Pedalando na Vila Pompéia

Eu era daquelas crianças que quando colocava alguma coisa na cabeça acabava vencendo pela insistência, pela persistência. Assim foi com a bicicleta, minha primeira bicicleta. Meu amiguinho de rua e de vizinhança ganhou no aniversário uma bela bicicleta. Como não sabia andar eu era seu assessor para segurá-lo, naquele período de aprendizagem.

Como recompensa e agradecimento ele me deixava dar umas “voltinhas” e acabei aprendendo mais cedo que ele. As ruas, na Vila Pompéia, eram tranquilas e não ofereciam perigo às crianças que brincavam nas calçadas e, além do mais, os motoristas as respeitavam e transitavam cuidadosamente naqueles espaços.

A partir daí meu pai não teve mais sossego. Eu falava da bicicleta o tempo todo, tentando sensibilizá-lo. As respostas eram sempre as mesmas: "No dia de Natal", "No seu aniversário" e nada de bicicleta. Afinal meu pai não era rico e eu tinha que ter paciência, palavra desconhecida das crianças.

Num belo e inesquecível dia, véspera de meu aniversário, meu pai me pediu que fosse a um corredor que separava nossa casa da casa do vizinho. Lá estava ela, adquirida na Mesbla, totalmente envolvida por papéis, que retirei ansiosamente: Era uma bicicleta de cor cinza, com farol, freios de mão, bomba para encher os pneus e todos acessórios necessários. Ela tinha um detalhe que a tornava luxuosa, pneus com faixas brancas.

Acredito que fosse importada, pois nunca mais vi ou encontrei outra igual. Foi aposentada honrosamente depois de muitos anos por tempo de serviço. Lembro-me com muita emoção desse episódio e desse tempo em que as crianças podiam, sem sobressaltos, andar pelas ruas dos bairros e até prestar algum serviço em casa, como buscar o pão e o leite, levar um recado para a comadre ou comprar botões no armarinho da esquina com absoluta tranquilidade.

Já adulto meu sonho passou a ser um carro ou automóvel, como se dizia naquele tempo. Comprei-o com meu trabalho, pois não dependia mais de meu velho e amado pai. Mas, cá entre nós, a emoção jamais se comparou à alegria que senti quando ganhei a primeira bicicleta. Hoje sei… Não estamos seguros nem mesmo dentro de nossas casas e que nos tornamos prisioneiros de nossas próprias moradas. "Feliz o tempo que passou… passou… Tempo tão cheio de recordações…".

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