Pare o baile

Um dos recantos mais gostosos da cidade de São Paulo era o Avenida Danças situado na Avenida Ipiranga. Quem gostava de baile ia até lá, mesmo sem saber dançar direito e dar uns passos na base do dois pra Ca, e dois pra lá. O Avenida Danças era uma casa que sempre havia harmonia e jamais vi uma briga por qualquer coisa o, que era comum em bailes, até mesmo em família.

O Avenida Danças tinha seus "bailarinos" habitues e eram muitos, não era tão popular como o Vila Shofia "velho" salão de baile do bairro Socorro região de Santo Amaro, ou o "Bailão do Pedro Sertanejo no Pari ou "O bailão do Zé Bétio" no Jaçanã. O salão do Avenida Danças recebia gente de toda a periferia de São Paulo, e foi o sucessor do Elite 28, que se incendiou em 12 de Junho de 1953, na noite do famoso Baile de Santo Antonio, onde infelizmente morreu muita gente, inclusive do Itaim Bibi.

No Avenida Danças, se dançava na base de picotes de cartão, era o chamado Taxi Danças, cada minuto era um picote, e na saída se pagava por minuto dançado, por isso era preciso ficar de olho no relógio, tinha gente que dançava olhando mais para o relógio do que para a dama que entrelaça seus braços as costas. Mas o que jamais imaginei era que tomando algo com uma mulher o cartão também era picotado.

Certa sexta feira que o salão estava bem carregado. Fui com uma bela dona para a pista e logo a convidei para uma "birita", e lá deitando copo e anotando um apontamento para um hotel, me despedi dela, pois já era a madrugada de sábado. Ao chegar ao guichê meu cartão recebeu uma faixa em diagonal, perguntei o que era aquilo, e a resposta foi de que ele estava dobrado, ou seja, tinha que parar os minutos dançados e, os que estavam "biritando" com a "figura".

Em outra sexta feira dia de fortes emoções, dia em que mais tinha mulheres do que homens e o que predominava eram as empregada domestica, por que no sábado geralmente as madames e seus maridos iam passear logo cedo e não precisavam do serviço delas. Por isso ficavam até mais tarde na rua e podiam dormiam até mais tarde. Mas um dia eu e o Miltão, fomos a um baile do "risca faca" na Vila Brasilândia, acompanhando duas belas empregadas domesticas que fechavam qualquer comercio na cidade.

Na volta fomos convidados a dormir com elas em seus respectivos quartos que ficavam nos fundos da moradia, uma mansão no Jardim Paulista. Só que dormimos mais do que devíamos e quando vimos já era sete horas da manhã e as crianças brincavam com triciclos no quintal da casa. Trocamos figurinhas até altas horas, por isso o sono foi até o sol ficar bem quente. Por causa disso, ficamos presos no quarto sem poder sair devido à presença das crianças, tomamos café no quarto trazido pelas nossas amigas, mais tarde o almoço, as horas passavam e nada de a gente poder sair:
– “Poxa Miltão, já está na hora do jogo e nós aqui presos”.
– “Como é que fomos dar bobeira” – reclamava ele.

Quando os donos da casa resolveram sair já eram 17h, nosso jogo já tinha acabado e nossa ausência foi muito notada, pois éramos sempre os primeiros a chegar ao campo com as chuteiras embaixo dos braços. Contar o acontecido foi mais do que as piadas de bom gosto contadas quando tomávamos cachaça e comíamos quadradinhos de mortadela no bar do Celestino.

Mas voltando ao salão de baile do Avenida Danças, em uma sexta feira de salão lotado, com mais mulheres do que homens, o que era gostoso porque havia disputa de mulheres agarrando homem para dançar. Quando o baile estava bem quente e isso acontecia quando o relógio marcava mais de 23h chegou a Rota.

O chefe do pelotão policial pegou o microfone da mão do Crooner e disse:
– “Atenção, acabou o baile, a Rota chegou. Encostem todos na parede”.

