Relato sobre a Igreja de São Cristóvam

– Veja você, Felício, não sou eu que invento coisas pra denegrir a igreja católica. Fé, crença, santo, lenda, mito e superstição. Tudo isso e mais detalhes dão subsídios a especulações sobre um fato ocorrido há vinte anos, mais ou menos.
– Lá vem você de novo especular sobre minha crença, Nicola, só por te mostrar duas fotos de uma igreja já é motivo pra críticas sem fundamentos, pô.
– Em primeiro lugar, não é sua crença, é também a minha. E bem fundamentada. Quando a Santa Sé, numa ousada pesquisa, levantou suspeitas sobre a existência de vários santos, festejados e aclamados pelos fieis do mundo inteiro, acho uma ótima oportunidade pra esclarecer, de vez, certas divindades serem idolatradas de uma forma totalmente infantis. Entre estes, os mais conhecidos e populares, pelo menos aqui no Brasil, estão São Jorge e São Cristóvam.
– Mas, você deve levar em conta a fé, que move centenas de milhares de pessoas, numa comovente participação da comunidade brasileira no sentido de…
– Não, Felício, por favor, não venha com esses argumentos tão rasteiros, tão medíocres sobre fé. São Jorge, pela sua imagem pictórica, é caracterizado como um guerreiro romano à cavaleiro, enfrentando um dragão. São Cristóvam, por sua vez é apresentado com o menino Jesus no ombro, atravessando um rio caudaloso. Onde São Jorge foi encontrar um dragão… Muito querido e badalado pelas crenças de origem africanas que, até hoje não aceitam essa determinação do Vaticano. E São Cristóvam, padroeiro dos motoristas, como e quando carregou Jesus no ombro… Não existe registro algum pra confirmar estas lendas…
– Sabe o que é, Nicola, a crença popular, que cria situações inexplicáveis relacionadas com santos de sua predileção, faz da fé instrumento fundamental as suas aspirações em ser reconhecida pelos responsáveis das confirmações de fatos, ocorrências e avaliá-los a seu favor.
– Mas, está aí o que estou dizendo, Felício: uma fé letal, insustentável, crença calcada em mitos, que não…
– Olhe que mitos foram fundamentais na história da antiga Grécia, e…
– Pronto, lá vem você novamente querer me impingir essas lendas a respeito de deuses e divindades helênicas pra justificar o injustificável…
– Não, não, Nicola… Acho que não estou conseguindo me fazer entender… Veja estas duas fotos… As duas da igreja de São Cristóvam, na Avenida Tiradentes: uma de 1908 e outra da semana passada. Cem anos separam uma da outra e olha que ela já tinha quase outro tanto de construção… Você acha que toda essa crença, esta fé em determinado santo é fruto de espontânea devoção, nascida do nada? O mistério da fé envolve certos fatores ainda inexplicáveis ao senso comum e quando chega as raias do fanatismo, tem que ser contida de forma atenuada, não agressiva.
– Aí está, Felício, as fotos… Você sabe que o edifício ao lado da igreja abrigava o Seminário Episcopal e que hoje, com exceção da igreja, todo o edifício esta destinado a fins comerciais… Quer dizer o que… Desprestígio, descrença, sei lá… Uma coisa é certa: devoção em entidades ou pessoas cujas beatitudes estão calcadas em lendas formadas ao redor de suas vidas, enfatizadas de geração em geração, num contínuo aprendizado, aceito em certas comunidades eivadas de mitos e crenças. As entidades que exploram o sobrenatural estão com seus dias contados. Como ter devoção em um santo se a própria igreja, formadora de santificados, nega sua existência?
– E o que você quer dizer com isso, Nicola? Que tudo é mistificação, crença aleatória, fanatismo etc. e tal?
