Cheguei em casa com dois ingressos comprados para irmos ao teatro e anunciei a "patroa":
– Prepare-se que no próximo sábado iremos assistir a um concerto de uma orquestra em um teatro no centro de São Paulo.
E a minha esposa respondeu:
– Ora Luiz, e eu tenho lá tempo de pensar em concerto com tanta roupa para lavar, roupa para passar, louça para lavar e tantas outras atividades do lar.
Sentei-me pesadamente no sofá da sala desolado e fiquei vários minutos admirando o par de ingressos comprado com tanto carinho e inesperadamente tive uma maravilhosa ideia e disse a esposa:
– E se eu ajudar você em todas as atividades do lar você promete acompanhar-me ao teatro amanhã?
A patroa parou de varrer a sala, colocou as mãos no cabo da vassoura e depositou o rosto sobre as mãos e ficou pensando, pensando e olhando para mim e após alguns minutos de grandes reflexões, sorriu e disse:
– Claro "bem", se você ajudar a colocar esta casa em ordem e prometer levar-me a um show de pagode no próximo domingo irei com a maior satisfação.
Imediatamente caminhei lentamente até ela, dei um carinhoso beijo no lindo rosto da patroa, tirei a vassoura das mãos da lindinha e começamos a limpar toda a casa ouvindo Roberto Carlos que estava sendo tocado por nosso "toca-discos". Ao final do dia, a casa estava toda brilhando e eu com uma dor nas costas que me deixou hesitante quanto ao dia posterior em ir ao teatro.
No sábado, acordamos e enquanto estávamos tomando café a patroa perguntou que tipo de teatro nós iríamos e eu disse que iríamos assistir a um concerto de uma orquestra, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, em um teatro que estava sendo inaugurado chamado: Sala São Paulo, pertinho da Estação da Luz.
O olhar de admiração e encanto podia ser observado pelo brilho nos olhos da pequena e ela disse:
– Mas Luiz, por que você não disse que iríamos a um evento tão "chique" como este? Deixa-me começar a me arrumar, pois lá só tem pessoas muito inteligentes e ricas!
Quase morri de rir naquele momento e disse:
– Imagine são pessoas mortais iguais a nós com um pequeno diferencial: adoram o que existe de melhor: música clássica.
Assim que vi a patroa com aquele lindo vestido usado somente para eventos especiais e eu enfiado em uma surrada calça jeans ela disse:
– Imagine se eu irei sair com você trajando esta insignificante roupa, faz o favor de pelo menos vestir um terno com gravata! Afinal, iremos a um importante lugar e os lugares especiais merecem o nosso melhor.
Após me arrumar dentro de um luxuoso terno que estava guardado no guarda-roupa fazia anos, a patroa ajudou a dar um belo nó na gravata e saímos apressados para o teatro. Os passos elegantes da esposa vestida com aquele maravilhoso vestido chamavam a atenção da vizinhança e alguns chegaram a perguntar aonde iríamos tão bem trajados.
Chegamos à Sala São Paulo um pouco amarrotados e logo que entramos no hall de entrada pudemos sentir toda a “pomposidade” e luxo do local, entramos vagarosamente e subimos até nosso camarote e lá ficamos encantados com tanto luxo, tanta beleza e o odor maravilhoso de pessoas tão elegantes.
Quando estávamos observando o palco, o teto do teatro começou a se mover e a patroa imediatamente entrou em pânico dizendo que o mesmo iria cair e eu calmamente disse a ela que apenas estavam se movendo para equalizar o som ambiente e aquilo era normal para cada apresentação.
A orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo posicionou-se vagarosamente no palco e alguns instrumentos começaram a ser ouvidos e começou o grande espetáculo e nossos olhos não desgrudavam da beleza que passava diante dos nossos olhos tão desacostumados a tanta beleza. Foram duas horas de apresentação inesquecíveis que marcaram tanto nossa vida. Voltamos para casa com a alma tranquila e o coração alegre como uma criança.