Pinga com carqueja

A “Lapa de baixo” sempre teve sua autonomia e a dependência da parte de cima do bairro da Lapa era pequena. Possuía um comércio modesto, constituído por armazéns de secos e molhados, quitandas, açougues, bares, pastelarias, loja de armarinhos, papelaria e outras. As ofertas desse comércio satisfaziam as necessidades básicas da clientela.<br><br>Eu tinha um tio-avô que sempre se omitiu em administrar o lar, dizia não ter jeito e paciência para essas coisas. As compras para o suprimento da casa eram realizadas pela minha tia-avó, sua mulher. Se bem que o velho tinha os seus caprichos e, às escondidas, era o maior freguês da quitanda do Paulo “Japonês”, na compra de maços e maços de carqueja. Também às escondidas, após a escolha criteriosa dos melhores ramos com seus talos e folhas viçosas e lavagem excessiva dos mesmos em água corrente, colocava a carqueja em garrafões de pinga de alambique para, de acordo com seus termos, "amansá-la". A bebida ficava muito amarga e verdinha. <br><br>A minha tia-avó, sem deixar transparecer, se preocupava com o consumo demasiado daquela alquimia pelo marido e, por várias vezes, marcava e desmarcava consultas com o único médico, à época, da “Lapa de baixo”, cujo consultório ficava em frente à estação ferroviária, no andar de cima da Pastelaria Pequim.<br><br>Uma tarde meu tio-avô resolveu atender os apelos da esposa se arrumou para todo. De terno e sapatos de lustro incomum se apresentou ao Doutor Juvelino para a consulta tantas vezes adiada. Ao retornar do médico, meu tio avô, entrou na cozinha e pegou na parte de baixo da pia o garrafão de pinga amansada, serviu-se de uma dose e esperou a pergunta da esposa, que preparava o jantar:<br> – “O que o doutor receitou?” <br><br> – “Pediu para não colocar mais a carqueja na pinga!”, respondeu após ter esvaziado o copo.<br><br><br>E-mail: [email protected]