Reminiscências do Bixiga

Oh, saudosa rua "Almirante Marques de Leão", já não sou criança, totalmente imersa no mundo da ilusão…
Já não sinto o frio e a fina garoa de um tempo de emoção.
Busco a alegria e a cantoria, plena de paixão
Do Bar da Carmela, sempre visitado por Adoniran.
Hoje a poesia da tão doce vila não existe mais
Em meio aos espigões, já não resplandece, tudo se desfaz
Não tem mais quermesses, bingos, olarias, futebol e chás…
Desço a escadaria, buscando a fantasia que não verei jamais.
Casas enfeitadas, flores nas janelas, campos e animais
E as ternas cantigas de um belo ano novo a se anunciar.
Com um feliz brinde, dos italianos, sempre a festejar
Dançando a tarantela para suas origens ao povo ensinar.
Nonas animadas com suas longas saias a rodopiar.
Festejando a vida, num bailado lindo, todos a dançar.
Os Coffoni e Luzzo numa farta mesa, ficam a relembrar
De Franscesco e Angela, que por uma história de amor
Em São Paulo vieram habitar.
Francesco trouxe uma forma para tijolos criar.
Angela trouxe um paliteiro para a sua Napoli recordar.
Vou vislumbrando imagens, presentes em meu coração:
Vó Assunta, de lencinho com uma moringa na mão.
Tia Gema cozinhando um saboroso macarrão.
Tio Agostinho cantando e fumando um cachimbão.
Tio Domingos sorrindo e brincando de gamão.
Avó Vicente disputando num campinho um partidão.
Do devaneio desperto e já não sinto solidão.
Faço parte desta história, que registro com paixão.
Viva o nosso Bixiga, reduto de tradição.
Cantinas, museus e praças, valores em profusão.
Agostinho dos Santos, que seu talento na Bossa Nova revelou.
Armandinho Pugliese, que o Museu do Imigrante criou.
E são tantas atrações que o meu coração palpita.
Ao mencionar a original festa da Achiropita.
Também louvo a "Vai-Vai", escola de samba que no bairro nasceu
E a São Paulo enalteceu.
Encerrando este poema, quero homenagear os imigrantes italianos, relicários a brilhar.

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