Primeiro e derradeiro voo

(Manhã, passando pela porta fechada do supermercado no Parque Continental, zona Oeste de São Paulo, onde moro, vejo no chão um filhote de sabiá, se estrebuchando de dores e morrendo em seguida. Dedico a esta pequena criatura estes versinhos).
 
Do alto da frondosa árvore, em um aconchegante ninho, 
O pequeno Bentinho via sua mãe entrar, pela bandeira 
Aberta do supermercado… Voltar, sempre com alimentos.
Observando, atentamente, mamãe, no bico, um sorrisinho.
Chegara a hora, aprender a voar, mamãe, sempre ordeira,
Pede a Bentinho que ensaie seus primeiros movimentos.
 
Bentinho, sapeca, vivo e esperto, já quer voar direto.
“Primeiro, tente bater as asinhas”, Bentivenha aconselha.
Bentinho, em seu limitado saber, “eu vi a senhora voar…”
Manhã linda, ensolarada, Bentivenha sai em voo correto,
Em busca de mais alimento, Bentinho, não é só palha,
Que vai satisfazer o pequenino, que quer um voo tentar.
 
Apenas o bater de asinhas, não faz um pássaro liberto,
Mirando a bandeira do supermercado, lembrando mamãe,
Bentinho enche o peito, ainda com casquinhas de ovo.
Vai mostrar para mamãe que ele também voa, e é esperto,
Começa a bater as asinhas, vê a bandeira, ele se empenha.
Não vê… Bandeira fechada, vai de encontro ao vidro polido
E cerrado, trágico final de vida, em um triste e verdadeiro
Primeiro voo derradeiro.