– Não tudo… Veja, Felício, esse nosso papo surgiu com a pesquisa que estou preparando para a escola, nas aulas de teologia. E consegui algumas informações sobre a história da igreja, essa de São Cristóvam. Felício e Nicola, dois amigos com dezoito anos cada e meses de diferença, estudantes da oitava série ginasial, divagam sobre fotos e fatos relativos à igreja de São Cristóvam. Nicola, cético, critica certas tendências religiosas e Felício, crente, não deixa de lado os comentários do amigo, interessado em encontrar explicações pra fortalecer sua posição.
– Durante os primeiros trezentos anos de fundação, – prossegue Nicola – São Paulo é um simples vilarejo, inexpressivo. Na periferia, conta, apenas, com uma ermida.
– O que é isso? – interrompe Felício.
– Uma capelinha… Igrejinha…
– Ah, sei… Continue…
– Essa ermida, Felício, chama-se N. Sra. da Luz e só no século XVIII tem uma construção importante, com o convento da Luz, que dá o nome ao bairro e, consequentemente, o Hospital dos Lázaros. No século XIX, por exigência da própria cidade, que cresce e deslumbra seus habitantes, um seminário para a formação do clero secular, se faz necessário. Em 9 de novembro de 1856, o bispo D. Antonio Joaquim de Mello provoca essa iniciativa e funda o Seminário Episcopal, guardando, ainda, feições coloniais, contando, porém, com o primeiro observatório da cidade, obra do sábio Frei Germano de Annecy, que foi um dos seus primeiros professores.
– Pelo jeito, você fala, e com respeito, dos personagens da sua narrativa, Nicola, você não é tão agnóstico assim…
– Não sei o que sou, mas não importa, deixe-me continuar… Os padres capuchinhos completam o quadro de professores, que também passam a ensinar no novo Colégio Diocesano, anexo ao Seminário, que passa a atender os habitantes dos bairros próximos. Homem dado à introdução de experiências exóticas, Frei Annecy fez instalar dois relógios de sol, que indicam as horas oficiais até 1911.
– Homem de iniciativas mirabolantes, né, Nicola. Na época já existem relógios famosos, como o "Big-Ben" e ele vem com relógio do sol…
– Tem lá suas ideias, não sei, Felício… Após 1867, com a chegada da ferrovia, a área se expande, permite o rápido acesso de outros bairros, e a erradicação do centro que, num mapa de 1877, já está inserido com o seu Jardim Botânico (futuro da Luz) e o Seminário. Em 1887, a Rua Florêncio de Abreu (não confunda com a localização da atual), formada por chácaras, pouso e feiras de animais, corridas de cavalos, tropas, etc. transfigura-se numa moderna avenida, a Tiradentes, arborizada e sossegada, A Capela do Seminário sedia festas como a do Divino Espírito Santo, proporcionando casamentos da nobreza e da elite.
– Expansão da vertente progressista de uma cidade fadada ao crescimento vertiginoso, concorda Felício.
– Pois é, o crescimento do bairro, enseje construções de prédios públicos como o Quartel, a Escola Politécnica, o Liceu de Artes e Ofícios, atual Pinacoteca, além do prestigioso Jardim e da Estação da Luz. Por volta de 1905, parte do antigo Seminário muda-se para Pirapora do Bom Jesus, que hoje pertence à Diocese de Jundiaí. Em 1927, transfere-se definitivamente pra Freguesia do Ó, bairro da zona norte de São Paulo, onde se encontra até hoje sob a denominação de Seminário de Filosofia Santo Cura D'Ars da Arquidiocese de São Paulo. A cidade cresce, novas indústrias se instalam, e os belos e bem cuidados jardins do Seminário, pequeno pulmão na urbanização rápida que, em 1927, tem seu verde exterminado pela abertura da Rua 25 de Janeiro, junto a parte direita do prédio, seguido do colégio.
– E é nessa rua que se instala, por essa época, a famosa fábrica de Chocolates Falchi, cujos fundos dá pra Estrada de Ferro Santos/Jundiaí, né?
