Quase só para mulheres

Uma mulher poderá entender melhor o sufoco que passei na década de 60.

Nessa época, morávamos em Pirituba, na Rua Candido de Souza, 21 F (hoje com outro nome e número), de onde guardo boas recordações, especialmente de uma família italiana que tinha um comércio na rua principal da igreja São Luiz.

Passado mais de cinqüenta anos desde que vim para o interior, lembro com gratidão de como tive ajuda dessa família, que infelizmente não lembro o nome. Recém casada e com as dificuldades normais naquela época, passei a costurar para as mulheres dessa família e, com o ganho do serviço, comprava no estabelecimento pão, leite, gás, mantimentos etc., porém o mais valioso era a amizade que recebi de todos.

Meu marido trabalhava em uma empresa com várias filiais e muitos funcionários e, até hoje, não entendo porque cargas d'água os casais que namoravam e resolviam se casar, um atrás do outro, nos convidavam para padrinhos. O que no início era uma honra transformou-se no inferno.

Nossa situação não era das melhores e tínhamos que arcar com as despesas de roupas, presentes etc. Resolvemos que os presentes seriam dentro de uma quantia estipulada para todos, independente de cargo ou amizade.

Lembro que fui a uma loja de presentes e estava em promoção louça para churrasco, bonita e barata, e não pude comprar mais de um jogo porque os convidados eram sempre os mesmos e saberiam da minha compra no atacado.

Roupa então… Era um tal de emprestar de irmã, sobrinha, amiga – e, mesmo assim, com repeteco. Até que, um dia, decidi não mais aceitar esses convites, pois aconteceu o seguinte: a empresa onde meu marido trabalhava resolveu abrir filial no interior e, como já tínhamos fama de "padrinhos da capital que davam sorte aos noivos"…

A moça que fazia a faxina nessa nova filial (nossa derradeira afilhada) marcou dia, endereço e horário para seu final feliz. Como sempre, eu não conhecia a noiva e resolvi chegar à cidade pronta para a cerimônia de igreja. Viajei duas horas de carro no calor de dezembro, vestida com um conjunto que me sufocava, meias de nylon, laquê no penteado, sapatos altos. Havia deixado para fazer a minha maquiagem na última hora.

Sempre olhando o relógio, cheguei só meia hora antes procurando o endereço. Surpresa! A noiva estava sentada no meio de uma saleta com "bobes" enormes nos cabelos, "peignoir" e chinelos. Em outra cadeira, o vestido de noiva.

Quando perguntei o porquê, me disseram que era costume na cidade a madrinha pentear e vestir a noiva. Atônita, não lembro o que fiz; suava em bicas, toda atrapalhada, presa no meu "modelito". Eu, que jamais tinha arrumado nenhuma noiva.

Quando conseguimos sair, nos avisaram que antes passariam no cartório para a cerimônia civil, com direito a filmagens com replay e fotos. Entrei rápido no cartório querendo terminar tudo, mas nos obrigaram a voltar, atravessar a rua novamente e vir devagarzinho para sermos filmados.

Fomos caminhando do cartório à igreja com platéia curiosa por onde passávamos. Nunca mais me esquecerei do traje da madrinha do noivo: era um vestido balonê em brocado prateado, chapéu, sapatos e bolsa forrados no mesmo tecido do vestido.

Quero esquecer que vislumbrei a igreja muito longe, porque estava sofrendo com "rosetas" no calcanhar e toda desmantelada. Terminado o casamento, fiquei mais de hora sentada em um banco na praça, esperando os noivos, que foram ser fotografados em um ponto turístico da cidade bem distante. Depois disso, a recepção: pastel frio e refrigerante sem gelo.

Meses depois, recebi fotos com a seguinte dedicatória: "Aos padrinhos, com carinho". Só então vi que, na correria, não tinha lembrado da minha maquiagem. Nem ao menos passei batom.

e-mail do autor: [email protected]