A Igreja do bairro convocava as crianças da vizinhança para a tão esperada Primeira Comunhão. E lá íamos todos para as reuniões de domingo conhecer um pouco da vida dos santos, anjos e arcanjos.
Lembro-me que minha primeira comunhão se deu num dia 08 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Conceição. Minha mãe mandou fazer o vestido, ganhei do meu primo o terço e o livro (capa de madrepérola) e o que me encantou foi o véu, branco, leve, esvoaçante.
No sábado, antes fomos todos nos comungar e esse momento foi solene. Eu, que tinha na época sete anos e, portanto, nenhum pecado, cheguei para minha mãe e perguntei o que diria para o padre na hora da confissão e ela, também ingênua, marcou para mim os pecados possíveis que cometi. Escrevi num papel que briguei com minha irmãzinha, chiei com o cachorro, pisei duro quando me proibiram de alguma coisa; enfim, tudo inventado, afinal, teria que ter um pecado para receber a penitência.
Bem, cheguei à frente do padre e li meus pecados e a sentença foi: dez pai-nossos, duas ave-marias e um credo (que era bem longo).
No dia seguinte, lá fomos nós, eu em jejum completamente, e no melhor da cerimônia, depois da hóstia consagrada, caí desmaiada, também pudera, horas sem comer nem beber. Foi um corre-corre medonho, fui levada para o pronto-socorro e depois de ser medicada, fomos para casa onde minha mãe tinha feito uns lanchinhos, Tubaína e muita animação.
Depois disso, eu passei a ir à missa sempre com o véu (achava chique e importante usá-lo aos domingos).
Pergunta que não quer calar: uma criança de sete anos tem pecado? Uma criança merece ficar em jejum por tanto tempo? E a missa rezada em Latim?
Mas essas eram as normas daquele tempo e todos acompanhavam direitinho. “ETA” tempinho bom!
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