Na década de 20, do século passado, os bondes então da "The São Paulo Light and Power" eram a espinha dorsal do transporte coletivo da cidade. Como é sabido, nos anos 30 e 40 – uma vez tendo estagnado a expansão da rede – os ônibus, de concorrentes, assumem o comando. Transporte "de massa", metropolitano? É coisa de futuro ainda distante. A Light até pensou como que em um "pré-metrô".
Em junho de 1947, nasce (operacionalmente) a CMTC. Que recebe os bondes da Light e "encampa" (como se falava) pequenas operadoras de linhas de ônibus – e uma grande: E. O. Lapa.
Fuçando jornais antigos, da coleção do Arquivo do Estado, deparo com um anúncio (Diário Popular, das letras góticas) de 30/7/1947 da CMTC e publicado na edição de 31/7 – entre outras coisas – rol das linhas de ônibus passando a ser da CMTC. Por curiosidade, eis: denominação e número.
Aclimação 16 e 17; Aeroporto (Congonhas) 113; Água Rasa 60; Alto de Pinheiros 61; Alto de Santana 45; Avenida 3; Barra Funda 73; Belém 75; Bom Retiro 70 e 71; Cambuci 15; Casa Verde 74 e 78; Conselheiro Brotero 38 e 39; Fábrica 23; Freguesia do Ó 67; Imirim 102; Interlagos 103; Itaim (Bibi) 52; Jabaquara 12; Jardim América 40 e 41; Jardim São Paulo 46; Jardim Paulista 49; João Ramalho 66; Lapa 35 e 36; Lins de Vasconcelos 14 e 109; Mooca 7 e 9; Muniz de Sousa 18 e 19; (Rua) Oriente 76; Oriente – Bom Retiro 82; Pacaembu 107; Paraíso 48; Penha 29; Perdizes 37; Pinheiros 63; Quarta Parada 33; Santana 43; Santa Teresinha 44; Santo Amaro 79; Sumaré 55; (Largo) Tesouro – São Bento 5; Tremembé 77; Tucuruvi 42; Vila Clementino 47; Vila Mariana 11; Vila Nova Conceição 80; Vila Pompéia 65. Exceto algum erro de transcrição, foi assim. ("Aviso ao público"). Salientava, ainda, tal anúncio as novas tarifas. A CMTC nem tinha ainda um mês "de vida" e a municipalidade iria majorar as tarifas!
"Para todas as linhas de bondes, exceto Santo Amaro: 50 centavos; Santo Amaro: 1ª seção (Sé – Indianópolis e vice-versa), 50 centavos; 2ª seção: Indianópolis – Socorro (vice-versa), 50 centavos".
Pois como é sabido, em 1º de agosto irrompe, no Centro, o quebra-quebra e atos de vandalismo, destruição gratuita – motivados (ou sob pretexto?) daquela majoração de tarifas. Ao longo dos anos a cena se repetiria. No dia anterior (31/7/1947), o mesmo Diário Popular noticiava: "A partir de amanhã bonde a 50 centavos e ônibus a um cruzeiro. Assinado pelo prefeito Cristiano Stockler das Neves o ato dispondo a respeito. Redução de 50% para os escolares nas passagens de bondes (…)". Pois o desfecho não foi outro: "revolta popular".
Por cinco décadas, a CMTC se incorporou à paisagem e à história da Paulicéia. Expandiu-se. Agigantou-se. E com certeza, das maiores do mundo, por que não? E devorou a si mesma: morreu. De como quando originárias, nenhuma daquelas linhas deve hoje remanescer. Nos anos 70 e 80, a própria CMTC acabou por criar uma infinidade de outras. Que, assim como a cidade, não cansaram de mudar e de se transformar – noutras, também.
Quando adolescente, anos 60, trabalhando na rua, o que mais fiz foi andar de ônibus, de bonde e de trem. Daí, nos caminhos de minha memória, ainda rodarem alguns dos pesadões…
E, por fim, por que "quase" Socorro? Porque – se me lembro bem – o bonde 101 – Santo Amaro não ia (propriamente) até o Socorro. Descendo, do Largo de São Sebastião, parava perto do rio. Socorro? Do outro lado, não? Então, era: "quase". Linha Santo Amaro, quase Socorro. Nem por isso menos importante. Paulistanamente importante. Uma linha de bonde, "quase" linha de trem.
No Museu dos Transportes Públicos ("da CMTC") descansa, orgulhoso, um autêntico camarão da linha santamarense. Impecavelmente restaurado. Por certo, testemunha do primeiro (e de outros) quebra-quebra(s). Quem duvidar do "quase Socorro", então que pergunte a ele. Se alguma vez – umazinha que tenha sido – se ele cruzou o rio… É de duvidar. Bonde: passado, mas imorredouro.
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