É um destes dias de sol, de junho, outono quase inverno. Sim, faz frio, porém, os dias são bonitos, ensolarados. Céu azul, "céu de brigadeiro", poderiam dizer aeroviários ou aeronautas – uma coisa ou outra que, lamentavelmente, nunca fui. Eu, que gostaria ao menos de ter voado num "Paulistinha". Aqueles lindos aviõezinhos teco-tecos de aeroclubes dos anos 50. Eu, que nunca voei! Que sonhei em ingressar no mundo aeronáutico, mas – por falta de garra – permiti que o sonho se desmanchasse, como as asas do Ícaro…
Hoje, então, estou vindo a pé, da Rua Sumidouro – onde trabalham meus dois filhos: um no DSV, outro na CET – em direção à Faria Lima, apanhar condução. Caminhando por prazer. Faria Lima que, no começo dos anos 60 – lembro bem – era ainda a estreita Rua Iguatemi. Creio que antes da implantação do shopping pioneiro. Rua pela qual passava, às vezes, a trabalho, a bordo do ônibus "Fábrica-Pinheiros", da Viação Taboão. Linha que hoje vai até o CEASA, com outro nome.
Nesta caminhada de agora, passando pelo Largo de Pinheiros, o som forte de turbina de jato. Por sobre a igreja, mais ao alto dela, um Boeing da Gol. Trem de pouso já baixado, rota de pouso (dentro de minutos) no chão de Congonhas: através da cabeceira do "xadrez", ao lado da Washington Luís. Até eu chegar ao ponto do ônibus, na Faria Lima, jatos outros terão passado: Boeing e Airbus, quase todos…
Meus olhos vêem o Boeing, porém, a mente como que "revê" – cinquenta anos passados – um Douglas DC-3! Ou um Curtiss C-46, talvez um Convair (240, 340, 440), para não dizer um Scandia. Bimotores a pistão, reis dos ares do meu tempo de criança, anos 50. De quando eu morava na Vila Mariana.
Àquele tempo, as "aeronaves" (como referem os aviadores) – para aterrissar no Congonhas, pelo "xadrez" – passavam literalmente por sobre o quintal de minha casa. Em frente à Rua Caravelas. Quintal enorme, adjacente à também enorme chácara, onde hoje passa a Avenida 23 de Maio. Pois o trem baixado deste Boeing da Gol remete a lembranças daqueles bem menores aviões – que eu identificava direitinho – também de rodas à mostra, buscando – tal qual o Boeing – o mesmo pouso seguro, no lindíssimo Aeroporto de São Paulo.
Por volta de seis ou sete anos, eu adorava os aviões. Assim como bondes, ônibus, trens. Inclusive gostava de máquinas como tratores e, por exemplo, aquelas máquinas de comprimir o asfalto que a Prefeitura possuía. Eram máquinas robustas, cheias de engrenagens: pareciam marias-fumaça! Tinham fornalha, vomitando fogo, e chaminé! Deviam queimar "óleo-cru", não? E as motoniveladoras Caterpillar, então? Havia muitas ruas de terra, ainda…
Meados dos anos 50. Eu era daqueles moleques aficionados por aviões. Apesar de absolutamente não entender nada a respeito deles. Nem precisava! Bastava os olhos devorarem tudo quanto era detalhe. Identificar aeronaves, cores de empresas, prefixos, barulhões de motores! PP-SPQ? Vasp! PP-VRI? Varig! PP-LDA? Loide Aéreo! Coisas assim.
Jatos? Não, ainda não. Só a pistão. Jato, à época, só mesmo os caças, ingleses, Gloster Meteor, da FAB. Que vieram em 1953. Duas turbinas, inconfundíveis!
Certa ocasião, no Ibirapuera, uma exposição da FAB. Botaram, então, uma dessas turbinas do Meteor para funcionar. Demonstração. Numa espécie de cavalete. Um estrugido! Da minha casa, um quilômetro dali, dava para ouvir o bichão! Muitos lembram: o Brasil entra na "era do jato", na aviação civil em 1958. Com o belíssimo Vickers Viscount, inglês, da Vasp. Turboélice, quadrimotor, inesquecível.
