Minha infância no velho casarão da Rua Augusta foi muito rica em detalhes. A família era pobre, mas por demais alegre e brincalhona. Eu era considerado o São Francisco da família, pois não podia ver um animal abandonado nas ruas que logo achava uma desculpa para abrigá-lo lá em casa. Assim, vivi muitos anos rodeado de cães, gatos, galinhas e papagaios.
Certa ocasião, encontrei uma cadela na rua. Era bonita, tinha a pelagem toda branca, uma mancha marrom no olho esquerdo e outra mancha marrom na pata dianteira esquerda. Era uma legítima cadela da raça "vira lata". Foi amor à primeira vista.
Ela chegou em casa faminta. Depois de bem alimentada e de banho tomado, mostrou-se mais bonita e agradável ainda. Batizada por "Bolinha", passou a fazer parte de todas as minhas brincadeiras.
De manhã, quando eu saía para as aulas no Colégio Santa Mônica, ela colocava sua cabeça na janelinha do porão e ali ficava a esperar meu retorno. Então, o dia continuava para ambos.
Nessa época, nas manhãs de domingo, o saudoso Vicente Leporace, atuando pela Rádio Record de São Paulo, fazia, em plena Rua Quintino Bocaiúva, um concurso que elegia o mais lindo exemplar canino. Eu, na minha total inocência, achei que a Bolinha merecia participar desse concurso.
Num certo domingo, levantei-me cedo, dei um banho caprichado na cadela, preparei uma coleira cortando um velho cinto do meu pai, prendi essa coleira com uma corda de pular e, me considerando pronto, saí com a Bolinha para essa participação.
Fomos a pé, descemos Rua Augusta, vencemos a Rua Martins Fontes, enfrentamos o complexo dos viadutos e desembocamos na Praça João Mendes, entramos na Rua Quintino Bocaiúva e nos colocamos entre os outros animais, que ali já estavam aguardando, em fila, a hora de se apresentarem.
Na hora certa, o Leporace, do alto de um palanque, deu início ao programa e começou a apresentar a cachorrada. Eram ao todo uns doze cães. E um a um foi passando pelo palanque e sendo apreciado pela multidão que assistia ao desfile. Eu e a Bolinha éramos a penúltima dupla.
Pronto, a antepenúltima dupla já havia sido apresentada, Ed, o Leporace, olhou em minha direção, forçou bem a visão, cerrou suas extensas sobrancelhas e, num resmungo incompreensível, chamou a próxima dupla. Subimos então no palanque. Ele se aproximou de nós e foi logo perguntando para mim: “O que você está fazendo aqui?”. Respondi que queria participar do concurso. Ele, muito a contra gosto, permitiu o meu desfile.
Realmente fomos muito aplaudidos. Então, o radialista, numa prova de total honestidade, dirigindo-se ao público, informou que o moleque que havia se apresentado naquele momento era filho de um amigo seu e, por esse motivo, não poderia ter participado. Só tinha deixado que a dupla desfilasse, mas não estava ela concorrendo ao prêmio.
O público, que havia realmente gostado da dupla, não concordou e o honesto Vicente Leporace teve de voltar atrás e nos considerar vencedores. Mas fez isso com uma salvaguarda: o prêmio não seria entregue. Eu concordei, pois o meu grande prêmio era ter a Bolinha como a grande vencedora do domingo.
Tudo calmo e, concordes todos, ouvi ainda do Vicente a recomendação para que não mais o colocasse de saia justa diante da platéia. Bati em retirada, lépido e solto. Contente da vida pela vitória da minha Bolinha.
Quanto ao Vicente, garanto, não foi a última vez que se viu em maus lençóis com o filho do Seu Alfredo. Mas aí são outras histórias e deverão ser contadas em outras oportunidades.
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