Passo Doble – 7 e meio…

Há algumas décadas, os sapatos eram como os automóveis. Alguns caros e luxuosos e outros, simples e populares. “Samello”, “Schattamaccia”, “Pizanni” e outros, confeccionados em autêntico cromo alemão ou em pelica, tão macia que nos fazia sentir como se nas nuvens estivéssemos e, muitas vezes, custavam os 'olhos da cara'.
Os mais em conta eram oferecidos a preços módicos, porém a qualidade do couro, muitas vezes, deixava a desejar. O vendedor, solícito e ávido pela comissão, incentivava-nos à compra.

Nas muitas sapatarias que São Paulo teve (e ainda tem), depois da escolha do modelo, o passo seguinte seria experimentá-lo. Força daqui e ajeita dali, o sapato finalmente entra em nosso pé, mas existe um aperto que, invariavelmente, se localiza ou no calo de estimação ou no calcanhar que nos obriga a utilizar um protetor, como na música de João Bosco e Aldir Blanc '…e a ponta de um torturante band-aid…' Sem se dar por vencido, o solícito vendedor nos conforta com a máxima de todo atendente das sapatarias e nos diz: – “Vai apertar um pouco mas, com o tempo, 'laceia'…”

Pois então. Nem todo pé é para a mesma forma e nem toda forma é para todos os pés e lá vamos nós passarmos 'torturantes' semanas de ‘manquitolações’ até que o bendito do sapato 'laceie'. Esta situação se dava porque nem todos buscavam os sapatos apropriados para as atividades comerciais e, daqueles que 'batiam' a cidade de cabo a rabo, de norte a sul e de leste a oeste, gastando a sola do 'pisante' como fazem os 'office-boys' e outros caminhantes. Poderíamos encontrar dois modelos que sofreram algum preconceito, mas atendiam as necessidades e exigências do dia a dia do paulistano (e dos baianos também rsrsrs).

Estou a me referir aos ícones dos sapatos populares, o Vulcabrás e o Passo Doble. Ambos tinham a sua confecção observada pelo rígido controle de qualidade, pois era o 'pisante' do batente. Colegiais, carteiros, motoristas de ônibus, advogados (porque não), mensageiros e office-boys (nem todos), usavam ambas as marcas, sendo que o Vulcabrás era considerado o 'Fusca' e o Passo Doble o 'DKW', carros que fizeram a cabeça de muitos de nós na época e até o ex-Prefeito Paulo Maluf emprestou a sua imagem para a propaganda do Vulcabrás.

Tive um 'caso' muito pessoal com as duas marcas e especialmente com o Passo Doble, quando fazia meus serviços esporádicos de balconista da farmácia Osvaldo Cruz, de meu estimado amigo Álvaro, na Rua Santo Antonio, no bairro do Bixiga. Álvaro só usava sapatos da marca Passo Doble e, depois dos longos anos de 'bons serviços prestados', era chegada a crucial hora da substituição do 'heróico pisante'. E lá ia eu para a Rua Barão de Itapetininga, diretamente à Loja de Caçados Eduardo, adquirir um novo par de sapatos Passo Doble. O que me deixou intrigado na minha primeira vez em comprar tal par de sapatos foi a numeração, para mim estranha, pois sapatos para adultos têm sua numeração a partir do número 37 e vai até o 44; os Passo Dobles vinham com a numeração a partir do número 4 e ia até o 11 (numa referência à Europa ou Estados Unidos, sei lá) que, além de terem essa estranha numeração, ainda dispunham de uma meia medida entre os números.

Para melhor se entender, explico. O Álvaro calçava (na época) sapatos de números entre o 40/41. Se o número quarenta ficava-lhe um pouco apertado, o 41 ficava um pouco folgado. Então, a Passo Doble criou o intermediário 40½ que, para os padrões internacionais, seria o número sete e meio. E o Álvaro calçava-os muito bem. Nem eram muito apertados e nem muito folgados, mas na medida. Foi uma curiosa descoberta, pois nenhuma outra fábrica (pelo menos que eu saiba) adotou tal procedimento. Eu já havia visto e comprado calçados com as numerações diferenciadas das que estamos acostumados, mas daí haver uma meia medida entre os números, só o Passo Doble.

De lá para cá e depois de correr rios e mundos, só tenho notícias do bom e velho Vulcabrás, mas do Passo Doble, só saudades. Outras marcas e modelos também povoaram aquela época, foram o Alpargatas Rodas, Conga Sete Vidas, Kichute, Kéds, Globetrotter's e outras mais efêmeras, até que o modismo e a modernidade de novas marcas e modelos relegassem-nas a um esquecimento ou segundo plano. Hoje os sapatos são uma espécie de identidade – 'dize-me o que calças e te direi quem és'. Sapatos sociais, bem lustrados, bico fino e couro de boa qualidade estão nos pés dos empresários, políticos e autoridades. Os jovens optam pelo “sapatênis” ou tênis de boa marca (alguns estão nos pés dos desportistas, surfistas, alguns intelectuais, pessoal do gueto etc).

Aqui no nordeste, em especial na Bahia, não abrimos mão de uma boa sandália de dedo (tipo Havaianas) e, sem menosprezar um bom sapato de couro de primeira, para serem utilizados em ocasiões muito especiais, tais como ir à missa, batizados, enterros ou casamentos. De minha parte, não me aparto de um bom par de alpercatas de couro cru, bem a gosto do sertanejo das caatingas do sertão, indumentária bem a propósito com o cenário onde me encontro.

Passo Doble, preto ou marrom, sete e meio ou inteiros, eles que fiquem nos pés do Álvaro, que meus calos já estão sarados.

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