Quem viveu ou ainda está pelos lados de Perdizes, sabe muito bem da importância desses dois "monumentos sagrados". E sagrados ao pé-da-letra uma vez que são duas das mais importantes escolas vinculadas à entidades religiosas no Brasil.
Estudei na parte gratuita, quando ainda as escolas particulares tinham esse tipo de serviço, do Colégio Santa Marcelina, na rua Alberto Torres.
Foi de 1961 a 1964 em um período agitado na política do nosso país.
Recordo-me com clareza quando em 61 as aulas foram suspensas por causa da renúncia do então presidente Jânio da Silva Quadros, o JQ. As simpáticas "freirinhas" ficaram com receio que pudesse ser instalado um grande embaraço e resolveram decretar "feriado" naquela manhã cinzenta de agosto. Estava acompanhado de meu pai, que todos os dias me levava ao colégio no bonde 19, o Praça do Correio. Naquele mesmo ano depois de muita preparação, fizemos a primeira comunhão em um domingo de muito sol na Igreja de São Geraldo, no largo das Perdizes. E depois da missa e cerimônia os pais dos alunos foram convidados para um café na Chácara do Colégio. Uma festa de verdade!
Também vivemos o 31 de março de 1964, mas as freiras estavam bem integradas ao "espírito" da chamada revolução e nada deixaram transparecer aos alunos, criando a imagem de "calma e tranqüilidade" assim como apregoavam os revolucionários militares.
Lembro-me da professora, a Irmã Neida, sempre com um largo sorriso, e das outras freiras professoras, como a Irmã Carolina, Irmã Úrsula na 4ª série e da terrível Irmã Palmira – que por qualquer coisa que lhe irritasse não só castigava os alunos com ofensas morais em frente a outras crianças, como também promovia constantemente sessões de espancamento quando os mesmos não cumpriam seus deveres ou a desagradavam. "A irmã meteu o cacete no Pereira" dizia um colega de classe comentando o que ocorrera no dia anterior com o Antonio Pereira, um garoto de origem simples como quase todos os outros, de origem portuguesa, mas bastante levado. Ações como esta nos dias de hoje seriam manchetes em programas policiais na TV, servindo para manifestações de ONGS ou Direitos do Menor etc, mas eram eficazes.
Depois que deixei o Santa Marcelina, nunca mais tive contato com nenhum dos colegas de classe e não tenho idéia de que rumo tomaram na vida. Amigos como o José Roberto Bastos Leme, um menino negro com uma inteligência vivíssima, o Carlso Tilelli, hiper-bagunceiro, o Antonio Marotti Netto que morava na Cardoso de Almeida jamais fizeram parte de meus caminhos.
Para atender ao curso Ginasial tive enfrentar o famoso curso de "admissão" mantido pelo Batista em pleno mês de janeiro de 1965. As aulas eram em período integral: pela manhã Português e Matemática, à tarde História e Geografia. Estão ainda vivas na memória as aulas de História do Brasil, ministradas pelo Prof. Dario, e as de português, por uma senhora simpaticíssima, chamada Dona Maria Mattosinhos.
Mas valeu o esforço: Passei em 1º lugar e pela regra da admissão que tivesse esta classificação teria bolsa integral de estudos. Foi um alívio para o bolso do meu pai naquele ano.
E o Batista foi a coisa mais importante de toda a minha vida: apesar de formação católica, o colégio não impingiu nenhum tipo de coação para conversão religiosa, apesar das "assembléias" diárias onde se apresentavam missionários americanos, e testemunhos de toda a espécie, sempre preenchido com muita música e bom gosto.
No Salão Nobre do CBB em uma dessas assembléias musicais, foi onde foram apresentados Rita Lee e os Mutantes. Um verdadeiro espetáculo.
Lá também um destacado aluno com dotes musicais fazia apresentações tocando piano com outros músicos que tocam baixo e bateria, no estilo da Bossa-Nova, ritmo e estilo emergente na época. Era o Rafael Fioravante Altério, que muitos anos depois venceu um festival da Rede Globo, com a música "De Pirituba a Santo André".
E os professores: Wilson Carneiro Braga, um advogado professor de Matemática que quando irritado pegava dois alunos molestantes pelo cabelo e chocava suas cabeças: Uma barbárie? Não. Apenas a manutenção da disciplina.
Disciplina que também era uma sala onde imperava o Sr. Souza, depois o Sr. Roque. E os pastores missionários: o pastor Glenn, com seu forte sotaque americano conduzia os debates de educação religiosa. O inesquecível Francisco de Assis, o Prof. "Chiquinho", Dona Ruth de Matemática, D. Marietta Abranches Gullo que nos contava sobre suas viagens ao redor do mundo. Não podemos esquecer do Prof. Aparecido de Geografia e o querido Prof. e mestre João Batista Montessanti.
Sei que é hora de parar, pois as lágrimas lá embaçam a "visage", como diria Dna. Eldie, a professora de Francês de meu computador.
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