Rua Caetano Pinto e suas figuras

Entre 1970 e 1974 trabalhei na Anakol, no mesmo prédio onde a Fontoura Wyeth e Medicamenta Fontoura funcionavam. Da Anakol só ali seus escritórios da Matriz, mas a Wyeth e a Medicamenta (do Biotônico Fontoura) tinham partes fabris…

Embora já estivesse na Anakol desde 1962, só fui transferido para matriz no inicio de 1970.

O ambiente era totalmente diferente da fábrica, onde eu tinha uma série de amigos e parceiros do time "Kolynos", onde eu jogava, no segundão… No primeiro time só os craques: Ivo, Espanhol, Ciciá, Julião. Gemeu (sic), Sabará… E outros…

Na Caetano Pinto, após o almoço, a diversão era o passeio pela própria rua… Quitanda do Paulo, olhada nos Sapatos da Casa Andaluzia, um cafezinho no bar de ‘dona’ Maria… E assim, matávamos a hora.

O parceiro era o chinês, posto muito mais graduado, mas que gostava de mostrar seus conhecimentos e a liberdade que desfrutava naquele ambiente; pois era amigo dos graduados das empresas…

O senhor Dirceu Fontoura, um dos donos da Medicamenta, mantinha em uma área próxima da fabrica um pequeno estaleiro, onde fabricava pequenos barcos de veraneio, insignificantes perto de sua estrela: a Atrevida… Iate que tinha a fama de ser um dos melhores da época.

Dirceu, tinha uma espécie de secretário, o faz tudo… Tudo… Desde a programação de festas até a aproximação de autoridades… Acredito, que o mesmo não tinha função administrativa, mas estava sempre ao lado do chefe, participando do almoço executivo, cofiando seu bigodão e contando piadas….

Um dia andando com o chinês, veio o convite:
– “Vamos ver o novo barco do Dirceu?” – e lá fomos nós.

Entramos em um galpão enorme e lá estava a nova joia do senhor Dirceu…

Apenas um senhor de meia-idade polindo as laterais já, quase,prontas do barco, estava ali trabalhando….

Estávamos ali admirando o barco, quando o Dirceu chegou… Cumprimentou o chinês com um abraço, e mostrou em suas mãos duas peças: pequenas escotilhas ovalizadas, que tinham a finalidade de dar mais graça a seu barco…

Aproximou-se da proa e sugeriu ali colocá-las:
– “Aqui ficam excelentes, não é? – ao que o tal secretário respondeu:
– “Ficam muito bem, senhor Dirceu… Excelentes… Não poderia ter melhor lugar…”.

O homem que estava polindo o casco do barco, sem levantar a cabeça, disse:
– “Aí fica uma porcaria, pois está em cima da coluna de sustentação”.

O senhor Dirceu, simplesmente voltou-se ao secretário e repetiu as palavras do outro…
– “Aqui fica uma porcaria”.

E o tal secretário repetiu as palavras do chefe:
-“É, aqui fica uma porcaria, não é senhor Dirceu…”.

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