Foi por volta de 1950 e nem morávamos em São Paulo. Mas a família de minha mãe, numerosa e unida, sempre requeria atenções.
Sempre que vínhamos a São Paulo era em função dela, por celebrações como Natal, casamentos, aniversários. Morte felizmente não; a morte ainda rondava distante naquela época. Minha avó e tios tinham uma tendência á longevidade, que se confirmaria no decorrer dos anos.
Sediados no nº. 172 da R. Albuquerque Lins, quase esquina da Barra Funda, tendo em frente a maciça parede do Teatro São Pedro, onde grotescas máscaras de tragédia grega nos espionavam com curiosidade, (aliás absolutamente recíproca,) tínhamos, ainda mais de carro, o vasto espaço da Capital para explorar.
Ter automóvel ainda era relativamente raro, então. Meu pai havia comprado há pouco um Vauxhall, carro médio inglês, e a parentada não perderia a chance de aproveitar os passeios. Lembro que fomos ao pouco habitado Bosque da Sáude, passando por onde mais tarde seria o Ibirapuera, visitar uma afilhada de minha tia Maria José. Visitamos em seguida as obras do aeroporto de Congonhas.
Em sua lateral, os painéis com imagens em baixo relevo e cor de terracota, que durante muitos anos foram uma de suas marcas registradas. Há muito não as vejo, terão sido destruídas? Olhando em frente, na direção do Brooklin e Campo Belo, um barranco, e uma vastidão, bastante desolada…
Minhas tias, muito católicas, como também minha mãe, viram ali a oportunidade de realizar um sonho, que a sua rotina de professoras sempre adiava: uma visita ao distante Santuário de Vila Formosa.
Para ser mais completo, Santuário de Na. Sra. do Sagrado Coração.
Lá era anunciado o milagroso "Escapulário Verde", um saquinho de feltro, parecendo um patuá, que sabe-se lá o que conteria. Pó de ossos de algum santo? Fragmentos do Santo Madeiro? Fotos autografadas do Papa, com sua benção?
Não faço idéia. Era um elemento de fé, e fé não se questiona. Seja o que fosse, para elas era mágico e santo, e ficariam felizes com ele. E lá vamos nós! Mesmo sem trânsito era grande a distância, e hoje em dia não concebo bem como se faz para chegar lá. Conheço pouco da zona leste, em raras ocasiões tive motivos para ir para aqueles lados.
Mas tenho vagas impressões do Santuário, imenso, principalmente para um templo de bairro, amplo e claro. Do caminho lembro a Igreja da Penha, passando ao nosso lado. Enfim adquiridos os tais escapulários, realmente de um verde escuro, era a hora de retornar. Lembro que paramos num bar, ou lanchonete, como se diria hoje, mas naquele tempo não existia o termo.
Provavelmente comemos um misto frio com Guaraná, que era o nosso lanche usual. Meu pai teria tomado uma Mossoró, ou Caracu. No rádio tocava o choro "Paraquedista", e podíamos ver, ainda ao longe, as torres da Catedral, em construção na Sé, brilhando ao Sol.
Eram grandes distâncias, muitas dificuldades, mas assim mesmo parecia tudo possível. A grande cidade estava ali a nossos pés, com suas riquezas a nosso dispor. Não como hoje que ,com tantos meios de transporte, temos uma imensa sensação de bloqueio e isolamento. Tudo mais fácil, mas impossível.
-Trecho de "Paraquedista":
Você disse que dançava, e que no chôro era o Tal;
Paraquedista apareceu e logo lhe deixou mal.
Agora vive reclamando que dançou sem conhecer,
O chorinho tão gostoso, que faz a gente remexer.