Piraquara e Campo Belo dos leiteiros

Manuel da Ressurreição, da "cepa lusitana laboriosa", veio para o Brasil cheio de esperança, onde houve por bem adquirir uma gleba de terra do que fora espólio de Joaquim Pedro Celestino, ilustre colaborador de Ultramar que havia recebido as benesses do rei da metrópole por serviços prestados, com terras de grandes latifúndios no Brasil e dono de vasta área margeada pelo Ribeirão da Traição e Uberabinha.

O senhor Manuel da Ressurreição casou-se com dona Maria Emilia da Ressurreição, vindos para o Brasil com as grandes imigrações européias do começo do século 20.

São Paulo fervilhava de levas enormes de estrangeiros, cada qual falando sua língua de origem, onde o setor da imigração infelizmente registrava ao som dos "ouvidos moucos" de seus agentes, que hoje ainda causa dissabores deste despreparo das autoridades locais, por escreverem documentos errados.

De 1901 a 1930 entraram no Brasil 754.147 lusitanos, seguido por italianos, que somente entre 1903 e 1933 atingiram a cifra de 353.018 imigrantes, quando neste mesmo período de 1900 a 1929 adentraram 115.651 alemães e de 1904 a 1933 os japoneses atingiram 142.457 imigrantes, a maioria tinha como destino a cidade de São Paulo.

A Europa estava saturada, destruída por conflitos, não se recuperava economicamente, e as terras estavam cansadas por sistemas arcaicos de produção, restando pouco espaço para um contingente enorme de mão de obra de reserva "causadora de fome e pobreza", na visão do poder local, e deveriam ser controladas para evitar distúrbios sociais, além de possuírem baixa escolaridade.

A América seria um oásis para os problemas deste contingente de massa humana. O governo brasileiro oferecia trabalho nas lavouras produtoras de café, onde os fazendeiros ganhavam bons preços e lucros dos financistas estrangeiros. O Brasil possuía terras infindáveis, podendo oferecer, a custo pequeno, dimensões astronômicas de terras, medidas em alqueires ou hectares, embora poucos viessem com alguma reserva monetária para investimentos imediatos.

A Chácara dos Leiteiros ficava na confluência das atuais Avenida Bandeirantes, do Ribeirão da Traição, e Vereador José Diniz, onde mais tarde tornou-se a "Parada Força" dos bondes que se destinavam para Santo Amaro. O nome "Leiteiro" denota haver neste local criação de vacas, que forneciam leite para a região da Vila Cordeiro, Campo Belo, Brooklin, Moema e adjacências.

A margem direita do Rio Pinheiros era cortada por demais chácaras que foram criadas para abastecer uma cidade em transformação.

No cruzamento das Ruas Jesuíno Maciel e Constantino de Souza situava-se a padaria Dom Pedro II, próximo do Bar do Breda, que os amigos batizaram de Treme-Treme, onde discutiam as táticas futuras e sempre estavam prontos para representar a "Associação Esportiva Piraquara", próximo às paradas Campo Belo e o Buraco do Peixe – Piraquara -, uma das agremiações mais respeitadas da várzea paulistana, que foi sintetizada em matéria da Gazeta Esportiva, um dos melhores jornais do meio esportivo, de 3 de fevereiro de 1965, quando dava ênfase ao futebol amador, registrando também outra "esquadra" de grande respeito: o Esporte Clube Floresta, do Guarapiranga:

"Jogando em Guarapiranga diante do E. C. Floresta, colheu a A. E. Piraquara estupenda vitória pelo escore de 2 a 1, gols dito. Eis os vencedores: Chico, Eloi, Zezinho (Cigão) e Turco: Gaspar e Cabeção: Dito, Bastiãozinho, Marcio, Marinho, Cilo. Nos aspirantes, vitoriou-se o mesmo por 3 a 2, gols de Leiteiro I, Leiteiro II e Guedes."

O futebol de várzea tem suas nuances, em que extravasar, brincar, bebericar, jogar conversa fora, e ter algum lema e hino fazem parte do show entre os amigos, que mesmo passando o tempo, unem pelas lembranças: "gostar de futebol, ser bom de bola, não faltar, amar a camisa, ser educado, não era o suficiente,… tinha que pagar recibo senão… dançava".

Os compromissos com a agremiação eram de todos os participantes do elenco, pois o uniforme, no próximo domingo, tinha que estar limpo, e pagar a lavadeira era a obrigação primordial para novas batalhas esportivas.

Muitos hoje são recordações e fazem parte desta história maravilhosa, outros ainda são ativos nos veteranos e parados, cuja ordem é a bola correr e não correr atrás da bola.

Aqueles dois irmãos gêmeos de toque de bola aprimorado e chute potente, de aspirantes do Piraquara, atingiram o que "aspiravam", como citava a Gazeta Esportiva com o termo aspirante, que chamávamos segundo quadro, o cascudo, alguém ainda em formação.

Tanto era a habilidade que Leiteiro II participou da partida preliminar entre a Seleção de Santo Amaro contra o Barreirinho do Rio de Janeiro, naquele jogo memorável do Santos Football Club e Milan, em 1963, em que no time "inimigo" estavam dois selecionáveis brasileiros, Mazzola Altafini, que defendeu no Brasil e o Palmeiras e Amarildo "Possesso", que tinha formado na bela esquadra do Botafogo de Garrincha. Detalhe à parte: Pelé havia se machucado e não estava em campo, no seu lugar estava Almir Pernambuquinho.

