Respondendo criticas

Recebi, no meu texto “O dia em que seqüestraram o Beckenbauer”, não sei como nem porque, uma crítica construtiva, que entre tantos outros ensinamentos dizia que eu só falava do passado. Vou aceitar o dileto conselho e de agora em diante falarei apenas do futuro.
Desde o início deste mês de maio de 1957 estudo na escola primária General Couto de Magalhães, aqui no finzinho da Augusta, onde vou me esforçar para tirar o diploma do primário e rezar para que a minha escola não vire um estacionamento do Bradesco. Vou beliscar umas lascas de bacalhau que fica exposto na Vilex e para arrematar vou comer um sonho na Padaria Colômbia, na esquina da Estados Unidos com a Augusta. Pode ser que estas duas fechem as portas, mas enquanto isso, vou aproveitar. Minha vontade de entrar numa escola que me ensine contabilidade pode ser realizada, pois encontrei uma simpática na Praça Roosevelt, no início da Augusta, chamada Frederico Ozanam. Acho que é pra lá que eu vou.<br>Irei para a escola pela manhã, pegando o ônibus elétrico 54 – Jardim Paulistano ou 51 – Jardim Europa, e na volta virei fazendo fuzarca no ônibus com a turminha do Porto Seguro ou com a meninas do N. S. Sion, que fica lá na Caio Prado com a Augusta.
Se tiver sorte quando a vizinha for buscar sua filha e eu ficar bem comportado, posso até voltar de carro, um velho Hilmann 56. Se ela não vier, volto na bagunça mesmo.
De tarde, devo preencher meu tempo alternando broncas e caneladas, dadas e recebidas. Broncas recebidas, pois vou encontrar meus amigos jogando futebol e meu pai vai ficar fulo da vida para que eu volte logo para fazer entregas na mercearia. Já as caneladas, são os ossos do ofício, vou dar e receber. De noite vou assistir televisão, no Canal Sete, a Turma do Sete, que acabou porque “mixou o carbureto”, ou ver um pouco de programa humorístico, talvez a Praça da Alegria, ou o Miss Campeonato, no cinco, ou então o Simonetti Show no Canal Nove.
Quem sabe no futuro surja algum programa humorístico daqueles que o cunhado inferniza o dono da casa, que tenha um mordomo trapalhão e por aí afora. Pode ser que as TVs invistam em musicais e surjam grandes festivais. Se não der para ver televisão vou ouvir o Moraes Sarmento ou o Grande Jornal Falado Tupi. Pra Eldorado não ligo muito, pois nessa hora tem o Último Programa e é quase só música clássica, que me dá um pouco de sono, mas pode ser que no futuro eles mudem a programação e façam uma linha mais popular. Aí eu vou ouvir.
Vez por outra posso ir até o Ginásio do Ibirapuera ver um jogão de basquete do Corinthians, do Sírio ou do Palmeiras. Ver o Vlamir, o Rosa Branca, o Mosquito, o Menon, o Succar, o Bira, entre outros.
Mas vai ser legal mesmo quando tiver um pouco mais de idade e for ao Pacaembu de noite assistir um jogo de futebol. Se o jogo for bom venho correndo para casa só pra ver a gravação no canal 4 com o Walter Abrahão, o Mario Moraes e a dupla dente de leite Ely Coimbra e Roberto Petry. Não é possível que a gente fique a vida toda com esses filminhos que passam dos gols (quando o cinegrafista está atento). Com toda certeza vou parar de ler só gibi e adotar o Estadão como jornal predileto, quem sabe até eu pare de entregar leite de bicicleta e tente ser um executivo de primeira.
Quem sabe eu curta algumas escapadelas nos cinemas da Augusta. No Paulista, Astor, Picolino, Majestic, Maracha ou Regência, na Cidade sempre deve ter um filme bom para se assistir. É bem capaz que todos fechem, mas enquanto isso…
Nas minhas andanças na escola ouvi dizer que vão inaugurar um cinema de arte lá na Praça Roosevelt que vai se chamar Cine Bijou. Legal, pois assim vou poder ver aqueles artistas da Europa, o Antonioni, o Bergmann, o De Sica. Dizem que eles são meio chatos e bem distantes do Mazzaropi ou do Oscarito, que a gente conhece bem. O que eu estou louco para ver mesmo é aquele maluco do Jerry Lewis em dupla com Dean Martin. A gente sabe que uma dupla logo acaba e eles deverão seguir o mesmo caminho. Mas mesmo assim, vou acompanhar a trilha desses caras. Ouvi dizer que são muito divertidos.
Uma coisa que me preocupa é que já faz três anos que o Corinthians não ganha nada. Uma bruxa me contou que deve ficar mais uns 20 na mesma toada. Putz, vai ser uma parada agüentar os amigos palmeirenses e sãopaulinos por todo esse tempo. Mas enfim, vamos esperar. Ainda mais agora que tem um carinha de nome Pelé que parece que é um cracaço de primeira e pelo jeito ele não gosta do meu time não. Essa, definitivamente eu não vou pagar para ver.
Mas alguma coisa me diz que no futuro eu vou ser um cara ainda mais feliz. É que desde aquele dia em que a gente brincou na queimada, ela só queria acertar a bola em mim. Acho que ela gosta de mim tanto quanto eu gosto dela e se tudo der certo, podemos até casar, lá na Igreja São José, ter uns quatro filhos, e quando estivermos não muito velhinhos ter uma chácara, para plantar algumas árvores, colher um pouco de frutas, cultivar um por do sol com pássaros em formação passando sobre nossas cabeças e outras benesses divinas mais.
Quem sabe? Mas isso são planos para o futuro, para o século XXI. Quem sabe lá por volta de 2007/2008 a gente não tenha isso?
Ah, ia esquecendo, e que a gente seja feliz, bem feliz, tal como nas histórias que dizem que eles viveram felizes para sempre.
Neste túnel do tempo a gente vem e vai, não importa.
Importa é o que fica impregnado na gente.
Nada mais.

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