Pobre rapaz, menina rica

Todo mundo tem um amor na vida e, por ele, tudo é capaz. “Eu tenho uma paixão que é proibida só por que sou pobre demais”; ouço esta canção no aparelho de CD e os meus pensamentos reportam ao ano de 1963, mais precisamente no bairro de Santana – São Paulo.<br><br>O túnel do tempo nos traz recordações de um amor não correspondido. Flavia era o nome dessa pessoa linda, meiga, filha de um industrial de renome na Capital; todo mundo sonharia em ter ela como namorada.<br><br>Aconteceria, então, uma festa de aniversário no Jardim São Paulo, zona norte de São Paulo, e eu, um eterno penetra, participaria, mesmo não sendo convidado. Nem acreditava que seria barrado na entrada e ela, Flavia, estava presente, destacando-se entre demais por sua beleza. Era um vestido encantador, cor de pérola, seus lábios, então, sorriam para mim, meus olhos, de imediato, sentiram uma ternura sem par e, imediatamente, minha timidez foi vencida quando a chamei para dançar uma linda melodia italiana “Io Che amo solo te”, a emoção de estar ao seu lado faria balançar o coração, torcia para que a música não tivesse fim, tinha ela nos braços.<br><br>Acabou a festa, aconteceu a despedida com um aceno de mão. Ela foi embora e os meus olhos tristonhos foram ao seu encontro temendo um derradeiro adeus. Tinha um obstáculo entre nós: ela era rica e eu pobre, não tinha aonde cair morto, seu pai não aceitaria nossa união, tal como a música, pensei…<br><br>Soube então, no dia seguinte, por um amigo, que ela tinha certa simpatia por mim, o que me abriu a esperança de conquistá-la, apesar de nossas diferenças sociais. Queria novamente revê-la e, dia seguinte, lá estava eu, escondido atrás de uma árvore bem em frente ao colégio Santana, onde ela estudava. Valeria a pena subir a íngreme ladeira que era a Voluntários da Pátria; não queria que ela me visse, ela estava tão linda naquele uniforme azul e branco, senti, no momento, a distância, a angústia de não poder vê-la de frente e dizer que a amava.<br><br>Surgiu então a esperança quando uma colega a levou, em um domingo, ao cine Hollywood, sessão da tarde. As luzes, então, se apagariam para o início do filme, aliás, para lá de romântico e em um dado momento sentei-me ao seu lado; o perfume inebriante sentia-se procedente de seu lindo corpo no ambiente. Ela percebera, na penumbra, que era eu e não recusou quando os meus braços envolveram o seu ombro emoldurado por seus lindos cabelos, que me levou às alturas selado com um beijo roubado na paixão do desejo.<br><br>Acabou-se a sessão, voltamos a realidade, as luzes foram acesas e, para a minha tristeza, terminaram aqueles momentos, nossos olhares se encantaram com o acontecido. Acordamos. A vida continuaria, eu, um pobre rapaz, não poderia amar uma garota rica, havia uma distância enorme entre nós. Choramos muito, ocorreu a despedida.<br><br>Agora, no túnel do tempo, como recordação, escuto a mesma música que não teve um desfecho feliz: “Seus pais não querem a nossa união…” Vivemos um filme. O enredo de “A princesa e o plebeu”…<br><br><br>E-mail: [email protected]