Raízes no Belém

Cheguei ao Belém há aproximadamente 18 anos, pelas mãos de uma Belenense nata, a Edna, que hoje é minha esposa, amiga e velha companheira de guerra. Vivi o restante, hoje tenho 56 anos, por tanto 38 anos, perdido por esse mundão de Deus, pois meu pai e eu somos delegados de polícia, e fizemos nossa carreira pelo interior paulista, só eu em 17 cidades, e ele conosco, nem sei mais quantas.

Por isso dizia em alto e bom som: – Não crio raízes em lugar nenhum, não sou mandioca… Dizia para quem quisesse ouvir, principalmente para meus filhos, talvez até no intuito deles serem livres como os passarinhos que tanto adoro. Mas o "destino é cruel e traiçoeiro" como diz a música, e me fez conhecer a Edna, que me trouxe para o bairro do Belém.

Confesso, olhava desconfiado, mas logo de cara me dei bem com aquela igrejinha na praça, tão bem que ateu de carterinha passei a ir a todas as procissões do Senhor Morto na sexta feira santa, e usava como desculpa o canto da "Verônica", mas no fundo sabia que gostava daquele povo religioso do Belém.

Depois vieram as caminhadas, a padaria do Marquinhos, a venda do Junior igualzinha da Vecchia Itália com salames e queijos pendurados. A sapataria do Pita, seu Miguel, Paizano bilheteiro, enfim o Belém foi doando seu solo para que o velho aqui fincasse suas raízes.

Ah!!! Não posso me esquecer dos quatro beija-flores e dos cambacicas que vêem comer na minha varanda todos os dias. Mas a certeza mesmo que as raízes estavam fincadas foi no frio diagnóstico. Leucemia, câncer na medula.

De lá para cá, quase um ano, várias e longas internações, e grandes, enormes pensamentos, mas um recorrente "O Velho pode me puxar, mas vai ter que fazer força, pois as minhas raízes estão bem enterradas no Belém".

E-mail do autor: [email protected]