Hoje, quem passa pela Rua dos Andradas – talvez a principal veia (não pode ser chamada de artéria, por motivos não tão óbvios assim) da boca do lixo – vê apenas e tão somente a decadência; quem passava por ela há 30 anos atrás, via apenas e tão somente a decadência..
Aquele quadrilátero compreendido entre jardim da Luz, estátua do Caxias, largo Paissandu e adjacências sempre foi a região da fina flor da malandragem paulistana. Claro que esse tipo de classificação é sempre perigosa e nem sempre tão precisa, afinal, a bandidagem abunda aqui e ali, mas a boca do lixo era uma zona abaixo de qualquer suspeita.
Esta sujeira, característica de diversos bairros semelhantes no Brasil e no mundo, ganhava ali uma cor especial, talvez pelos relatos crus de cronistas com uma incrível verve, como o grande Plínio Marcos (Plínio era mais que um cronista dos marginalizados, como ele se definia, Plínio é universal). Havia também os jornais que davam o tom e tinham a cara da área.
O 69 povoava mentes de adolescentes imberbes. O vento soprava e encostava o lixo que a garoa molhava. O trem apitava na curva. A rodoviária era ali, sempre convidando a partir. Um pastel de carne no China não descia bem, o caldo de cana empurrava.
A vida acontecia como na sopa primordial; a vida acontece como na sopa primordial.