Rua do Gasômetro, seus ruídos – ll

Noite serena com seus ruídos audíveis, detectados por autênticos sistemas próprios do ser humano. Não há, necessidade de um sistema super-canino pra sintonizar ou assimilar qualquer ruído que ocorre na rua do Gasômetro, na década de 60.

Durante a noite, diminui a intensidade do movimento do trânsito e permite uma análise mais acurada da origem de alguns dos ruídos. Os passos de uma pessoa dão a idéia exata de seu sexo, idade, no que trabalha, se é sadia ou debilitada. Um carro parando, se é táxi, se percebe o ato do passageiro pagar, receber o troco, abrir, sair e fechar a porta. Se for particular, um papo rápido, despedida curta e com saudação. Se for amante, para o carro, demora de quinze a trinta minutos, troca de beijos, ele deixando ela ou ela deixando ele. Tudo só de ouvidos.

Numa noite dessas, quase uma hora, relativa tranqüilidade, os poucos carros que passam sob minha janela, abusam da velocidade, fato inimaginável durante o dia, por motivos óbvios. Até os ônibus, em número bem reduzido, não tem necessidade de parar, passam a toda.
Como é comum, nessa época, os cavaleiros da Força Pública fazem sua ronda pelas principais vias que circundam o Palácio Das Indústrias, servindo de sede a Câmara Estadual.

Choveu durante o dia, o asfalto molhado dá a sensação de noite lúgubre, mistério; pelo simples fato de o chão, molhado, refletir a fosca iluminação pública, desperta nos espíritos sequiosos de ocorrências incomuns alguma coisa que fuja da trivialidade; do rançoso e monótono dia-a-dia, a mesclar e completar as horas de insônia, mesmo com sabor amargo.

Ouve-se tropel macio e sedoso, vindo da direção do Parque Dom Pedro II, em marcha lenta e sincopada, beirando os muros de tijolos aparentes, do Gasômetro na faina diária; muros sujos de fuligem e sombrios, sugerindo isolamento total, como se os que estivessem do outro lado, operários, fossem seres de estranhas regiões a lidar, na base do açoite, na produção de gás.

O tropel, aos poucos, vai aumentando na medida em que se aproxima do meu prédio. Junto, o tremendo barulho dos carros, sem serem em grande número mesmo assim, incomodam e muito. Apuro minha audição pra sentir o número de eqüinos que passeiam debaixo de minha sacada. Conto…um, dois, três, quatro, cinco, talvez seis ou sete. A Myrtes, também desperta, conta, mas como sempre, discorda de mim, acha que são no máximo, cinco.

Enquanto estamos nesse impasse, de repente, não mais que de repente, ouve-se um tremendo estrondo que, como já disse em outro site, chega ao meu dormitório em vários decibéis a mais, devido a extraordinária repercussão que o som sofre no seu percurso.

Pulamos da cama pra ver a causa desse tremendo petardo e um espetáculo dantesco (essa já é bem velha, mas Dante é Dante…mesmo com o Palmeiras nessa situação…) se abre aos nossos olhos: dois cavalos estendidos no chão, se estrebuchando e relinchando, mesmo do terceiro andar, podemos ver as fraturas expostas dos animais e no canteiro central, os dois soldados, bastante feridos; fico sabendo, depois que um deles não resistiu. O carro que causou o acidente, todo arrebentado em cima de outro, numa situação que, a priori, não há condição de se saber como e de que jeito aconteceu a tragédia. Dos motoristas envolvidos um se feriu gravemente.

Os dois cavalos, belíssimos animais — quem lembra como eles eram tratados concordará comigo —, foram sacrificados na mesma hora.

Essa é mais uma ocorrência da rua do Gasômetro, histórica via do velho e saudoso Braz, (sempre com "Z"). Tem uma outra que…não, não, essa é pra uma próxima.

(Em tempo, a Myrtes tinha razão, eram cinco cavalos. Perdi de novo.)

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