Primeira tela

Na juventude eu tinha a certeza de que poderia mudar o mundo. Aliás, uma juventude sem sonhos seria o pior diagnóstico de uma sociedade, provavelmente seria um caminho para um colapso surdo e absurdo, um mundo cinza, sem perfume, sem brisa nem luar e nenhuma vibração.

Sempre é preciso sonhar, deixar que os olhos brilhem com intensidade apaixonante, que exista um amor pelas coisas que podem ser construídas, pesos transformados em uma realidade menos mórbida, com criações novas, planejadas, floridas, bem imaginadas. O mundo pode sim ser melhor, mais colorido e dinâmico e, para isso, é preciso trabalhar muito, fazer honrar os desejos com a força que a juventude carrega nas vísceras.

Eu tentava me expressar, em um tempo de infinitas proibições. Buscava identidade recheada de esperança, fazendo valer uma teimosia meio fanhosa e que poucos haveriam de me compreender. Resolvi então pintar uma tela. A minha primeira tela. Retângulo pequeno, usei o branco e o preto. Ali, na abstração, eu colocava o homem no centro daquela pequena representação de universo, cercado pelo negro muito típico daquela sociedade brutalizada pelo medo dos anos 70, junto do ranço medonho da Guerra Fria… E esse homem teria na fé um espaço assegurado para uma paz que seria construída aos poucos, com esmero e lentidão. O branco se sobressaía nas bordas da tela, se sobrepondo à escuridão, sendo uma extensão daquela figura humana central, trazendo o significado da libertação daquele peso abominável através da cruz.

Achei linda a abstração. Achei-me o máximo da criatividade. Mero fogo de palha de jovem de crenças mal resolvidas! Logo me esqueci da aprender a pintar e a tela, certamente, foi para o lixo sem que eu mesma percebesse.

Décadas depois me determinei a pintar. Com entusiasmo passei a retratar paisagens em especial, o movimento sonoro das águas, a exuberância sem limites dos rios e das montanhas deslumbrantes que dão vida à Serra do Tabuleiro, na grande Florianópolis. Uma parede da minha sala ostenta uma versão modernosa da Última Ceia, muito colorida e com vida latente. Mas o sonho maior, que não vou abrir mão, é produzir uma tela tendo como pano de fundo uma Última Ceia paulistana, com o rosto da miscigenação – o rosto indígena, o negro, o nordestino, o italiano, alemão, judeu, árabe, polonês, o oriental… Seria esse um presente de gratidão a São Paulo, eterna cidade da esperança, trabalho, cultura e inovação. Uma cidade que sobrevive ao caos a cada dia e que também se renova na arte, no intercâmbio de saberes, na santa comida. Lugar onde árabes e judeus conversam no Bom Retiro sem rancor e japoneses e chineses chegam até a esquecer o rancor deixado pela II Guerra.

Mas em uma noite, uma amiga me confidenciou, com uma certa apreensão e um tanto de constrangimento:

– “Verinha, a minha empregada deu uma geral lá em casa, roubou um monte e levou aquele quadro de copos de leite que você havia me presenteado no aniversário.”

-“Hein? O quê? Levou o quadro? Repete. É mesmo?”

Eu chacoalhava a minha amiga pelos ombros, em uma felicidade única. Finalmente eu tinha um quadro roubado! Era o que eu mais desejava no meu sentimentalismo ainda adolescente que nunca se desprendeu dessa pobre criatura. Eu sonhava de olhos abertos: “um dia vai acontecer. Alguém vai roubar um quadro meu”. E eu ficava imaginando o quadro sendo procurado pela Polícia Federal. Quem sabe o FBI haveria de tomar a causa. Ou mesmo a Scotland Yard. A notícia ganhando espaço na capa da Folha…sim, seria a glória suprema, uma verdadeira apoteose.

Entrei na sala de aula exultante e não me contive. Dei uma aula com mil sorrisos, contentamento sem fim. Até que não aguentei e contei para os meus alunos:

– “Vocês não sabem o que aconteceu. Hoje aconteceu o meu maior sonho: um quadro meu foi roubado, gente, roubado…” Só faltava eu pular e rodopiar defronte à lousa. “Roubaram o meu quadro, gente do céu”…

Nessa encarnação eu jamais ouvira um silêncio mais aterrador.