Era outubro, mês de outono, mas São Paulo amanheceu chovendo. Uma segunda-feira com uma vontade a mais de ficar na cama para compensar a hora perdida na mudança para o horário de verão de 2011.
Quando a garota entrou na lotação, que vai da Freguesia do Ó para o terminal Barra Funda, tinha uma expressão absorta de quem despertara à força. Encontrou um lugar para se sentar, mas nem assim se achou uma pessoa de sorte melhor que a dos passageiros que foram subindo e se acotovelando no corredor do transporte público.
Pouco tempo depois, notou que a mulher ao seu lado segurava algo nas mãos. De relance, notou que esse "algo" começou a se mover e era um pássaro que, voando de raspão sobre a menina, fugiu para o limite do espaço da lotação.
A maioria das pessoas tem seus traumas e temores. Muitos deles são inexplicáveis. Outros são chamados de aversão, no caso de bichos peçonhentos. Para a garota seu maior medo é de pássaros. Tem aflição até de penas, mesmo que inertes e desalojadas de sua origem. Temor irracional, como muitos.
Surpresa ouviu resmungos de algumas pessoas criticando sua atitude chorosa e assustada:
– “É apenas um pássaro perdido. Não tem coração, menina? Pobrezinho…”
Uma mulher rouba um pássaro de sua natureza, provavelmente de uma praça qualquer da grande cidade de São Paulo, e leva para uma condução lotada e de janelas, fechadas por causa da chuva, e a menina é que leva a culpa?
A ave se apoiou num dos canos traseiros dos bancos, assustada, esperando o pior, após se aventurar por entre obstáculos inusitados: cabeças, bolsas, cadernos, sacolas e tantas outras coisas.
Muitos passageiros já tinham descido, inclusive a mulher que criara a confusão.
Os que ficaram olhavam perplexos a garota sem se preocuparem com o mais importante: libertar a ave que ainda se encontrava lá dentro. Precisou uma moça alertar:
– “Será que alguém pode soltar esse coitado?”
Certamente ela não tinha coragem de pegá-lo, mas tinha o bom senso e a determinação na personalidade que chamou à razão os incessantes acusadores.
Um rapaz atendeu imediatamente e o pássaro finalmente se libertou, pouco antes de chegarem ao tumulto do terminal Barra Funda. Lá a garota deixou a lotação, no meio de alguns dos seus algozes acusadores, sem trocar um olhar com ninguém. Apressou o passo para pegar o metrô. Tinha tempo de sobra para chegar à estação Anhangabaú e de lá seguir em direção à PUC Consolação.
O coração ainda descompassado, e as pernas trêmulas na tensão para chegar logo à faculdade e uma vontade premente de pegar o celular e registrar no facebook:
– “Uma mulher com pássaro na mão, ao meu lado na lotação. Só podia ser comigo…”
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