Perdi meu príncipe encantado

No dia em que viemos de Mandaguari para morar em Osasco, ainda bairro de São Paulo, eu, meus pais e minha irmã mais velha, estava sendo comemorado o 4º Centenário da cidade.

Na época, eu era bem novinha, magrinha, quase uma criança ainda. Tinha apenas 12 anos, mas com um corpo de "mocinha". Ninguém acreditava que tinha tão pouca idade.

Vim com um namoradinho à "tira-colo" de Mandaguari. Ele, com cerca de 16 anos, e seu irmão mais velho, já estudavam em São Paulo e os conheci na época de férias escolares.

Encontrávamos-nos todos os domingos, ou para irmos ao cinema ou para um simples passeio na, linda e sempre florida, Praça da República, cenário perfeito para os recém-chegados do interior do Paraná para… Namorar… Namorar… E namorar, é claro!

Lembro dele me dizendo: "Nunca imaginei que um dia passearia com você nesta praça!". Ofereceu-me, em um desses passeios, uma bala de leite recheada com coco caramelizado (era novidade na época!), que nunca mais esqueci…

Mas, algum tempo depois, já no bairro de Osasco, talvez por ainda ser muito jovem, sem juízo, conheci um belo rapaz de 25 anos (13 anos mais velho!), de cabelo bem preto, moreno claro e com olhos azuis "de matar" que me impressionaram!

Eu era uma novidade no bairro. Bairro que mais parecia uma antiga "Província Italiana" onde todos se conheciam.

Na época, eu andava de bicicleta, usava calças compridas e rabo de cavalo, o que chamou a atenção do belo rapaz. Muito sedutor, começamos a flertar e logo estávamos apaixonados. Eu cursava o 1º ano ginasial e já não me interessava mais pelo meu namoradinho. Com o passar do tempo, meu namoradinho percebeu e não apareceu mais. Só não me lembro se chegamos a conversar sobre isto…

Namorei por 3 anos com meu novo namorado e casei com 15 anos, ainda no 2º ano ginasial (havia repetido de ano!). Nos primeiros cinco anos de casamento, fui a mais feliz das mulheres. Já tinha três filhos com apenas 19 anos de idade (duas meninas e um menino). Meu marido, muito ciumento, rasgou todas as cartas e fotos do meu namoradinho de Mandaguari (só me restaram as lembranças…).

De repente, minha vida mudou! Ele passou a ter amantes e muito ciúme de mim. A vida só piorou, apesar de ele ter sido um homem trabalhador, sem vícios, honesto, que não deixava faltar nada em casa e amava muito os filhos. O seu ciúme por mim era doentio. Se não fosse isso, poderíamos ter sido muito felizes.

Eu sofria e chorava muito. Nas horas de muita tristeza e depressão, me lembrava do namoradinho de Mandaguari…

Não trabalhava e ainda não havia terminado o ginásio, porque meu marido não permitia. Meus filhos já eram adolescentes quando resolvi trabalhar. Queria trabalhar de qualquer jeito! Tinha 37 anos e pensei em me separar… As crianças já estavam crescidas e iriam entender… Não consegui, acho que por dó dele, não sei, mas terminei o ginásio através de uma bolsa de estudo conquistada por ter passado em 1º lugar numa pré-seleção feita na própria escola. Logo depois, passei em 23º lugar no concurso público do Estado de Sáo Paulo, na Secretaria da Saúde; e mais tarde, concluí o colegial.

Por intermédio de uma colega de serviço que visitava anualmente seus pais, moradores de Mandaguari, tive notícias do meu ex-namoradinho. Lembro quando ela me contou que alguém da família dele havia morrido… Não sabia quem…

Apesar de tudo, sempre fui muito sonhadora (será que é por ser do signo de câncer ?) e esperei que, um dia, o "Príncipe Encantado" viesse me salvar…

Quando meu marido faleceu, há 3 anos, resolvi encontrar o meu "Príncipe Encantado", que nunca apareceu. Pedi para que minha filha tentasse achar alguma notícia dele em Mandaguari, mas ele já não se encontrava mais lá… Talvez em Maringá? Também nada!

E o que não se acha pela Internet, né? Então, ela o encontrou em Umuarama, também no Paraná… Consegui seu telefone do serviço. Demorei a ligar. Estava receosa. Não sabia como seria recebida depois de tê-lo trocado no começo de nossas vidas. Mas, mesmo assim, liguei e depois de três dias, consegui falar com ele (é um homem muito ocupado).

Que vergonha! Não sabia como me comportar, o que dizer… E, então, ele me atendeu. Tão gentil, tão educado… E ficou tão feliz com o meu telefonema que fiquei lisonjeada! O meu "Príncipe Encantado" estava ali, falando comigo! Ah, que felicidade! Mas a minha felicidade durou pouco, como sempre…

Comunicamos-nos algumas vezes , por e-mail. E, então, senti que ele não queria mais manter contato, pois estava casado há pouco tempo, com uma moça bem mais jovem, após ter ficado viúvo.

Era muito tarde… Por que não liguei antes?

Analisando tudo isso, o que ele é agora (um homem inteligente, culto e educado), percebi que ele talvez fosse "muita areia pro meu caminhãozinho"…

Então, conclui que só me resta desejar que ele seja muito feliz e que me desculpe… e desculpe…e desculpe!

Pena que a Praça da República continue linda e florida somente nas minhas lembranças… E como era linda! E talvez hoje, na sua atual situação, já não sirva mais de cenário para histórias de amor adolescente, tão linda quanto a minha…

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