Já li muitas histórias alegres e tristes neste site, mas não lembro de nenhuma história dos tempos do golpe militar no Brasil.<br><br>Comecei a lembrar de algumas histórias vividas por mim nesta fase negra em São Paulo.<br><br>Meu pai tinha livraria na Avenida São João 526, quase esquina com o Largo do Paissandu, e começava a trabalhar para iniciar uma editora de livros também. Devia ser o ano de 1965, eu tinha 14 anos, meu pai acabava de publicar o livro "Navio Presídio" do jornalista e repórter policial dos Diários Associados, Nelson Gatto.<br><br>O livro não chegou às livrarias porque foi apreendido pelo DOPS, mas não lembro quem e como, entrou com uma ação na justiça cível e conseguiu que o livro fosse liberado e antes de ser distribuído para outras livrarias, e ele foi entregue na nossa livraria para começar a ser vendido.<br><br>Como eu já trabalhava na livraria, fui encarregado de receber os pacotes e empilhar no fundo da loja, mas como a pilha estava ficando muito alta, eu separei os últimos pacotes e coloquei embaixo de uma prateleira ao lado da pilha.<br><br>No mesmo instante, com sirenes ligadas, diversas viaturas da Aeronáutica fecharam a Avenida São João entre o Largo do Paissandú e a Avenida Ipiranga, e um militar graduado entrou na livraria com uma ordem de busca e apreensão do livro, que eu acabara de receber. Todos os pacotes da pilha foram levados nas viaturas, mas os pacotes que eu inocentemente tinha guardado embaixo da prateleira não foram vistos e não foram levados.<br><br>Não lembro o destino destes livros, mas acredito que foram vendidos no mercado negro a peso de ouro.<br><br>Esta história serve também para corrigir comentários de alguns sites, que dizem que os livros foram apreendidos na gráfica e jogados ao mar, e apenas um exemplar tinha sobrado.<br><br>Alguns anos depois, ainda no regime militar e da repressão, eu estava ensinando meu amigo "Mo" e outros amigos da Turma da Barão a dirigir um carro automático na Praça em frente ao estádio do Pacaembu, quando do nada e na escuridão que era naquela época, surgiu um soldado armado com a menção de atirar, porque estava desconfiado do nosso carro cheio de pessoas, que ficava dando voltas na praça e pensava tratar-se de atividades subversivas.<br><br>Com o cano apontado para minha orelha, perguntou o que estávamos fazendo naquela região que era vigiada pelos militares (não lembro o porquê), e eu já sem fala, explicava que éramos da Turma da Barão, tínhamos uma banda (devido aos nossos cabelos compridos que eram comuns naquela época) e continuei falando, bla,bla,bla etc…, e finalizando disse que se quisesse podia revistar o carro.<br><br>Apesar do carro já estar rodeado de soldados, até hoje não sei o motivo pelo qual fomos liberados, sem mais explicações.<br><br>E-mail: [email protected]