Rua Gaspar Soares III

O Aeroporto de Congonhas? Ficava muito longe! Muito além do último local conhecido em nosso pequeno universo observável que era o Largo de São Bento, ponto final do velho ônibus elétrico 107 que saia da porta da Padaria Novo Mundo, na Av. Leôncio de Magalhães, no coração de nosso Jardim São Paulo.<br><br>Em nossa pequena rua, as notícias de lugares longínquos como Praça do Correio, Praça da República, Av. Paulista, chegavam até nós como ecos de ocorrências acontecidas em outras cidades, já que em nosso pequeno âmbito os dias transcorriam em paz e calmo, mesmo depois que na Padaria de nosso bairro homens esquisitos que desceram de peruas Veraneio pretas afixaram nas paredes pequenos folhetos com fotos de jovens, alguns barbudos, algumas moças também.<br><br>O título dos pequenos cartazes dizia que eram terroristas procurados! Terroristas? Será que essa gente trabalhava em filmes de terror? Ficávamos olhando aquelas fotos de expressões sérias, algumas irônicas e imaginando o que fazia um terrorista, para piorar ainda ouvíamos os adultos comentarem ao lado: "são comunistas…" comunistas? E agora, o que diabo seria isso? (Ah se eu soubesse o que hoje sei, poderia ter dado uma bela resposta!). <br><br>Na pequena rua em que vivíamos as notícias não chegavam e os adultos pouco ou nada falavam sobre isso, e lá ficaram algum tempo os cartazes afixados. Nunca vimos nenhum deles. Uma vez disseram que num lugar chamado Vale do Anhangabaú tinha acontecido explosões de bombas e pancadaria entre estudantes e a cavalaria da Força Pública. <br><br>Uma vez vi a cavalaria, os cavalos pareciam ter três metros de altura, muito maiores que aqueles que víamos nos filmes de cowboys. Naquele dia meu pai chegou só à noite e ouvi comentar com minha mãe aflita que ele e mais alguns colegas de trabalho haviam se abrigado no prédio da empresa em que trabalhavam até o tumulto passar. <br><br>Nas ruas de nosso pequeno bairro, Gaspar Soares, Durval Clemente, Outeiro da Cruz, Frei Melchior a realidade era outra, não se via tumulto nem polícia. Vivíamos ouvindo os Beatles, indo a bailinhos, a escola, convivendo com os amigos e na expectativa dos primeiros amores a serem conquistados.<br><br>Hoje, no futuro daquele passado, olha a pequena rua com seus ângulos alterados e com os anos que sobre ela passaram modificando seus perfis a se acumularem em mim, mas me dizendo ainda lhe pertencer. Da mesma janela que me chamava, parece que ainda vejo o vulto amoroso de meu pai. Será que poderá perdoar tamanha ausência? Parece que vejo meu irmão pequeno correndo e rindo a brincar pela rua, tão distante do sisudo médico que se tornou. <br><br>Lembro-me daquela moça subindo a rua e levando consigo meu sonho de amar na adolescência e que poderia ter nela se quisesse o poder de suplantar todo amor presente e futuro. Ah ruazinha, recebe ainda uma vez teu filho e ouve teus passos mais uma vez percorrendo teu calçamento e desejando daqui nunca ter partido.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]