Passei minha infância na Rua José Maria Lisboa. Os meus limites eram a Alameda Casa Branca, onde estudava, e a Rua Peixoto Gomide. Praticamente tudo o que precisávamos estava localizado ali naquele pedaço: padaria, dentista, costureira, e outros.
Na minha idade ia várias vezes por dia comprar doces, pirulitos, balas, chocolates, enfim, tudo que era porcaria com açúcar e que estragava os dentes. Nossa mãe nem podia ficar sabendo. E moleque quando está solto na rua adora encontrar uma caixa de papelão, pois é só pegar o embalo, vir correndo e sapecar um "bicudo" na caixa que ela voa muitos metros para longe e para o alto; aí é só continuar chutando até que a caixa desmonte.
Numa destas idas à mercearia comprar doces, na esquina da Casa Branca com a José Maria, avistei de longe a caixa a ser chutada. Uma bela caixa novinha de uns 40,0 X 40,0 cm. Quase perdi o fôlego com a visão; desembestei pela rua e imprimi o mais forte chute de que era capaz com meus oito anos. O prazer do chute foi imediatamente substituído pela dor lancinante no dedão de meu pé. O mundo deu umas três rodadas em minha cabeça e sentei no chão chorando. Escutei imediatamente um bando de pessoas gargalhando a mais não poder. Levantei a cabeça e vi na casa da esquina uma família inteirinha reunida após o almoço do sábado se divertindo às minhas custas, pois um dos filhos daquela casa havia colocado uma pilha de paralelepípedos embaixo da caixa. Ele preparou a armadilha, contou a toda família que se postou ali na varanda após o almoço para esperar pela vítima que infelizmente fui eu.
Segui mancando para casa com o dedo quebrado e até hoje penso na maldade humana. E na falta de socorro e solidariedade com uma criança seriamente machucada. Pegadinha naquele tempo machucava, e muito.
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