Eram duas das maiores formações futebolísticas da época, e o Santos virou o "escore" de 2 a zero para 4 a 2.

A seleção da várzea de Santo Amaro "suplantou" a equipe da várzea carioca com o placar de 1 a 0, gol convertido por Luiz Caveira.

O Milan havia vencido na Itália, obrigando o terceiro jogo. Dois dias depois o Santos venceria o Milan por 1 a 0 e sagrar-se-ia campeão mundial

Nossos amigos Leiteiros tinham fome de bola, e entrariam facilmente entre aqueles que jogaram mais em esquadras varzeanas podendo integrar o livro dos recordes. Citamos abaixo muitos destes times que um dia fizeram grandes pelejas do futebol amador:

Portuguesinha da Vila Mariana, Juventus da Vila Joaniza, Estrela do Norte, da Vila Mandú, Jardim São Luiz, Minister e Piratininga, San Remo, da Chácara Santo Antonio, Estrela do Campo Grande, Bola Preta, Brasília da Anhanguera, Titan e Estrela Vermelha da Via Helena, em que uma amizade nasceu com o centro avante Cobrinha, que em Santo Amaro tornou-se Maloquinha, pela irreverência e habilidade. Segue ainda o Caramuru de Indianópolis, Flor do Guarani de São Judas, São Vito e Grêmio do Brás, Cancan do Pari, Elite, Lusitano, Aristocrata e Preço Fixo, da Bela Vista, Floresta e Socorro do Guarapiranga, Centro da Coroa e Sereno da Vila Guilherme, Time do Edson Cegonha que defendeu times profissionais, M'Boi Mirim, o Santa Margarida, Tupi da Vila Remo, Vaticano, Lapeaninho e 7 de Setembro da Lapa, Bonanza, Vera Cruz e Corintinhas do Jardim Miriam, Estrela da Vila Santa Catarina, Estrela da Saúde, Dragão da Hípica Paulista.

Muitos destes times ainda resistem e desafiam o tempo e estão em atividade na região. Além disso, formaram esquadras que representavam as indústrias, verdadeiras seleções, e que se denominava "laço", ou seja, requisitar os melhores de cada time que formavam grandes times das empresas: MWM, Caterpillar, Tormec, Metal Leve, Rolamentos FAG, Toalheiro Brasil, Metal Itamaza, Macotec, Burdy do Brasil, Helca, Velnac, Marcas Famosas, (ainda situada na Avenida Santo Amaro, em frente ao antigo Club da Lacta e a Nuclemom, empresa de material nuclear, onde hoje há um prédio residencial), Durex, indústria de baterias automotivas, Kibon, Caloi, Monark, todas saíram da região, pouco resta do apogeu industrial, e seus prédios foram demolidos para dar espaço aos investimentos imobiliários.

Os Leiteiros também foram convidados a fazer parte do Clube Atlético Barueri. Muitos poderiam ser acrescidos, e seriam tão importantes quanto os citados, e reverenciamo-nos sempre com a várzea, mas estes fizeram parte dos Leiteiros I e II.

Por último deixamos os times que fizeram parte da juventude dos dois irmãos gêmeos José da Ressurreição, Leiteiro I, e Domingos da Ressurreição, Leiteiro II, Santa Fé e Associação Esportiva Piraquara, que marcou época no Campo Belo, e que citamos a formação do ano de 1968:

Primeiro quadro: Chicão, Eloi, Zezinho, Gaspar, Turcão e Bitinho e com ataque formado por Cabeção, Marinho, Dito Leiteiro I e Cilo. O segundo quadro tinha tanta representação quanto o primeiro e era formado por: Mota, Ferrari, Toninho, Jura, Bastiãozinho, Leiteiro II, Gabeto, Marcio, Pelezinho, César, Tião.

Fica a lembrança destes irmãos gêmeos, que quando juntos confundem os mais fisionomistas e a confusão é realmente inevitável; como curiosidade, cita-se uma passagem que ocorreu no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, a Padaria "15 de Novembro". Seu dono era o "Mané da 15", muito conhecido na região. A padaria ficava ao lado da Matriz, hoje Catedral da Diocese de Santo Amaro. Pois bem, nosso amigo Leiteiro II trabalhava na loja de roupas Brasão.

Num sábado, foi almoçar na referida padaria. Sentando à mesa fez o pedido de uma feijoada grande. Era bem servida, não tinha miséria, era uma das mais bem feitas da região. O Leiteiro II se fartou e, como se diz, saiu empanturrado, satisfeito. Caminhando pelo Largo 13 de Maio encontrou seu irmão, ele comentou a qualidade da feijoada e o Leiteiro I, orientado pelo irmão, foi à "Padaria 15" e requisitou a feijoada grande. O garçom Siqueira era novato e, não conhecendo ambos, desafiou: se comer a feijoada grande não precisa pagar, mas não pode desperdiçar. Assim o irmão se satisfez, ainda esnobou pedindo uma cervejinha e um pãozinho para acompanhar. O garçom ficou espantado por tanta gula, e como "tratado nunca é caro", ele cumpriu o prometido e não cobrou o freguês guloso. Um outro dia os dois foram juntos tomar café, e o garçom viu que fora ludibriado pela esperteza e semelhança dos gêmeos.

Hoje eles se apresentam em shoppings da cidade de São Paulo, possuem "book" de apresentação, e são os mais requisitados para representar Papai Noel na época Natal. E ainda dão um "tapa na pelota", aos domingos, nos campos da várzea do Jardim São Luiz, em Santo Amaro!

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