A muitos e muitos anos, lá pelos rincões do Jardim Penha, terra onde nasci, um lugar descampado e retirado completamente diferente do que é hoje, havia um clube de escoteiros chamado Grupo de Escoteiros Carcarás, era uma turma de uns vinte meninos comandados pelo seu Ubirajara, ou chefe Bira como era mais conhecido, meu sobrinho também fazia parte deste grupo, reuniam-se em um velho galpão abandonado e a coisa de que mais se gabavam era de conhecer um parque que havia ali nos arredores. <br><br>Era um enorme parque municipal, onde os escoteiros faziam várias atividades e manobras. E certa vez o Chefe Bira bolou um desafio: se a tropa seria capaz de localizar alguém perdido no parque. O desafio foi bem aceito pela turma, agora só faltavam encontrar um voluntário, como meu sobrinho estava todo empolgado e eu passei minha infância brincando naquele parque resolvi candidatar-me e baixar a crista daqueles franguinhos.<br><br>A brincadeira seria a seguinte, eu fingiria estar perdido e os escoteiros teriam um prazo de oito horas para me encontrar. A prova ficou marcada para o próximo domingo, onde eu teria duas horas para me embrenhar no parque e os escoteiros teriam que me achar. Chegou o dia do desafio, era uma linda e ensolarada manhã, estávamos todos lá, os escoteiros de um lado com suas bandeiras e “bandeirins” e eu do outro pronto para me perder no parque, mas o que eles não sabiam é que eu conhecia o parque como a palma de minhas mãos.<br><br>O sinal foi dado, levei quase uma hora e meio para atravessar o parque, escolhi um local bastante árido e repleto de erosões, era só para eu me perder, mas resolvi também me esconder, estava disposto a não ser encontrado, sem que os escoteiros soubessem, eu já havia estado ali um dia antes e preparado um ótimo esconderijo, era um grande buraco no chão em forma de vírgula, havia centenas de buracos como este, eles jamais me encontrariam ali e para minha comodidade eu trouxera tudo o que ia precisar para passar um longo, mas confortável dia. Água, suco, gelo, comida, capa de chuva, cobertores, até um repelente para os insetos e tudo mais, também uma surpresa para os escoteiros se acaso se aproximassem muito de mim, o que eu acreditava ser muito difícil.<br><br>De onde estava eu podia ouvir ao longe o som desesperado dos tambores, das cornetas e dos apitos, já haviam se passados três horas e os escoteiros ainda não haviam encontrado nenhuma pista que pudesse levá-los ao meu paradeiro. Era quase meio dia, o sol a pino, eles estavam bem próximos de mim, mas não me viam, eu estava bem camuflado em meu perfeito esconderijo no chão. O desanimo da turma era geral, e se eu realmente estivesse perdido, achavam que não estavam conseguindo me encontrar. Duas horas da tarde e nada, passavam quase por cima de mim e nem suspeitavam que eu estava tão próximo, afinal alguém que está perdido não se esconde. Foi quando o chefe Bira teve a ideia de chamar outros grupos de escoteiros para auxiliarem na busca, eles não suportariam a vergonha da desonra e do fracasso. <br><br>Chegou um clube, outro e mais outro, e dentro de instantes o parque mais parecia um formigueiro cutucado por algum moleque travesso, reviravam cada folha e cada pedrinha em busca de alguma pista, mas eu havia apagado qualquer rastro, faltava apenas uma hora para terminar o prazo de me encontrarem, o fantasma da derrota os assombrava. Como uma aranha armadeira dentro de sua toca, eu observava tudo, ao longe eu ouvi um menino de outro clube gritar.<br> "O serrado, tragam o serrado é nossa última chance".