Psicodelicocidade, São Paulo, melhor Freud ficar fora disso…

Engraçado… Estava no Largo de São Bento e, de repente, não estou mais. Acabei de descer do bonde na Florêncio de Abreu, atravessei o Largo e parei para conferir meus álbuns de figurinhas com os cambistas das balas Futebol, balas Crack e balas Seleções. Estou de olho no automóvel que vai ser sorteado com quem encher 10 álbuns… Coisa estranha. Um torpor, um sono-não-sono, um dorme-não-durmo, não sinto meu peso, não estou sentindo a mim próprio. <br><br>Espere aí! O que eu estou dizendo? Que papo furado é esse de descer de bonde, álbum de figurinhas e os “cambaus”! Estamos no século XXI, tempo dos computadores, das médias eletrônicas… bondes? Bolsa de figurinhas? Loque?<br><br>Névoa… A ambiência está mudando… Desaparecem as árvores, a multidão, os bondes, o mosteiro. Onde está o mosteiro? Aquela capela paupérrima de pau-a-pique, uma cruz plantada à sua frente, é a igreja de São Bento? Onde está o Viaduto de Santa Efigênia? Que lugar é este aonde vim parar, cazzo?<br><br>Cantochão, vozes gregorianas: "Ave Maria, gratia plena, Dominus te cum. Benedicta estis vobis inter mulieribus…". Estou em uma elevação, altaneiro, à cavaleiro. Posso olhar em todas as direções e vejo várzeas, matas e florestas distantes e que vão se fundindo com um horizonte que se esmaece, dégradé. Estou olhando para a Cantareira e o Jaraguá ao longe, o Plateau do Caaguaçu, rios à direita e à esquerda, várzea e vale – Tamanduateí e Anhangabaú. Eu sei que estou em São Paulo, mas qual São Paulo? Que São Paulo é essa?<br><br>A névoa começa a se dissipar e ruídos começam a ser ouvidos; vozes, tropel, o farfalhar das folhas das poucas árvores do descampado, os galhos agitando-se ao vento… Venta muito… Sons, apenas sons. Casas surgem de repente aqui e ali, no meio do mato ralo, simplesmente brotam do chão, aparecem, materializam-se em taperas, ranchos mal ajambrados, sapé: são poucas e estão construídas no Caminho de São José e no Caminho de Martin Affonso (ué, eu sei que sei esses nomes, mas de onde?), os dois únicos, digamos, arruamentos visíveis do lugar onde me encontro. Sei que outros caminhos existem, escorregando para a baixada onde ficava o antigo aldeamento Guaianá, a Tabatinguera de Piqueroby e sua gente. <br><br>Do outro lado do Tamanduateí, já em direção ao futuro Campos do Braz, um chão de terra batida marca um local de muitas coivaras, de muitas danças sagradas, de muitos segredos e pajelanças, terras do antigo aldeamento de Caiuby… Respeito absoluto pelos já mortos há décadas: Tibiriçá, Piqueroby e Caiuby, pais fundadores e guardiães de São Paulo dos Campos de Piratininga; estou pisando em terras sagradas! Está frio. Pessoas começam a passar por mim e não me veem, em compensação, eu também não as vejo, apenas as sinto; sons de vozes e sotaques estranhíssimos. Me vejo como se fosse um espião, um invasor de privacidades, quem sabe um observador privilegiado do passado neste presente que estou vivendo! Vou assumir a última hipótese, acho melhor… Enfim… Vou usar este interregno de vida muito louco, inexplicável, e aproveitar a chance para conhecer minha cidade em seus primeiros tempos, e olhe que eu não quero nem saber o que está acontecendo, eu não!