Salve Santo Antônio

Na cidade de São Paulo, como em todo o interior, as fogueiras ardiam, as batatas doces estavam em panelas à espera das brasas ficarem cobertas de cinzas, e seriam colocadas depois que pés cascudos pisavam sem que eles ficassem queimados. Mas a festa gostosa mesmo era no interior.

As igrejas distribuíam o pãozinho de Santo Antônio que as pessoas comiam somente quando estavam em perigo, ou então, colocavam, na lata de arroz como expectativa de prosperidade e que não faltasse alimento pelo ano todo.

No ano seguinte, no dia de Santo Antônio, haveria a São João e São Pedro, as pessoas oravam e cantavam cânticos religiosos e modinhas de culto popular. Tinha também parodias com respeitos às modinhas; por exemplo, na PRK-30, Lauro Borges e Castro Barbosa cantarolavam no programa: “Salta o Antoninho, Salta o Joãozinho, Salta o Pedrinho em cima de titicas de galinhas”.

A partir de 1953, o publicitário João Doria organizou o dia dos namorados, e como o santo casamenteiro era Santo Antônio, ele achou por bem fazer o dia dos namorados para 12 de junho e, assim, no dia 13 repercutiria as promessas de namoro e amor. Os salões de bailes, que já faziam o baile dos namorados, ganharam uma publicidade a mais para os bailes dos muitos salões.

Mas era no interior do estado que as festas juninas tinham brilho maior. Fogueiras enormes, até parecia que havia disputa de quem fazia a maior fogueira, e as manias caipiras. O mais gostoso de tudo eram as cantorias. Homens com seus instrumentos iam chegando com sanfona, viola, pandeiro, zabumba e triângulo; as mais variadas modinhas era apresentadas: "O galo canta e o Peru ‘fais’ roda"… Começava por aí as modinhas dos compositores da cidade: “Adeus moreninha, estou indo embora, o dia está amanhecendo, vou ‘trabaiá’…”.

Quando Zé Romão tomou o décimo quentão, chamou sua filha e disse: “Marietinha, declama aqueles ‘versus seu’!”. Ela, com a mão direita no peito, começos a declamar:
“Roçado. De casa pra roça-encontro Rosinha – encontro saruva – no meio do roçado – andando descalços – todos molhados – plantando e colhendo – abóbora e pepinos – ‘arrois’ e feijão – cantando no sol – sempre sorrindo – não há tempo ruim – chapéu na cabeça – enxada na mão – e muita pureza no coração – De baixo – da sombra do pé de mamão – Rosinha descansa com seu amor – Aí saruva declara com emoção – que ela, Rosinha, é sua paixão”.

Muitas palmas. E as moçoilas colocavam na véspera de Santo Antonio bacias cheias de água com papeizinhos muito bem embrulhados, e no dia seguinte, aquele que amanhecia desembrulhado era o nome do namorado e futuro marido.

Era também o dia em muitas paróquias do interior se aproveitavam para fazer um missa com as crianças que faziam a primeira comunhão. Já pensou comungar pela primeira vez no dia de Santo Antônio? A preparação para isso era feita meses antes no catecismo. Era o padre quem dava a primeira aula a todos os meninos e meninas que depois eram classificados em grupos para os orientadores. O padre começava pelo sinal da cruz. “Vocês sabem fazer o sinal da cruz? Levantem a mão!”. Menos um não levantou.
– Você não sabe, meu filho?
– Falar eu não sei, seu padre, mas espalhar pelo corpo eu sei.
Foi à resposta simplória como simplórios eram os interioranos de cidade pequena.

Foi o que aconteceu na cidade de Cajatí, próximo a Jacupiranga, no Vale do Ribeira. No dia da missa de Santo Antônio e de primeira comunhão, naquele domingo 13 de junho, com a igreja lotada, entra uma senhora com suas três filhas, Lurdinha, Neuzinha e Brasilina, todas de vestido de Chita branco, rendada, e grinalda comprada na cidade grande, e buquê de flores colhidas no sítio. Chegando ao altar, ela foi enfática:
– Seu Padre, ‘vim traze mias fias pra casar!
– Mas, minha senhora, casamento não se faz assim. É preciso ir primeiro ao cartório para depois elas as casarem.
Aí ela foi ao cartório do seu Seabra e depois do documento feito, ela voltou a igreja e, após a missa com a presença de todos aqueles que estavam acompanhando as orações, a vontade delas, ou melhor, dela, a mãe, foi feita. E, assim, as ex-donzelas de menos de 18 anos já estavam próximas a serem chamadas de senhoras.

Quando terminava o dia de Santo Antônio, o rescaldo de tudo ficava encaixotado, esperando o dia 24 de junho, dia de São João.

E-mail: [email protected]