Hoje esta na moda falar sobre os nossos animais de estimação com grande esmero, alias os modernos “pet shops” que não nos deixam mentir. Livros, filmes são registros eternos sobre nossos nobres amigos. <br><br>Vi recentemente, e no final da mesma já com lagrimas nos olhos, a reportagem que dava mérito aos animais solidários, que junto com seus donos conscientes da importância de compartilhar com os menos assistidos pela saúde, trabalharem para o seu bem estar. Havia no grupo uma cadela com o olhar sereno e nobre para a câmera que insistia em vigiá-la, passar para nós espectadores o quanto de virtude possuía. As cenas se passavam em um asilo da zona sul, acredito que foi no Ondina Lobo, mas não posso precisar a informação.<br><br>Vi com emoção anciãos trêmulos, esboçando sorrisos tortos e às vezes banguelos a acariciar belos amigos e como em um respeitoso encontro entre homem e animal o dialogo se mantinha com troca de olhares e afagos. Ao terminar a reportagem olhei ao meu lado e pude com orgulho e satisfação constatar que já vivencio esta terapia domiciliar.<br><br>Lembro que meses após um acontecimento tristonho em meu lar, que me fez alterar em muito a rotina, minha filha Raquel entra em meu quarto e com as mãos cruzadas para trás pergunta o que acharia de termos um animal de estimação, como um gato. Diante da minha afirmação displicente apresentou de imediato um pequeno gato magrelo de cor branca e alaranjado.<br><br>Com olhos desconfiados agitava-se nas mãos firmes de minha filha que ao mesmo tempo demonstrava desejo de não largá-lo a não ser se fosse para depositá-lo no chão de nossa casa. Pedido aceito, exercício de convivência em pratica. Como era um gato retirado do descaso absurdo de certos humanos, tinha o mesmo uma desconfiança nata por nós, espécie para ele perigosa.<br><br>Meses se passaram e o tal felino, insistia em deixar clara a sua aversão a qualquer aproximação para uma agradável convivência. Em aconselhamento com um veterinário ficou estabelecido que o melhor seria submetê-lo a castração, já que sua convivência seria restrita ao nosso apartamento. Cirurgia marcada, paga e executada. Com corações culposos todos em minha casa se desdobravam em atenções ao enfermo que continuava a lançar olhar de desprezo e superioridade.<br><br>O mau gênio continuou e um tempo depois foi esclarecido durante uma visita a outro veterinário de que o paciente inquieto havia apenas se submetido a uma vasectomia. Oposto ao quadro acima descrito da tal cadelinha, o nosso querido Sammy em nada se servia como terapia, apenas deixava claro que ali ele reinaria livre, ou seja, deveríamos manter distancia, porque a qualquer sinal de tentativa de afago lá vinha uma bela arranhada. Alias houve época quando meus filhos ainda pequenos, e também alguns amiguinhos desavisados, inclusive eu, tínhamos tatuagens constantes em nossos braços e mãos, como marca de sua determinação em manter-se protegido. Os anos se passaram outros dois animais doados das ruas violentas foram incorporados ao grupo dos carentes humanos hoje sem causa.<br><br>Quanto ao nosso querido rebelde e já caminhando para o grupo da terceira idade e um pouco mais sociável. Ele se espreguiça ao meu lado enquanto o eternizo neste texto e para confirmar a sua leve transformação arrisco uma passada de mão sobre a sua pelagem sempre limpa e macia e como resposta crava suas unhas, ainda poderosas, sobre a colcha e estica mais o corpo grande a dizer:<br> – “Aproveita, pois estou sonolento e carente”.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>