Parada Gay

E pensar que ainda no ano passado minhas vizinhas, Dona Vera e sua filha Silvia, saíam apressadas pra irem à Igreja de Santo Antonio e à parada gay, tudo no mesmo domingo.
É, já fez um ano que isso aconteceu! Não bem um ano, pois no ano passado coincidiram o dia da parada com o dia do santo. E se não me engano, o dia do santo é treze de junho. Então ainda não fez um ano. Mas por diferença de poucos dias, não importa. Isso é apenas questão de números, poucos!
De qualquer forma, os organizadores da tal parada insistem em fazê-la coincidindo com alguma data santa. E este ano não foi muito diferente. Digo muito, porque quase coincidiu com o dia de Corpus Christi.
Pois é, quase no dia de Corpus Christi. Parece até que estão querendo afrontar a Igreja Católica, que não tem sido muito benevolente para com o pessoal do movimento GBLT.
E se a questão dos números não importa na coincidência das datas, cabe aqui lembrar que este ano, apesar da diversidade de informação sobre a multidão presente, vinda de alguns órgãos medidores de multidão, como a imprensa e a PM, todos os números indicavam qualquer coisa acima de dois milhões de pessoas na Paulista, que somados aos outros dois milhões de evangélicos presentes na “Marcha por Jesus” na quinta-feira de Corpus Christi, deu quase a metade da população da cidade.
Isso é que eu chamo de verdadeira diversidade: um dia dedicado à devoção religiosa, outro dia dedicado à devoção pagã. Mas os dois com suas devidas importâncias.
Mesmo que não sejamos adeptos de nenhuma das facções, não dá pra passar despercebido sobre as manifestações. E como disse, ambas têm suas devidas importâncias. A primeira pela forte manifestação de religiosidade, talvez acentuada até pelo momento de reflexão contra a violência que estamos vivendo, fazendo o cidadão voltar-se para os valores espirituais, independente do caminho que assuma. A segunda pela forte manifestação de anseio por igualdade de direitos civis e o reconhecimento pela parceria homossexual. Eles estão lutando pelo reconhecimento de direito de uma situação de fato, que não dá para fingir inexistente.
De qualquer forma, ambas as manifestações acabaram virando um grande evento social, uma grande festa. E principalmente a segunda, pela biodiversidade (em tempos ecológicos), uma manifestação multicolorida e alegre. Tanto assim que eu resolvi conferir.
Parece que havia um clima de euforia. Já na véspera os jornais divulgavam dados de recorde absoluto de público. E a cada ano que passa, parece que a parada gay está ficando cada vez maior. Ela que começou como uma manifestação de uma minoria, daqui a pouco vai representar uma festa da maioria. E nós, heteros, é que teremos que fazer uma parada: a parada do orgulho hetero. Já pensou?
Só sei que havia gente chegando de tudo que era canto, inclusive delegações estrangeiras. Homo de todas as partes e de todos os gêneros. Gays, lésbicas, simpatizantes, aqueles anteriormente denominados de GLS (grand luxe special), transexuais, bissexuais, homos, heteros, entendidos etc.
E como o trânsito da região foi todo impedido para dar espaço aos pedestres, resolvi ir à Paulista de metrô. Aliás, era a única maneira de se chegar à região. Daí pude entender o significado da palavra muito em voga, metrossexual. O que tinha de casais de todos os gêneros, principalmente homossexuais, no metrô. Aquilo era um verdadeiro Metrô Sexual.
E já no metrô fui observando as conversas das pessoas. Uma senhora ao meu lado falava para um casal que estava indo ver seu filho desfilar. Parece que o rapaz ia sair no alto de um trio elétrico, pelo que eu entendi. O curioso é que o casal perguntou se ele, o filho, era homossexual e essa senhora respondeu que o rapaz era hetero, apenas gostava da diversão. Ela, essa senhora, é que era homo, pois estava com sua companheira ao lado.
De qualquer forma, todos estavam tomados de contagiante euforia. Muita gente a caráter. Como a caráter, você poderia me perguntar? Ah, sei lá! Tinha de tudo. Desde bailarinas de patins, cowgirls de cinturão e chapéu, libélulas, bibas velhas, bibas novas, tipos machões musculosos, saradões e marombeiros. Grupos de camisetas pretas bem coladas aos corpos malhados e cabelos bem cortados com muito gel. Todos se abraçando e alguns já se beijando. Era o festival do silicone, da depilação, do pancake e da meia-calça de redinha furada e desfiada.
Valia tudo pra não se passar despercebido. Tudo por um momento de celebridade. E bastava alguém aparecer com alguma máquina fotográfica, para as vedetes de plantão fazerem suas poses para alguma revista qualquer ou para o simples álbum de foto de recordação de algum curioso. Era assim quase que automático. Várias poses e vários cliques.
Ao chegar à avenida então, a coisa se multiplicava. Quilômetros e quilômetros de pessoas. Aquele mar de gente multirracial e multicolorida. Os poucos prédios residenciais da Paulista, tomados de pessoas nas sacadas e janelas. Algumas inclusive decoradas com as cores do arco-íris.
O Conjunto Nacional parece que era o point da euforia geral. Na sua sacada, transformada em camarote vip, uma infinidade de pessoas acenava para os ilustres desconhecidos transformados em celebridades da hora, sobre os trios elétricos.
Do outro lado da calçada no Center 3, no grande outdoor anunciando o próximo filme a ser exibido, estava o Batman, esse fascinante cidadão de sexualidade indefinida, que parecia saudar com sua capa aberta a todos que por ali passavam, ou quem sabe, simplesmente acenar para o Robin, que talvez estivesse em algum daqueles trios elétricos.
A música techno rolando solta, marcando os passos das outras celebridades, não tão celebridades, que acompanhavam a pé o cortejo, formando um mar de corpos seminus e fantasiados. Vira e mexe, surgia no ar um preservativo inflado transformado em balão de festa. Talvez para lembrar a simples leveza do ser, ou talvez que a AIDS ainda exista. Mas, de qualquer forma, tudo era uma festa. E assim foi, noite adentro.
Eu, vendo que a coisa inda ia longe, pois aquela euforia geral servia de combustível para os milhares de protagonistas da festa, resolvi me retirar, já com os meus pés e ouvidos, principalmente este últimos, reclamando dos excessos de decibéis.
No caminho de volta, podia sentir a cadência da batida techno e já pensando em que data santa os organizadores da parada iriam realizar a do próximo ano. Quem sabe, com o apoio da Embratur, fazem uma parada mensal, transformando o fato num grande evento econômico e contemplando, assim, o santo de plantão do mês.

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