Minha memória ainda registra uma cena de "passo-bandeira". A situação em que, num motor a hélice, esse motor para de funcionar em pleno vôo (emocionante, hein?)! Na verdade, quem fica no tal de "passo-bandeira" é a hélice: quando corta o ar com menor resistência. Mas o pessoal que voa referia uma expressão: "motor embandeirado". Que seja! Toca o bonde! Melhor: pilota o avião!
Assim foi: era um Curtiss C-46 da Real. Cauda listada de verde, lembro direitinho. Voando bem mais baixo que o padrão, trem de pouso ainda recolhido. Eu estava, por acaso, no quintal. Acho até que era uma tarde de domingo. Num curto espaço de tempo, a retina fotografou o que foi possível. Um motor – dos dois – paradão! "Passo-bandeira", o próprio! Deu para ver bem: nas janelas, pilotos e passageiros – com certeza – apreensivos. A aeronave – até onde pude ver (não havia prédios altos) passou por sobre a grande chácara e – de longe – contornou o obelisco de 32. Os pulmões do motor remanescente aguentaram a chegada à Congonhas – pois cair, felizmente, o avião não caiu! Fiquei impressionado com a baixa altitude de vôo daquele bimotor veterano…
Vez por outra, num domingo pela manhã, meu pai me levava ao Aeroporto. Quando de lá se podiam apreciar os pássaros de prata! Estar naquele logradouro já valia a pena o passeio! Panair do Brasil, Real, Varig, Vasp. Cruzeiro do Sul – os aviões "batizados" com nomes de constelações! Sadia, Paraense, Catarinense, Savag. Loide Aéreo. Era quase tudo DC-3, Curtiss e Convair. Scandia! Exclusivos, no Mundo, da Vasp! Até aeronaves militares, da FAB: o anfíbio Catalina, de asa alta; bombardeiros B-25 e – raríssimo – B-17!
Época em que, de Congonhas, avistava-se a cidade quase que em 360 graus! Ah! Sem esquecer dos quadrimotores internacionais: Braniff, Pan Am, Alitalia, Iberia, Air France, KLM, Scandinavian, Lufthansa, Japan Air Lines, Aerolineas… Era o universo dos Constellation e Super! Douglas DC-4, DC-6 e DC-7… Dá saudade!
Entretanto, o passeio não ia longe: à hora do almoço, era retornar. Não de DC-3, mas de ônibus! Helicópteros? Só mesmo os bojudos Sikorsky da FAB. De busca e salvamento: S. A. R. Que chegaram a se exibir sobre o Anhangabaú, lembra alguém? Veteranos, a pistão, da Guerra da Coréia.
Bem, para casa, no velho ACLO, inglês, da CMTC. Linha 113-Anhangabaú/Aeroporto, via Ascendino Reis, estreitinha. Onde hoje é a Rubem Berta, mato. Tais ônibus ACLO, ingleses (chassi) como os caminhões amarelos, da SHELL. Que freneticamente rodavam pela pista do Aeroporto para abastecer as aeronaves. Só que tais caminhões da SHELL – fiéis à originalidade de ingleses – tinham o volante do lado direito. Os ACLO da CMTC, não. Uma vez "chassi for export" – tinham o volante do "nosso" lado, of course!
Por derradeiro: o Boeing da Gol, de hoje, me reconduziu – num lampejo – aos aviões da minha infância. Voando baixo e de trem arriado, prestes a pousar. E no lugar onde meu quintal e a chácara, hoje prédios altos. Com os quais, por certo, se o Curtiss do "passo-bandeira" topasse, não teria chegado a Congonhas!
Da janela do ônibus, que se afasta do Aeroporto, uma última decolagem. É um monomotor, um Bonanza de cauda em "V", provável táxi-aéreo. Cujas pás da hélice resplandecem à luz do sol.
Uma concessão. Como as lembranças são pessoais e intransferíveis, quero garantir – àquele Curtiss e aos demais aviões de minha infância – eterno "céu de brigadeiro". Num horizonte sem fim. Para que voem, romanticamente, com destino a um Congonhas de cinquenta anos atrás: majestoso, encantador. Cinquenta vezes mais bonito!
Voa, São Paulo!
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