<br><br>Sonho? A vegetação dos descampados, pelo que estou vendo ou sonhando, em sua grande parte é formada por capim barba-de-bode, capim tiririca, erva Santa Maria, gabirobeiras e outras frutinhas do mato e, espaçadamente, algumas árvores grandes, copadas, que devem ter sobrado do desmatamento e das coivaras. <br> <br>Estou me localizando, não é tão difícil: aquele rio largo, 40/50 metros de uma margem a outra, cheio de meandros, "sete voltas", tem de ser o Tamanduateí, até porque estão amarrados em suas margens algumas ubás e dois grandes batelões, local que eu acredito ter sido/ser o tal Porto Geral. Claro que, por eliminação, do outro lado está o Vale do Anhangabaú, não diria um vale, vá lá, é mais uma fenda no terreno, com um rio correndo em seu fundo, o Rio Anhangabaú. Ainda não começaram a desbastar os barrancos de lado a lado; no futuro ali plantarão chá, o rio será canalizado, uma avenida correrá em toda a extensão, viadutos e passagens de nível serão construídos… Tudo isso em um futuro do qual faço ou farei parte… (bobagem pensar nessas coisas porque alguém pode imaginar que andei bebendo: não estou vendo as torres da Luz nem da Sorocabana, força do hábito, claro Clovis! Nada em direção à Penha, sinto falta das chaminés das fábricas do Braz, dos silos para armazenamento de leite do meu querido "Leite Paulista", empresa pela qual me aposentei/me aposentarei/estou aposentado! Bobagem, não é? Ficar olhando para um ermo monótono, plano, e ficar “futurando” paisagens, bobagem)…<br><br>De volta: começo a ver, verdadeiramente a ver, as gentes do lugar que, aos pouquinhos, vão se solidificando – não tenho termo melhor – e a idealização que eu sempre tive dos seiscentistas de nossa pauliceia – não sei por que tenho certeza que estou no ano 1600 – começa a desmilinguir. Não vejo uma única mulher, nem branca, nem cabocla ou mameluca, ou cafusa, ou negra ou guaianá.<br><br>Janelas e portas das casas na tranca, apenas alguns homens indo e vindo do nada para lugar nenhum ou agachados, de cócoras, fumando em “pitos” de longos canudos. São homens de pequena estatura, abugrados, cabelos escorridos provando uma ascendência indígena, descalços, vestindo gibões e culotes de um tecido grosseiro, algo parecido com estopa de cânhamo e nem um pouco parecidos com os gigantes esculpidos por Brecheret ou retratados de maneira quase apolínea pelas tintas de Washt Rodrigues, uma desilusão que mexeu com meu sentido estético, destruiu a imagem pictórica que eu tinha do povo bandeirista desde meus tempos de primário no Rodrigues Alves da Paulista… <br><br>Não portam armas de fogo aqueles paulistanos gabirus. Vejo-os com bordunas, porretes, azagaias ou uma e outra arma branca, facões e durindanas enferrujadas, capazes de matar mais por tétano do que pelos ferimentos que poderiam provocar, mas foram com essas armas que se defenderam, que caçaram para sustento, que montaram os primeiros arcabouços de nossa cidade, que acabaram trazendo para São Paulo o esplendor que nos leva ao ufanismo dos dias de hoje! São Paulo? Conheço-a como a palma de minha mão. De súbito me sinto um gabiru, nascido e criado nessa época. Algumas pessoas me cumprimentam:<br><br>- Oigale, cuma te vás? Arribastes vindo donde?