Quando os estudantes se calam

Estudante é uma “praga”, dizem os adversários. Estudante é o inicio do parasitário que vai dirigir o país de anos após. Estudante é o mauricinho inócuo que vai à faculdade para namorar, gastar o dinheiro que o pai lhe dá. Não passa de ano mesmo porque é muito bom freqüentar a universidade e aproveitar os benefícios dela caso esteja na USP. E quando sai se torna uma porcaria, a USP não forma profissionais e sim pensadores.<br>Estudante é filho de burguesão despreocupado, que não sabe o que fazer para gastar o dinheiro que ganha como banqueiro.<br>Essas são palavras ditas por parte da sociedade hipócrita que vê nos estudantes o empecilho de suas ações nada recomendáveis.<br>Na verdade o estudante tem logo no início de sua carreira a visão redonda que os “quadrados” não tem por diversas causas, que se enumerados fica assim: vagabundos que acham que estudar é um saco, outros que não querem perder tempo, pois para eles outras coisas são mais importantes na vida do que estudar (exemplo: carnaval, futebol, bebidas e drogas).<br>Quando a gente vê que o Brasil chegou a ter na presidência uma pessoa que não estudou, que nunca gostou de ler, a não ser a cartinha sindicalista e os livros vermelhos de Lênin, Mao e Fidel, que alguém leu e lhe disse, chega-se a ter vergonha de um dia ter pensado em estudar, para ser um causídico, ou um executivo que não vai além disso, porque não participa de atividades políticas, portanto fora de qualquer privilégio.<br>Mas os estudantes sempre “pagaram o pato” por ter ciência de que algo vai estourar mais à frente, por isso eles são sempre bombardeados, depois que sua visão chega aos olhos caolhos, de quem detém o poder.<br>Foi assim nos anos 1940, quando da II Guerra, em que o governo Vargas tinha olhos voltados para o nazi-fascismo, de onde copiou a Carta del Lavoro, de Benito Mussolini, que aqui ficou conhecido como consolidação das leis do trabalho, a famosa CLT, que vigora até hoje, a bem da verdade, com modificações.<br>Naquela época foi o grito dos estudantes que ecoou forte e fez o governo rever suas idéias fascistas, e se aliar à Inglaterra de Churchill, que sofria horrores de Hitler praticamente sozinho. Mesmo porque navios de bandeira brasileira eram bombardeados em suas próprias águas por submarinos alemães.<br>Com a presença do Brasil junto aos Estados Unidos fortaleceu-se a luta contra a tirania alemã. O grito inicial partiu dos estudantes.<br>Nas grandes lutas contra qualquer ditador ou pretenso autoritário eram os estudantes que colocavam a cara para bater. Foi assim que os estudantes apanharam bastante na ditadura recente que o Brasil sofreu com os militares no poder. A coisa começou com a rapaziada escrevendo nos muros “abaixo a ditadura”, “Fora Gorilas!”, “Abaixo a o ministro da educação e a US-aid”. Mas os militares começaram a perceber que o grande grito dos estudantes estava no teatro Opinião, em que Nara Leão cantava, e que depois ficou a cargo de Maria Betania.<br>O Roda Viva de Chico Buarque teve o teatro Ruth Escobar invadido pelo comando de caça aos comunistas com cenários destruídos, e atores espancados. Os festivais de música popular alcançaram um grande sucesso, eles tiveram início nas universidades, indo depois para a televisão. Quando do festival de música da TV Record, em que Caetano Veloso apresentou sua música "É proibido proibir" e Vandré a música “Pra não dizer que não falei das flores", a coisa pegou fogo, porque a platéia era mais de estudantes, que se acotovelavam no teatro. O teatro sempre foi o ponto alto da cultura. Cultura que os ditadores mais combatiam.<br>Mas, covardia mesmo foi à invasão da PUC, em 22 de setembro de 1977. Foi uma grande ação dos órgãos de repressão chefiada pelo carrasco da época, o secretário da segurança pública Erasmo Dias. Era uma época em que o cinismo estava acima de tudo. O governador da época cinicamente veio a público para dizer que Wladimir Herzog tinha se suicidado nas masmorras do Dói Cod, sabendo ele que o Wlado tinha sido torturado até a morte. <br>O ministro da justiça Armando Falcão, aquele ficou mais conhecido com o “nada a declarar”, tinha levado ao pé da letra a lei que proibia reunião da UNE. Ou qualquer concentração de estudantes em qualquer lugar, inclusive nos campus das universidades.<br>Oito anos antes, tinha havido a trigésima reunião clandestina da extinta UNE em Ibiúna, em que setecentos alunos foram presos e trazidos para São Paulo em vários ônibus e caminhões da força pública (polícia militar). Isso por uma burrice dos estudantes que foram em turma no mercado comprar suprimentos, o que chamou a atenção dos moradores da pacata cidade. Com a desconfiança de que eram subversivos que ali estavam, chamaram a polícia. <br>Depois disso os passos dos estudantes forma milimetricamente vigiados. E essa reunião da PUC não passaria despercebida. Quando lá chegaram, foi aquele quebra-quebra, incêndio e muita gente apanhando, muitas pessoas, entre rapazes e moças, ficaram com sérios ferimentos. Tendo até uma moça que ficou em cadeira de rodas.<br>O incêndio provocado causou queimaduras em duas moças que até hoje têm as seqüelas daquele trágico dia.<br>Foi uma noite de cão, diziam os estudantes depois que a poeira baixou. Mas para os repressores, eram centenas de idiotas que estavam a serviço de Leninistas e Marxistas.<br><br>e-mail do autor: [email protected]