Tudo aconteceu nessa última parada gay. De um lado da avenida ambulantes que vendiam suas mercadorias escondidos da polícia, no meio a multidão de pessoas espremidas. Ocultando as janelas cinzentas e poluídas dos edifícios, balões coloridos e fotos de modelos como santos quase despidos fazendo campanha pró-camisinha.<br><br>Fazia frio e quando o carro de som tocou uma valsa, vieram também as primeiras gotas de chuva.A famosa garoa dava as boas-vindas a todos.Vários casais do mesmo sexo dançavam ao som do Danúbio Azul.Era o início de tudo.A cidade pulsava com todos os hotéis lotados, restaurantes e shoppings.O dinheiro rosa dava sua contribuição para o gigantismo de São Paulo.<br><br>Fingia que o som ensurdecedor do carro não afetava os meus tímpanos e olhava as pessoas com uma indiferença pouco comum, como se fosse possível ignorar quatro milhões de pessoas. Me sentia estranho e essa conclusão me afligia. Sorria para o nada e o álcool já tomava conta de mim, me tirando do sério, ou quem sabe me dando lucidez suficiente para encarar aquele delírio coletivo cheio de gritinhos histéricos e boás gigantescos.<br><br>Cumprimentava desconhecidos com um rápido aceno, fumava um cigarro atrás do outro e contemplava um céu cinzento sem sol. Não dava ouvidos a comentários tolos e maliciosos que faziam a respeito da minha roupa sem brilho. Estava imune e vago, porém leve. Parecia que o mundo real tinha ficado estranho naquele cheiro de perfumes adocicados, naqueles exageros e rebeldias. Fui coberto por uma bandeira com as cores do arco-íris e engolia mais um trago.Muitas vezes sorria querendo desesperadamente espantar as lágrimas que teimavam em chegar. <br><br>Senti mãos que me tocavam levianamente, uma criança chorava, outra acenava para mim sentada no ombro do pai, soprou um vento forte e o ambulante oferecia mais uma latinha.Fui dançar com estranhos no meio daqueles pingos que caía.A camisa molhada fazia carinho na pele com frio, meu cabelo fazia confidências no ouvido… Eu me erotizava numa espécie de erotismo dos sentidos.<br><br>Logo notei um homem desconhecido olhando para mim. Seus olhos estavam limpos, lavados pela folia e por alguns segundos fiquei tímido e nu. À primeira vista não passava de um medíocre e seu cabelo estava ridículo. Segurava em uma das mãos um copo descartável com um resto de uísque àquela altura, totalmente aguado. Estava sem camisa e usava um jeans já bem gasto e sujo. Fazia gestos para que eu fosse dançar com ele e confesso que gostei da sua ousadia.<br><br>Dei uma de recatado e não fui ao seu encontro. Fui procurar algo para comer e demorei a ser atendido. Enfim, quando viro para sair daquele tumulto, esbarro nele. Naquele momento senti que a vida soprou em meu rosto. Sua mão áspera, calosa, segurava meu braço. Baixou sua boca na altura do meu ouvido e sussurrou com um hálito quente:<br> – “Agora te peguei!”<br><br>Nessas horas a gente não consegue explicar o que ocorre. Senti uma onda gigante que fervilhava, era como está cara a cara com uma parede de concreto que pulsava e me agoniava perante a minha falta de forças. Eu seria apenas mais um louco!<br><br>Nervoso, tentei acender um cigarro retorcido. Ali, no meio da Avenida Paulista, sua boca com gosto de uísque tentava dizer algo. Como dois náufragos fomos esquecidos do<br>mundo real e minha alma subia aos céus flutuando:<br>-"Vamos, vamos! Vem comigo!”<br><br>Cego, deixei que me guiasse até o vão do MASP. Como uma garota barata obedeci, porque sempre soube que com os homens não se deve brincar. Ficamos abraçados, abandonados pelo mundo, pelo relógio e tendo como cúmplices as centenárias árvores do parque Trianon.<br><br>Há dias venho pensando que aquele dia nunca anoiteceu, nunca me esqueceu. Quero, numa próxima parada gay, ficar novamente embriagado e buscar no amor livre de preconceitos a maneira mais adorável de se viver. <br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>