<br>- Das terras do Caxingui, uma légua do Caaguaçu, prás bandas dos Pinheiros, do outro lado do Jurubatuba, no Ybiuatã. Premera veis que vengo à Piratininga…<br>- Nunca fui praquelas lonjuras… vou morrer mas num vô. Vóismecê vai sispantar, é muitas gentes, custa costumar nesta vila, rór de multidón…<br><br>Tivesse eu uma mula e iria até a entrada da trilha Guarany no Paranapiacaba, para ver o mar, ver se o mar é igual ao que conheço, quais foram as mudanças na paisagem… Preciso me policiar, ficar mais atento; já estou pensando como um seiscentista, caraminholando linhas de pensamento e raciocínio, um “bagunce” muito louco. Melhor voltar, tenho que voltar! Preciso acordar, será? Certeza que um dia eu voltarei, isso eu sei. Como voltar é que eu não sei…<br><br>Novamente névoa… Processo inverso, pois a neblina aparece de supetão, os viventes vão desvivendo, seus corpos são semeados e se integram ao solo paulistano, figuras desaparecentes tragadas pelo nada, evanescentes! Pandemônio vertiginoso, luzes, flashes, luzes, Light and Power, trilhos, bondes e tilburis, carroças, charretes, trolleys, Brás, Bexiga, Barra Funda, Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Malagueta, Perus e Bacanaço, Losango Caqui… que preguiça…<br> <br>Tudo a minha volta vai se desmanchando, derretendo-se como os relógios marcadores do tempo surreal de Salvador Dali; ao mesmo tempo a terra, o chão treme e a cidade volta e revolta, brota e rebrota, Hidra de Lerna da urbanidade, a cada casa e casarão que somem, desaparecem, surgem três, "decifra-me ou te devoro", miserere nobis, et cum spiritu tuum, allea jacta est, mesmo? Deu Pavão no primeiro prêmio, só vale o que está escrito "Ora vejam só, a mulher que eu arrumei, ela me faz carinho até demais, de joelhos ela me pede: – meu benzinho, deixa a malandragem se és capaz…”<br><br>Os sons entraram em fading e vão desaparecendo na frequência mais baixa e voltam modificados na frequência mais alta: "Regulador Xavier, A Saúde da Mulher. Nº 1: Excesso, Nº 2: Escassez", "Cerveja Mãe Preta, a Melhor Cerveja Preta", "Melhoral, Melhoral, melhor e não faz mal", "Dedão e Chico Preto do Corinthians, carimbados, três mil réis", Casa Sotto Maior, tudo para seu rádio, bala de goma, pingo de leite, quinhentos réis a passagem do bonde? Aonde nós vamos parar? Só quebrando tudo! "Trabalhadores do Brasil!”<br><br>(tremulando a voz) neste momento solene, de angústia nacional… (apenas um tiro, silêncio). E então, senhores? Acabaram-se as batatas? A escuridão, o blackout, o sotaque nordestino:<br><br>- Moço, moço! Aproveita! Duas figurinhas “carimbadas” por três merréis… si num levá tem quem leva…<br><br>O rosto e tudo o mais, prédios, mosteiro, os anjos badaladores do relógio da igreja, começam a se derreter, a escorrer, como objetos pintados por Dali, evidente que sou repetitivo! Blackout, escuridão, despertador que desperta.<br><br>- Heim? heim?<br>- Acorda Ignacio, acorda…<br>- Odete? Que foi? Te acordei? Andei tendo uns sonhos bem doidos! Acho que foi a fatia de pizza a mais…<br>- Eu já estava acordada, levantei para fazer café… Você falou alto agora de madrugada, falou "dum" jeito esquisito, parecendo índio, parecendo espanhol, catalão, sei lá!<br>- Falei, é?<br>- Falou! E, engraçado, você não saiu ontem, “tava” de folga, passou o dia comigo e as crianças, fomos dormir na mesma hora…<br>-…e?…<br>-…e que seus sapatos estão sujos de barro, capim e estrume de cavalo; a roupa que você deixou no banheiro está cheia de carrapicho e picão…<br>- É?<br>- É! Você não tem nada para me dizer?<br>- Não, mas não esquenta a cabeça…<br>- Eu não esquento mesmo, vai entender, não é?<br><br>… E a coisa morreu aí. A Odete não tocou mais no assunto e eu também! Boca de siri! Mas, qualquer dia desses, em uma noite dessas, eu volto… gostei! Dá medo, mas gostei…<br><br><br>E-mail: [email protected]