisas boas da vida, junto com a alegria de lembrar e orgulho de ter vivido e poder contar.

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