– Sim, é verdade; e em 1940, a parte da Capela do Seminário sofre reforma pra se transformar na Paróquia de São Cristóvam. Após um pequeno desabamento parcial, fechando a Paróquia por vários anos, em 1982 a igreja é restaurada. Desde o ano de 1940 até 2005, passaram pela Paróquia 13 sacerdotes, dentre eles o Cônego Amaury Castanho, atual Bispo Emérito da Diocese de Jundiaí.
– Pô, Nicola, você só não fala dos milagres do santo. Tem…?
– Não sei, Felício. Em 1994 funda-se a Sociedade Amigos da Igreja de São Cristóvam e, um ano depois, inicia-se o restauro de imagens e pinturas, propiciando a re inauguração da igreja em 2001, pelo padre Xavier Saez de Ibarra. São Cristóvam, cujo nome significa "Aquele que carrega Cristo" é protetor e padroeiro dos motoristas e seu dia e festa da-se em 25 de julho. Uma antiga tradição diz que quem olha pra imagem de São Cristóvam passa o dia protegido.
– Veja, Nicola, tudo o que você acaba de contar, reforça minha crença. Mesmo na nebulosa história do santo, a fé prevalece…
– Em que, Felício, me fala, em que? Pô. Será que um motorista vai passar pela igreja, olhar pra imagem e… Pronto? Sai na disparada, sentindo-se seguro, não temendo nada?
– Aí é que está, meu amigo, acabas de citar o cerne da questão: a fé, inabalável, segura, forte, inquestionável pro crente… Ele não precisa de mais nada, só ter a verdadeira e legítima fé.
– Ah, não, essa não… Como pode fazer uma pessoa ter essa fé, aleatoriamente em algo que ele mesmo não tem nenhum conhecimento de sua origem?
– É isso que faz uma legião de romeiros a Aparecida do Norte, todos os anos no seu dia e noutros, que não o dia da festa, sempre muito visitada, por pessoas das mais diferentes regiões de nosso país e até do estrangeiro, de todas as condições sociais, e econômicas, a procura de que? Me diga…
– Pois bem, Felício, analisemos a religião em si…
– Lá vem a verbosidade corrosiva dos descrentes… Querendo impor tudo o que a ciência não pode provar.
– Não quero te empurrar nada, apenas que me ouça.
– Tá, pode falar, mas exponha algo com base na lógica de uma crença, seja ela o qual seja.
– Muito bem, começamos pela Bíblia Sagrada.
– Uma força poderosa do cristianismo e do judaísmo, também.
– Também do fundamentalismo, não esqueça.
– Muito bem, aonde você quer chegar…
– Não pretendo chegar a nenhuma definição, apenas pinçar tópicos do Livro Sagrado, origem das três principais religiões existente no mundo.
– Das duas…
– Não, das três; elas postulam o monoteísmo, assim como o budismo mas, esse tem diferentes segmentos e não se aplica seu fundador a mesma origem dos bíblicos. Agora, preste atenção: o que diz a Bíblia no início, que Deus cria o homem à sua imagem e semelhança, não é?
– É, sim.
– E como pode ser "imagem e semelhança", subentende-se, então, que Deus tinha (ou tem) nariz, boca, orelhas, olhos e… Pra quê? Deus não precisa nada disso! São atributos essencialmente dos irracionais e racionais humanos, pra quem vive na Terra. Deus não precisa de nariz pra respirar, nem olhos pra ver, nem nariz pra cheirar, muito menos ouvidos. Então, o que você me diz?
– Você não pode pegar a Bíblia e interpretá-la à sua maneira… Esse livro foi escrito há milhares de anos, por vários autores e todos sob inspiração divina. O próprio Jesus Cristo ensinava através de parábolas como esperar que ela seja totalmente atualizada na escrita… Qualquer tentativa nesse sentido irá deturpar totalmente o sentido de suas mensagens.

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