<br><br>Quem seria o Serrado? Pensei com meus botões, passaram-se mais vinte minutos quando comecei a ouvir o latido de um cão, o Serrado era um velho sabujo treinado para encontrar caças e pessoas desaparecidas, meu sobrinho deu minhas roupas para ele memorizar o cheiro, ele começou a ziguezaguear e fazer círculos, com o focinho quase grudado no chão, mais parecia um velho e barulhento aspirador de pó, de repente ele saiu correndo e ganindo, sacudindo suas enormes orelhas caídas, ele havia encontrado o meu rastro, veio direto a mim como se estivesse farejando um bode ou um peixe podre, parou diante do buraco e começou a latir desesperadamente. <br>-“Ele encontrou, ele encontrou”, gritavam os meninos que conheciam o costume de seu cão.<br> <br>Mas o que ele está fazendo ali dentro do buraco? Se perguntavam? As indagações eram muitas, até que chegaram à conclusão de que eu havia caído ali dentro e precisava desesperadamente de ajuda. Oculto na escuridão de meu refúgio eu permanecia imóvel tentando não revelar minha presença, faltavam quinze minutos para terminar o prazo da busca, eu não iria me entregar facilmente. Um menino se aproximou e começou a escorregar pelas paredes, foi ai que tive que usar minha arma secreta, um velho couro de onça que eu tinha guardado em meu porão e a muito não o usava, coloquei só a cabeça da onça para fora e soltei um enorme rugido, o fedelho quase morreu de susto, de um só salto pulou para fora do buraco e saiu gritando:<br>-” Uma onça, tem uma onça ai dentro ." <br>-"A onça comeu meu tio", gritava meu sobrinho, chorando copiosamente. <br><br>Esta tudo bem, dizia o Chefe Bira, tentando acalmar o garoto, nós vamos tirá-lo dali. Centenas de escoteiros estavam reunidos em torno de mim gritando, batendo latas e atirando pedras, mas nada me afugentava, de vez em quando eu mostrava a cabeça da onça e soltava um rugido, estava disposto a resistir até o fim. Faltavam cinco minutos para terminar o prazo. Sem enxergar direito por causa da pele da onça que estava em minha cabeça eu vi um guri se aproximando, ele corria e gritava:<br>-” Saiam da frente".<br><br> Estava todo enrolado com folhas de bananeiras e o rosto coberto de barro, enquanto ele passava a molecada abria o caminho como se um barco cortasse as águas de um lago tranquilo, ele trazia algo nas mãos, mas não dava para ver direito o que era, quando faltavam uns cinco metros para ele chegar até meu esconderijo, arremessou algo dentro do buraco, seu tiro foi certeiro, acertou bem onde eu estava. Pelas barbas do profeta, era um cacho de marimbondos, levei tantas ferroadas que mais parecia que tinham atirado sobre mim um caldeirão de óleo fervendo, desesperado pulei para fora agitando freneticamente os braços e gritando de dor, com o couro da onça eu tentava espantar os marimbondos que estavam sob mim.<br><br>Os escoteiros fizeram um rápido silencio até entenderem o que estava acontecendo, logo após alguns segundos a gritaria foi geral, o Chefe Bira olhou para o seu relógio e gritou:<br>-"Vencemos”. <br><br>Faltavam apenas dois minutos para terminar o prazo e apesar de todos os meus esforços eu havia sido derrotado por um bando de escoteiros e um velho sabujo. No caminho de volta até a entrada do parque todos queriam me ver e me tocar, eu andava escoltado pelos meninos como se fosse um general inimigo derrotado e capturado após uma violenta batalha, por todos os lados ouvia-se seus gritos de guerra. Já era tardezinha, o Chefe Bira armou uma enorme fogueira onde todos os escoteiros se reuniram ao redor. E após um longo e fervoroso discurso exaltou e condecorou vários escoteiros por bravura e cumprimento acima do dever. <br><br>Ao terminar o discurso ele perguntou se eu aceitaria um novo desafio para o ano que vem? Aceitei prontamente, e embora tivesse fracassado miseravelmente, ainda não havia me dado por vencido, desafiei os escoteiros dizendo que o ano que vem seria diferente e seja lá qual fosse o desafio eu os venceria. E foi neste clima de ânimos exaltados e afrontas que nos despedimos, os escoteiros, sentindo-se invencíveis, afirmaram que me derrotariam em qualquer prova e circunstancias.<br><br><br><br>E-mail: [email protected]