Política em São Miguel

Política nos anos 60 em São Miguel escrevia-se com “P” maiúsculo. “P” de paulada, de porrete, de pancadaria e de patifaria. Era o tempo dos comícios, ainda sem artistas, que terminavam quase sempre em grossa pancadaria; de um lado os adhemaristas, do outro os janistas. Rivalidade implacável que separava famílias, amigos, casais, times de futebol, qualquer coisa. Não foram poucas as vezes que refugiamos em nossa casa vítimas e vilões dessas batalhas.

Sem artistas, a figura principal dos comícios era o animador. Cabia a ele entreter e segurar a assistência enquanto os candidatos protagonistas não chegavam; atrasados como sempre. Um bom animador era a certeza de que o comício seria um sucesso e que o candidato iria encontrar a praça lotada o aguardando. O mais famoso deles era o Manoelzinho Chagas, figura marcante, voz bonita, chegado a poeta e cantor, aurelinista até o último fio de seus tingidos cabelos. Era tarefa das mais ingratas entreter aquela turba, muito mais interessada em brigar e xingar os adversários do que ouvir as propostas de seus candidatos.

Aliás, nem havia propostas naquele tempo. Eram promessas e quanto mais o candidato prometia, mais o povo delirava. Adhemar chegou a prometer uma vez ligar São Miguel à Penha por um túnel para que o pessoal não torrasse no sol dentro dos ônibus. Aliás, o que esse Adhemar gostava de construir túneis era uma grandeza. O homem do "rouba, mas faz" fez escola, mas nos dias de hoje não seria mais que um trombadinha. Gordo, bonachão, demagogo, rico e “bon vivant”, Adhemar era a alegria dos caricaturistas e das secretárias do palácio.

Jânio era o oposto. Mal-humorado, moralista, também demagogo, gostava de posar de pobre e prometia varrer a corrupção. Falava um português escorreito, segundo sua própria definição, o que para o povo não fazia a menor diferença porque este não tinha, nem tem, a menor ideia do que significava esse tal de escorreito. Usar ternos surrados, comer bananas e mortadela durante os comícios era pura marquetagem, antes mesmo da existência dos marqueteiros. Jânio nunca deixou de ser um artista, um ator canastrão, ou mais precisamente um Lula alfabetizado.

Voltando a São Miguel, a política daquele tempo corria em torno de alguns nomes. Por ordem de entrada em cena: Tarcílio, Aurelino e Fausto, nem antes nem depois nenhum político, além deles, se destacou no cenário político da metrópole. Alguns até se elegeram, mas foram efêmeros e não despertaram as paixões que inflamavam os seguidores daqueles pioneiros.

Provavelmente, Tarcílio tenha sido o primeiro vereador eleito por São Miguel, isso em 1952. Dele pouco sei ou lembro, a não ser que era janista, locutor de rádio e que se mudou de São Miguel para Taubaté no fim dos anos 60. Minhas únicas (e boas) lembranças de Tarcílio são dois de seus filhos, ele do colégio, ela do samba. Em Taubaté existe uma Avenida Deputado Tarcílio Bernardo, mas não encontrei registros de sua passagem pela Assembleia. Será um homônimo ou o velho Tarcílio recomeçou a carreira por lá?

Fausto é o último deles e o que foi mais longe. Vereador pela primeira vez em 1964, já em sua segunda eleição, a de 1968, chegou à Assembleia Legislativa. Sete meses depois da posse na AL teve seu mandato cassado pelo AI-5. Retornou à Câmara Municipal em 1989 para mais um mandato, após o que encerrou sua carreira política. O folclore da época faz menção a sua falta de cultura, seus modos rudes, sua inabilidade com o linguajar e os maneirismos dos parlamentos. É dele a famosa expressão, proferida na tribuna da Câmara: "Senhor Presidente, desculpe-me, eu tive um lápis de memória".

Aurelino, o que mais conheço, por óbvias razões, merecia, para contar sua trajetória, um livro inteiro. Foi a mais longa carreira que um político de São Miguel jamais teve. Autodidata, ávido leitor, cultura e oratória poderosas, irascível pessoalmente, mas politicamente cordial. Homem de poucos amigos, alguns inimigos e uma legião de seguidores fanáticos. Não havia meio termo: ou o amavam ou odiavam-no. Os aurelinistas nasciam e morriam assim e não deixavam herdeiros. Quando seus primeiros eleitores e seguidores começaram a morrer, lá por meados da década de 80, seu cacife político começou a minguar. Ainda assim ficou por 36 anos ininterruptos na Câmara Municipal de 1956 a 1992 e voltou em 1997 para encerrar a carreira e completar 40 anos de casa.

Diz a lenda que não gostava de pobres. Não posso confirmar, mas de futebol certamente não gostava. Não gostava, nem entendia. Certa feita, procurado por um time de várzea para doar um jogo de camisas, perguntou quantos jogadores tinha um time de futebol. Depois da resposta mandou um assessor entregar cinco azuis e seis vermelhas. Outra vez, já vereador nos anos 60, com entrada livre no Pacaembu, em um Santos e Palmeiras, perguntou ao seu irmão, fanático palmeirense, quem era o Pelé. Ele passou o jogo inteiro achando que o Djalma Santos é que era ele.

Mas como imaginar nos dias de hoje um político que, pelo menos, não finja gostar de pobres e de futebol? Não se elegeria nem síndico de prédio da Cohab. Mas ele conseguia. Sempre com votações apertadas, suadas, em um tempo em que a apuração era manual e sujeita à pressão dos fiscais de partidos sobre os escrutinadores do TRE. Cheguei a ser um desses fiscais. Eram tempos de cédulas e de votos a caneta. Só quem tem mais de 40 anos sabe o que vinha escrito nas cédulas, quando o sujeito queria anular o voto.

Orações, pedidos, declarações de amor e, sobretudo, palavrões de todos os calões. Valia tudo para trazer para o seu candidato um voto que o pessoal do TRE pensava em anular. Cada leitura de voto era quase uma interpretação de texto; tentava-se adivinhar entre os garranchos do eleitor o nome do seu candidato. Em uma dessas Aurelino estava entre os fiscais e um dos escrutinadores abriu uma cédula na qual estava escrito alguns xingamentos… Ele, louco por um voto, saiu gritando: sou eu, sou eu, sou eu.

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