“Esta casa”, disse Edson, “tem um portão automático, um jardim enorme, espaço para dois carros. Vocês vão gostar”. Parecia maravilhoso. Na zona leste de São Paulo, não muito distante do metrô.
Edson nos levou para ver a casa. Situada numa esquina, pintada de cinza e branco, portões enormes cinzentos. Edson praticamente pulou do carro para mostrar como o portão funcionava.
A casa era grande, com três quartos, três banheiros, cozinha grande, sala em L. Um dos quartos tinha um terraço e venezianas azuis. Deste terraço ficava-se bem de cara com a casa vizinha, onde um cachorro dormia tranqüilo ao lado do portão.
Nós não estávamos muito certos se queríamos a casa ou não, mas estávamos cansados depois de mais de um mês atrás de algo para alugar. Finalmente dissemos sim.
Depois de alguns dias reunindo nossos pertences e comprando móveis (que ainda não haviam chegado), mudamos numa sexta-feira. Edson veio nos ver com a família, trazendo colchões para que usássemos até que as camas novas chegassem da loja, e umas cinco garrafas de refrigerante – sem dúvida para comemorar sua liberdade. Finalmente ele estava livre de nós! Eles foram embora lá pra meia-noite, acenando da janelinha do carro. Nunca mais os vimos.
Colocando os colchões nos quartos, tentamos dormir. Ah, o calor! O calor era tanto que estávamos praticamente grudados nos lençóis. Abri as janelas e a porta do terracinho, e foi aí que o cachorro começou a latir. Era um latido esganiçado e tão alto que dava pra acreditar que o danado estava dentro do quarto. Agüentamos meia hora, mas depois fechamos as janelas de novo. O calor era sufocante. De nenhum jeito dava pra dormir. O cachorro continuava latindo – por favor, acredite, ele latiu a noite inteirinha.
Levamos o colchão para o quarto do nosso filho, mas este quarto ficava em frente a uma padaria aberta (creio eu) a maior parte da noite. Da janela podíamos ver uma dúzia de adolescentes sentados no colo uns dos outros e ainda outros em carros tentando subir na calçada.
De repente, mais um barulho corta o ar e nos faz pular de susto. Olhando pela porta do terraço, vimos na casa em frente (onde o cachorro ainda latia desesperadamente) um papagaio azul e vermelho numa gaiola pendurada na varanda. O barulho que ele começou a a fazer era como se alguém o estivesse matando. Era como de uma serra de metal e era também tão perto de nós como se estivesse (junto com o cachorro) dentro do nosso quarto. E os adolescentes também. E os carros brecando de repente, virando a curva da rua, os jovens ao volante gritando uns para os outros. Eram duas da manhã.
E ainda tinha mais a vir. Baratas. Montes delas, correndo em volta do colchão. Munidos de uma vassoura, meu filho e marido tentavam matá-las; minha filha apavorada e eu cansada demais para me importar.
Meia hora depois notamos um barulho de água, como se estivesse chovendo. Só que não estava. Este barulho continuou a noite toda; talvez fosse de uma caixa d’água. Até hoje não sabemos exatamente o que era; todos nós levantamos e procuramos descobrir, mas não conseguimos.
Voltamos aos colchões, exaustos demais para continuar a busca. E aí ouvimos o portão de metal sendo sacudido! Alguém estava tentando subir pelo portão. Isso nos assustou de verdade, nem telefone a casa tinha e nós não tínhamos celulares. O barulho no portão continuou por um longo tempo. Chamamos os filhos para ficarem conosco no mesmo quarto e trancamos a porta. Para falar a verdade, estávamos todos aterrorizados.
Lá pras três e pouco da manhã, os vizinhos da frente, donos do cachorro (latindo) e do papagaio (ainda fazendo o barulho metálico), resolveram tirar um barco (por favor, acredite) e colocá-lo num veículo para ser levado não se sabe aonde. Eles acenderam todas as luzes da casa, que entravam pelas nossas janelas. E como falavam alto!
Quando o sol nasceu, o cachorro dormiu. O papagaio ficou quieto. Os vizinhos fecharam todas as janelas e foram dormir. Silêncio total. Só que o meu marido tinha que ir trabalhar!
Descemos para tomar café, de olhos vermelhos e cabelos eriçados, cansados demais até para dar um jeito na cara! Nós quatro comemos em silêncio, sabendo que não ficaríamos nesta casa de jeito nenhum. Não por um ano, como o contrato pedia. Nem por um mês. Pra falar a verdade, nem por mais uma noite.
Empacotamos umas roupas em sacolas plásticas, alguma comida que estava ainda nos pacotes e jogamos o resto fora. Como não tínhamos desempacotado quase nada, simplesmente pusemos de volta nas caixas o que fora tirado para virmos buscar depois. E saímos dali, correndo, para a Rodoviária do Tietê pegar um ônibus para Atibaia, onde ficava a casa do meu irmão. Até o trabalho ficou pra trás.
Mais tarde ficamos sabendo que o Edson passou por lá na noite seguinte para ver como as coisas estavam e, encontrando o portão fechado, perguntou à vizinha onde estávamos. Ela informou que nós havíamos saído cedo e não havíamos voltado mais. Isso o próprio Edson me falou por telefone, com uma voz de incredulidade. Nós nunca mais o vimos. Também, não posso culpá-lo.
Duas semanas depois alugamos um apartamento lindo, limpo e quieto. Sem ajuda do Edson.
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