Eu cresci nos anos sessenta com pais que eram bem práticos e econômicos. Minha mãe, que Deus a tenha em bom lugar, estava sempre remendando coisas, esquentando comida do dia anterior, consertando coisas daqui e dali. Ela era a rainha da reciclagem, mesmo antes deste termo aparecer. Sempre com uma chave de fenda na mão. Meu pai ficava mais feliz quando mandava consertar um par de sapatos do que quando comprava um novo, este já está amaciado, dizia ele. O casamento deles foi ótimo, seus sonhos tinham uma meta. Seus melhores amigos estavam sempre em contato.
Eu posso vê-los agora, papai em seu poncho gaúcho, chapéu de aba larga, sentado na rede descansando e mamãe sentada, com sua máquina de costura Vestazinha fazendo uma linda camisa floreada, de laços trançados na frente, igualzinha a do Roberto Carlos na Jovem Guarda, para seu filho querido. Ela via alguém com uma certa roupa na televisão e no outro dia já estava fazendo uma igual.
Era tempo de consertar coisas: o pau da cortina, o rádio da cozinha, o vidro da porta, a porta do fogão, a bainha da calça. Coisas que a gente conservava. Era o jeito de se viver e não poluir tanto o nosso mundo… E eu esquentava a cabeça com tudo aquilo. Consertando, esquentando, reformando. Eu queria pelo menos um dia ser esbanjador. Esbanjar significava ser rico. Jogar as coisas fora significava que sempre teríamos mais. Ter mais, para o meu cérebro de criança, era a palavra chave.
Porém quando minha mãe faleceu, naquela noite linda de verão, na quentura do seu quarto de hospital na Beneficiencia em Santo André, eu pude refletir com muita dor, que muitas vezes não existe mais aquilo que a gente quer. Algumas vezes aquilo que apreciamos mais vai-se embora…para nunca mais voltar.
Então…enquanto os temos…é melhor amá-los..cuidá-los…conserta-los quando estão quebrados… curá-los quando estão doentes.
Isto também faz sentido com o nosso casamento, com aquele carro antigo que estamos conservando, com nossos pais que estão envelhecendo, com nossos avós…
Precisamos guardar algumas coisas…As boas memórias desta cidade de São Paulo que um dia nos acolheu, dos amigos que se mudaram para longe, do colega de escola que crescemos juntos.
Estas são algumas das coisas que fazem a nossa vida importante.