Antes de o pessoal se levantar ouvia-se barulho de coisas caindo no chão. Eram facas, canivetes e até armas de fogo. Todos de costas para o centro do salão e com as mãos na parede, e os policiais fazendo revista.

Ninguém foi preso, e acho que nem era o que eles queriam, o que eles gostavam mesmo era de fazer seus "brilharécos". Só de gritar “a Rota chegou”, já era o que eles precisavam. Tudo teria sido coisa normal, se não fosse o grito que deu Maria "escandalosa" quando um dos policiais a apertou.

Íamos aos bailes para paquerar e um dia vimos a Rosa, uma divina mulher casada que morava na Vila Olímpia e, quando o marido ia viajar, coisa que fazia sempre a trabalho ela ia ao baile com uma amiga. Norberto quando a viu ficou todo assanhado, e foi dançar com ela, conversou
bastante e ela sempre foi muito conversadeira, e ele já ficou com maus pensamentos sobre ela.

Era vizinho de muro e um dia ele aproveitou que ela estava em casa e, logo pela manhã, bateu um papo querendo chegar junto com ela para um “trê-lê-lê”. Ela ficou muito brava e disse em voz alta, puta da vida e foi dizendo em vos alta:
-“Olha cara, isso que você quer fazer comigo, sua mãe faz, sua irmã faz, sua mulher faz e eu também faço. Agora é preciso saber com quem a gente faz. Não é com qualquer ‘Zé Migué’, que a gente vai para cama”.

Norberto não sabia onde enfiar a cara. Rosa era mulher do Zé Caipirinha, que não passava de um louco que tinha coleção de armas em casa. Todas penduradas nas paredes da sala. Imaginem se ele fica sabendo de uma coisa dessas. Para que tenham uma idéia, ele era chamado de louco, ou melhor, “Zé Louquinho”.

Zé Caipirinha era são paulino roxo. No dia em que o São Paulo estava disputando o titulo de campeão brasileiro de 1977 contra o Atlético Mineiro, enquanto o jogo o transcorria estava fazendo uma bomba para saudar o titulo que ele tinha certeza que seria do seu São Paulo, era um canudo de ferro, e ele ia colocando pólvora dentro e socando, depois colocou o pavio. A bomba estava quase pronta quando a decisão foi para a disputa de pênaltis, e ele aproveitou para dar os últimos retoques na bomba.

Quando o jogador do São Paulo bateu o pênalti que deu o titulo para o São Paulo ele botou fogo no pavio e jogou do seu andar para o térreo. A explosão foi tão forte quebrando vidros das janelas do térreo. Pelo menos três moradores pensaram a mesma coisa: “Isso só pode ser coisa do Zé Caipirinha”.

Em 1975, o São Paulo foi jogar contra a Portuguesa de Desportos, era o primeiro jogo de uma melhor de três para se saber quem seria o campeão daquele ano. Era um jogo noturno, e chegando ao Morumbi, fui à bilheteria comprar os ingressos. Ele me puxou pelo braço e perguntou:
– “Aonde você vai?”
– “Comprar os ingressos” – disse eu.
– “Comprar ingresso? Zé caipirinha não paga ingresso no Morumbi, e quem está comigo também não! Conheço todo mundo, aqui é minha casa".

Como ele era um gargantão, fiquei em duvida. Quando fomos passar pela roleta ele passou e disse ao funcionário:
– “Esse aqui é meu amigo e está comigo”.

Passei pela roleta sem comprar o ingresso. Na arquibancada numerada todo mundo o conhecia pelo nome de registro, José Ângelo. Ao final saímos do jogo que tinha tido a vitoria do São Paulo por 1 x 0, com gol de Pedro Rocha. No bar do Celestino ele contou toda a epopéia, e disse para mim:
– “Estou mentindo?”
– “Claro que não!”

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